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Ao vivo até no palco: Os falsos discos ao vivo do rock

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Autor: Ayrton Mugnaini Jr.

Cadastro por: Marcel Z. Dio

Fonte: https://ayrtonmugnainijr.blogspot.com/2019/04/ao-vivo-ate-no-palco-os-falsos-discos.html

29/06/2020

Por Ayrton Mugnaini Jr.

(Dedicada a Adolfo Budokan, lendário nissei frequentador de sebos paulistanos dos anos 1980 que só ouvia discos ao vivo).

Em arte, parecer é mais importante que ser. Mas tem gente que exagera... E “nem tudo que parece algo é algo.” Uma prática que de tão errada e criminosa acaba sendo certa e até louvável, defeito transformado em estilo, picaretagem que virou tradição, são os famosos discos que fingem ser ao vivo, gravações de estúdio com efeitos de platéia (aplausos, gritos histéricos, vaias, pessoas apresentadoras) sobrepostos com maior ou menor habilidade – ou mesmo gravações legitimamente ao vivo, porém maquiadas com novos vocais ou instrumentos.

Não estamos falando dos casos em que a intenção é apenas sugerir uma atuação ao vivo, como é o caso de faixas como "Sgt. Pepper's" dos Beatles, “So You Wanna Be A Rock And Roll Star” dos Byrds ou "Tu És O MDC Da Minha Vida" de Raul Seixas. Também não são de nossa alçada os retoques honestamente admitidos, como alguns vocais de fundo no disco David Live de David Bowie, refeitos devido a falhas nos microfones, nem os milhares de discos meio-ao-vivo-meio-em-estúdio de Frank Zappa desde o fim dos anos 1970. É verdade que alguns artistas fazem questão de serem honestos até demais, como o Ten Years After (seu duplo ao vivo Recorded Live traz o aviso "sem 'overdub' ou aditivo algum") e Rod Stewart (na capa de Absolutely Live há pelo menos dois pedidos de desculpas pelos erros do saxofonista na faixa "Tear It Up"). O que aqui nos interessa são aquelas armações que, em casos extremos, dão vontade de chamar não só o Procon, mas também a Secretaria de Saúde Pública.

O VELHO ENGENHO IANQUE

Talvez o precursor dos falsos-ao-vivo no rock - certamente um dos mais famosos - seja Chuck Berry On Stage, lançado em setembro de 1963 para aproveitar o sumiço de Tio Chuck, em meio a sua primeira imerecida temporada na prisão. O disco é uma obra-prima de oportunismo, reunindo as versões originais de Berry para músicas suas que vinham fazendo sucesso com outros intérpretes como "Memphis", "Sweet Little Sixteen" (transformada pelos Beach Boys em "Surfin' USA"), mas recobertas com aplausos fajutos e o toque final de um mestre de cerimônias anunciando "Chuck Berry, o autor de 'Surfin' USA!" Vale lembrar que este foi o primeiro LP de Chuck a alcançar as paradas. Pois é, dê às pessoas o que elas querem...

Os próprios Beach Boys se demonstraram mestres na arte de discos supostamente ao vivo. Beach Boys Concert, de dezembro de 1964, pode até ser realmente ao vivo, mas certamente inclui a versão de estúdio de "Fun Fun Fun", recoberta com aplausos. Ninguém reclamou, muito pelo contrário: este LP tornou-se não só o primeiro dos Beach Boys a chegar ao topo da Billboard, mas também o primeiro disco ao vivo a conseguir tal feito nos EUA. O grupo repetiu a dose de forma mais sutil em Beach Boys Party, que realmente parece ao vivo numa festinha - Brian Wilson se deu ao trabalho de gravar e mixar estrategicamente ruídos de pessoas conversando e enchendo copos de refrigerante.

O primeiro LP dos Kingsmen também foi ao vivo mas nem tanto: Louie Louie - The Kingsmen In Person (lançado em março de 1964) foi realmente gravado perante uma plateia, exceto a faixa-título, nada menos que o hit original - inclusive com o primeiro vocalista, que até havia deixado o grupo em circunstâncias nada amigáveis!.

Impact!, dos Kenny & The Kasuals, é o tipo da picaretagem bem-feita. Cheap Thrills do Big Brother & The Holding Company (bem mais famoso hoje em dia como o grupo de Janis Joplin) inclui algumas faixas supostamente ao vivo, mas na verdade gravadas em estúdio com aplausos (muito bem) sobrepostos. E o que dizer do LP Live At Dave's Hideout, dos Fugitives (semente do grupo SRC de fins dos anos 1960)? A banda gravou algumas faixas em estúdio, foi à casa noturna detroitiana do título (a Hideout), colocou a fita no P. A. da casa para os frequentadores ouvirem e gritarem como se fosse um show, gravou tudo e lançou o resultado como disco ao vivo...

O disco Eagles Live (1980) chegou a ganhar da publicação Rolling Stone o título não muito cobiçado ou invejado de "disco ao vivo mais mexido de toda a história do rock". As Shangri-Las e o cantor folk Phil Ochs são outros grandes nomes que lançaram discos não muito ao vivo - sobre estes últimos, um fã chegou a afirmar que falsos-ao-vivo eram praticamente obrigatórios nos anos 1960. E a soul music, parente próximo e querido do rock, também tem seus “fake live albums”, como Yeah!!! de Aretha Franklin, Showtime de James Brown e Live do grupo vocal O’Jays.

AO VIVO PRA INGLÊS OUVIR

É claro que não esqueceremos dos Rolling Stones, os verdadeiros Irmãos Cara-De-Pau, e seus notórios LPs Got Live If You Want It! