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Dez grandes discos ao vivo lançados nos anos 70!

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Autor: Márcio Chagas

13/07/2020

Se em estúdio determinados grupos ou artistas são amparados por um produtor experiente e têm chance de repetir incessantemente determinadas canções até o limite da perfeição, ao vivo a coisa muda de figura. É somente a banda de frente para o público com apenas uma chance de mostrar o que sabe. Obviamente há algumas correções feitas posteriormente, os tais overdubs, que ganharam força a partir dos anos 80. Hoje em dia é difícil distinguir o que foi gravado ao vivo e o que foi corrigido em estúdio, mas nos anos 70, sem toda essa tecnologia, os grupos precisavam se esforçar para conseguir um bom resultado no palco que merecesse ser transformado em disco. Por este motivo dou tanto valor aos álbuns lançados naquela década, embora reconheça que houveram alguns ajustes.
O titulo acima se refere a grandes discos de rock gravados nos anos 70. Preferi assim, pois esse negócio de melhor ou pior é sempre muito subjetivo. Além do mais, só quando fui escolher os dez discos para integrar a lista que percebi o tamanho da encrenca que havia me metido. Há uma infinidade de excelentes trabalhos e muitos obviamente teriam que ficar de fora. 

Por todos esses motivos, selecionei dez grandes trabalhos levando em conta meu gosto pessoal e a frequência com que escutei cada um deles, utilizando a ordem cronológica de cada lançamento. Mas se você tem um disco preferido que não entrou na lista, deixe nos comentários abaixo. Talvez eu faça uma segunda parte. Boa leitura.

Rolling Stones – Get Yer Ya-Ya´s Out!, 1970. Este disco foi gravado no ano de 1969, com canções tiradas de duas apresentações no Madison Square Garden em Nova York (Com exceção de “Love in Vain”, gravada em Baltimore), mas lançado somente em setembro do ano seguinte. A iniciativa de lançá-lo foi pelo fato de haver no mercado um disco pirata (Bootleg), chamado “Live'r Than You'll Ever Be”, que continha um show da mesma turnê. É inegável que os Stones sempre foram uma banda de palco, e se o grupo funciona bem hoje em dia com a idade média dos integrantes na casa dos 70 anos, imagine naquela época, em que estavam no auge! Dois fatores devem ser considerados pelo fato do disco ter feito tanto sucesso: A estreia nos palcos de Mick Taylor, guitarrista mais técnico, fazendo um contraponto interessante com Keith Richards, como se pode ouvir em “Sympathy for the Devil”, e a vontade do grupo em voltar aos palcos, uma vez que estavam há dois anos sem excursionar. O retorno da banda a estrada deixou o grupo empolgado e cheio de gás. Acompanhandos por Ian Stewart ao piano, os Stones mandam um petardo atrás do outro, como a clássica “Jumpin´Jack Flash”, que abre o álbum, “Midnight Rambler”, que aparece em clima de Jam session, a citada “Love in Van”, um bluezaço de Robert Johnson e as antológicas "Honky Tonk Women" e "Street Fighting Man". A capa clássica foi inspirada na letra “Visions of Johanna” de Bob Dylan. Não é a toa que o disco ficou em primeiro lugar na Inglaterra e sexto nos EUA.
The Who – Live At Leeds, 1970. Nos anos 70 somente o The Who poderia se rivalizar com o Led Zeppelin no quesito peso e dinâmica. A cozinha de Moon e Entwistle é uma das mais loucas e demolidoras de todo o rock, um peso anárquico de dar inveja a qualquer banda punk. Townshend nunca foi virtuoso, mas é um compositor nato e sabe tirar o melhor de sua técnica na guitarra e o vocalista Daltrey é um show man, cantando com sua voz rouca e arremessando seu microfone no ar como um alucinado. O grupo havia realizado uma grande turnê divulgando o clássico “Tommy”, mas nenhum show foi satisfatório para o quarteto, que resolveu organizar uma apresentação na universidade de Leeds para que fosse gravado lançado como álbum ao vivo. O show original contém a gravação de uma grande parte de “Tommy”, mas o grupo a deixou de lado, assim como muitos de seus grandes sucessos utilizando material mais obscuro e até mesmo não autoral como “Young Man Blues”, canção da lavra de Mose Allison, pianista de jazz e blues nascido no Mississipi, e a clássica ‘Summertime Blues” de Eddie Cochram. O lado autoral aparece com força no lado B do vinil, nos quatorze minutos para “My Generation”, com inclusão de improvisos e inserção de outros temas do grupo e ainda “Magic Bus” em uma versão estendida, com uma gaita malandra de Daltrey inserida no tema. A capa foi feita de maneira que ficasse parecida com os discos piratas, os famosos bootlegs, com apenas um papelão marrom e um carimbo com o nome da banda e local do show. A parte interessante aparecia no interior, com documentos históricos do grupo, o selo escrito a mão e instruções para que os engenheiros de som não fizessem nenhum tipo de overdub. Impressionante que um disco com uma capa praticamente artesanal e um repertório focado em canções obscuras fizessem tanto sucesso. Mas a resposta é que ninguém se igualava ao The Who em cima do palco em seu auge. Atualmente existem milhares de versões deste álbum, incluindo a apresentação completa do grupo.
The Allman Brothers Band – At Filmore East, 1971. Quando se trata de álbuns gravados ao vivo, “Filmore East” é frequentemente citado como o melhor disco de todos os tempos. Que pese o fato do conceito de melhor ser amplamente subjetivo, não é exagero tal afirmação. O grupo apresenta composições próprias e clássicos do blues em meio a harmonizações pesadas, utilizando duas baterias, muito improviso característico do jazz, pitadas de country sempre amparadas pelo bom e velho rock n´roll. Os guitarristas Duanne Allman e Dickey Betts se completavam de maneira espantosa. Enquanto o primeiro trazia novo vocabulário ao universo do blues rock, utilizando sua técnica de slide e afinações alternativas, Betts tinha um estilo mais clássico, rocker, e ambos duelavam magistralmente com o órgão pesado do líder Gregg. O petardo mostra que o sexteto era uma banda essencialmente de palco, apresentando vários temas que ultrapassavam os dez minutos e consagravam ali versões definitivas para cada canção, como acontece com a clássica “Whipping Post” com seus 23 minutos de puro feeling e improviso, e a instrumental arrasa quarteirão “In Memory of Elizabeth Reed” com treze minutos, onde o grupo traz a tona seu lado mais jazzístico. Isso em uma época que bandas de blues rock e southern music apresentavam canções que não passavam dos cinco minutos. Até a capa é antológica, mostrando o grupo em um beco ao lado do club Filmore, em meio a equipamentos, como se estivesse esperando para entrar no palco e detonar. Uma curiosidade é que a banda não gostava de ser fotografada e o profissional encarregado das fotos não estava conseguindo bons momentos. Então, no meio da sessão, Duanne saiu rapidamente para pegar uma sacola de erva que ele havia solicitado a um colega. O guitarrista saiu, pegou a sacola com o amigo e na volta a escondeu discretamente no colo fazendo toda banda rir. Foi nesse momento que ele conseguiu a imagem antológica utilizada na capa. Infelizmente, quando o disco chegava as lojas, o guitarrista Duanne já havia nos deixado, vítima de um acidente de moto. A música perderia precocemente um de seus talentos mais criativos e originais.
Deep Purple – Made in Japan, 1972. Outro álbum obrigatório quando se fala em discos ao vivo lançando nos anos 70 ou em qualquer época. O Grupo Havia lançado seu melhor disco de estúdio “Machine Head” e fazia grande sucesso no Japão. Como naquela época todos os concertos eram gravados na terra do sol nascente para serem lançados dentro do país, os empresários ofereceram essa possibilidade ao grupo, que resolveu aceitar sob a condição de levarem seu próprio engenheiro de som, no caso o fenomenal Matin Birch. A banda decidiu ainda que só lançariam o disco se todos gostassem do resultado final. Com o aval da gravadora, a pequena turnê nipônica foi devidamente registrada. Como o equipamento disponibilizado não era dos melhores, nem o grupo e nem Birch levaram fé na qualidade das gravações e segundo Jon Lord esse foi um dos motivos do sucesso das apresentações. O quinteto imaginou que as gravações não teriam a qualidade almejada e se concentrou em realizar um grande show atendendo as expectativas dos fãs japoneses que viam a banda pela primeira vez. Essa espontaneidade é sentida em todo álbum, notadamente pelo clima de Jam session que o grupo impunha em cada uma de seus temas, improvisando de maneira excepcional, como se cada integrante sentisse a direção que os demais tomariam ao longo das apresentações. Não há um destaque entre a banda, pois todos estavam no auge, basta ver Ian Paice solando sua bateria como um alucinado em ‘The Mule’, Jon Lord fervendo seus teclados logo na abertura com “Highway Star”, Blackmore perpeutando seu riff antológico de guitarra em “Smoke on the Water” ou mesmo o introspectivo Roger Glover, segurando as bases com uma eficiência acima da média. Todos contribuíram para o sucesso deste disco, mas é difícil não destacar a voz única de Ian Gillan, principalmente no clássico “Child in Time”, onde ele atinge notas altíssimas com uma tranquilidade perturbadora. Quando Glover e Paice, os únicos que apareceram no estúdio, viram a qualidade da gravação e dos temas apresentados, se mostraram surpresos, assim como os executivos da gravadora que decidiram lançar o álbum no resto do mundo, mesmo contra a vontade do grupo. Ainda bem! A sociedade ganhou o melhor álbum ao vivo de todos os tempos. Um clássico absoluto.
Uriah Heep – Live January 73, 1973. O Grupo vinha rodando a Europa em vários shows utilizando o estúdio móvel Pye, tendo Alan Perkins como engenheiro, quando chegaram ao Birmingham Town Hall para o ultimo concerto. Como nenhuma gravação havia agradado ao grupo, resolveram que seu disco ao vivo sairia dali. De certo modo, a demora foi proveitosa, pois após tantas apresentações a banda tinha desenvolvido uma integração quase telepática, com apresentações explosivas de canções como “Sunrise”, “Sweet Lorraine” “July Morning” e “Easy Livin”, ou seja: clássico atrás de clássico. Embora toda a banda mereça destaque, é notório que os teclados do mago Ken Hensley são a espinha dorsal do grupo. Na época havia muitos tecladistas tocando rock, mas a maioria se enveredava pelo progressivo. Ken Hensley e Jon Lord se tornaram precursores ao inserir o órgão hammond e camadas de teclados no meio da guitarra rock n´roll. E embora David Byron fosse um excelente frontman, era Hensley brilhava absoluto, solando seus teclados e subvertendo os conceitos da época, como pode ser ouvido na maravilhosa “Gypsy” com seus mais de treze minutos de puro improviso. Isso sem mencionar seu trabalho como segundo guitarrista, utilizando slide na estupenda “Tears in My Eyes”. Vale mencionar ainda o peso do baixista Gary Thain, um dos músicos mais subestimados em todo o universo do rock. Uma verdadeira aula de como se faz um disco ao vivo!
Yes – Yessongs, 1973. O Yes foi lapidando sua sonoridade aos poucos, evoluindo a cada disconcom a adição dos integrantes certos. Em 1971 com a entrada de Rick Wakeman e o lançamento de “Fragile”, o grupo conseguiu apresentar seu progressivo sinfônico e estrutural, ganhando fama ao redor do mundo. Em abril de 1973 o grupo tinha gravado varias apresentações de suas ultimas turnês promovendo “Fragile” e “Close to the Edge”, com o apoio do engenheiro e produtor Eddy Offord. O álbum traz o melhor da primeira fase da banda, apresentando suítes como “Close To The Edge”, ocupando todo um lado do LP, “Yours Is Not Disgrace” e “Starship Trooper”, tocada ao vivo pela primeira vez. Ainda sobra espaço para apresentações solo do guitarrista Steve Howe e do tecladista Wakeman, respectivamente em “A Mood Of Day” e “Excerpts from The Six Wifes of Henry VIII”, além de seu maior hit “Roundabout”. A formação permanece inalterada, com exceção da bateria, tocada pelo recém chegado Alan White em três faixas. Com tantas suítes e improvisos não restou alternativa a banda que não fosse lançar um disco triplo de vinil, algo raro na época. A capa possuía vários desdobramentos, com uma arte magistral do mago Roger Dean, que já declarou ter sido seu trabalho mais complexo naquela década. Sua audição e aquisição valem a pena, não só por mostrar a banda no auge, apresentando seu progressivo extremamente sinfônico, mas porque esta formação, que incluía o baterista Brufford, demoraria longos anos a tocar junta novamente.
Led Zeppelin – The Song Remains The Same, 1976. Quem era melhor do que o Led Zeppelin nos anos 70? Isso mesmo, ninguém! Sendo a maior banda de rock daquele momento, era natural que seu disco ao vivo fosse diferenciado. Por isso muitas vezes este trabalho não é tão compreendido. Há de se ter ciência que este disco é, na verdade uma trilha sonora do filme homônimo exibido nos cinemas naquela década, que trazia a apresentação da banda no Madison Square Garden lotado durante três noites de concertos, com registro atento do produtor Eddie Kramer. O álbum duplo intercala grandes sucessos como “Rock and Roll” e “Celebration Day” com outros clássicos apresentados em versões estendidas, dando destaque para cada um de seus integrantes. Essas canções funcionam magistralmente no cinema, mas podem causar estranheza ao ouvinte mais desavisado. Para os fãs era uma viagem escutar os solos dissonantes de Page com arco de violino em “Dazed and Confused”, os improvisos utilizando o Theremin em “Whole Lotta Love”, o piano melódico de Jonesy em “No Quarter” e a bateria atrabiliária de Bonham em “Moby Dick”. Embora muitos não considerem a performance da banda como uma das melhores, o fato que “The Song...” retrata bem o grupo no palco, com todos seus erros e excessos da estrada. O álbum vendeu mais de 4 milhões de cópias e foi certificado como platina dupla nos EUA.
Frank Zappa – Zappa in New York, 1977. Quem é Zappeiro como eu, sabe da predileção pelo mestre em gravar ao vivo. Mesmo alguns discos inéditos de Zappa foram lançados neste formato. Porém, a banda que o guitarrista reuniu para este concerto gravado em dezembro de 1976 no Palladium em Nova York é ridícula de tão boa: são cerca de quinze (!!!) músicos, que vale a pena destacar: seu fiel escudeiro Ray White na guitarra rítmica; Dave Samules no vibrafone (Um dos fundadores do grupo de jazz Spyro Gyra); o violinista Eddie Jobson, famoso por integrar o Roxy Music e Uk; os irmãos Michael e Randy Brecker, respectivamente saxofonista e trompetista, dois grandes nomes do jazz contemporâneo mundial; O prodígio Terry Bozzio na bateria e tantos outros. Além da excelente banda super ensaiada, Zappa desfila seus maiores clássicos como a debochada "Titties & Beer", uma das melhores versões para "Pound for a Brown", uma versão da intrincada "The Black Page” dividida em duas partes além de temas mais diretos como “Sofa”. O improviso vocal de Frank com Bozzio em "The Illinois Enema Bandit", só mostra o quanto a banda estava a vontade, mesmo em meio a tantos integrantes e canções pra lá de complexas. Para encerrar de maneira sublime, uma versão longa para o clássico "The Torture Never Stops" e a vigem de mais de dezesseis minutos de "The Purple Lagoon/Approximate". Um disco perfeito em todos os sentidos, mostrando que o palco era o habitat natural do mestre. Imperdível.
Genesis – Seconds Out, 1977. Eu, como grande fã do grupo, reconheço que a fase áurea do Genesis ocorreu enquanto Peter Gabriel integrava seu line up. Mas é inegável que o ápice musical do grupo nos palcos ocorreu neste álbum. Phil Collins tomou para si a responsabilidade de ser o novo frontman da banda e fez isso de maneira muito pessoal, deixando de lado a teatralidade característica de Gabriel e imprimindo sua marca, cantando as canções de um modo mais passional e menos teatral. Outro ponto que diferenciava o grupo de outras era a inclusão de duas baterias no palco, trazendo Bil Brufford (ex Yes) ou Chester Thompson (Ex Frank Zappa) como bateristas convidados. Nas longas passagens instrumentais, Collins saia da frente do palco e criava duetos mirabolantes com seu parceiro de instrumento, como pode ser ouvido em “Firth of Fifith”, “Supper´s Read”, chegando ao ápice na instrumental “Los Endos” que encerra o trabalho de modo magistral. Gravado em Paris durante a turnê de 1976, “Seconds Out” apresenta uma banda coesa e experiente, imprimindo uma dinâmica maior em todos os temas, se comparados com suas versões de estúdio. Este foi um dos álbuns que me fizeram gostar de rock progressivo e não são poucos os que o citam como essenciais. O tecladista Clive Nolan (Pendragon, Arena), já declarou diversas vezes que este disco faz parte de sua base musical. Um trabalho que deve ser conferido integralmente.
Rainbow – On Stage, 1977. Quando deixou o Deep Purple, Richie Blackmore jurou vingança. Sua intenção era lançar uma banda que superasse seu antigo grupo. Se ele conseguiu ou não, é base para altas e acaloradas discussões, mas o fato que o guitarrista fez do Rainbow uma dos maiores nomes da cena musical setentista. Depois de lançar “Rising”, um dos álbuns definitivos de como se fazer rock pesado, o grupo caiu na estrada para promover o disco. Além do líder, a banda contava com o tecladista Tony Carey, o grande Ronnie James Dio nos vocais, e a cozinha formada por Jimmy Bain e o extraordinário Cozy Powell, seguramente um dos maiores bateristas de rock de todos os tempos. Os shows contidos no álbum foram gravados entre Alemanha e Japão, sendo mixadas posteriormente pelo produtor Martin Bitch. O álbum abre com a inédita “Kill the King”, mostrando a banda com a faca nos dentes, apresentando a canção que só seria gravada em estúdio no álbum seguinte. Outros destaques são; “Man on the Silver Mountain”, “Starstruck” e uma versão enorme e improvisada para “Mistreated” do Purple, magistralmente cantada por Dio. Durante todo o álbum, Blackmore dá aula de como fazer um som ao mesmo tempo melódico e pesado. Um documento da banda em seu auge! Deixe nos comentários seu álbum favorito gravado na década de 70.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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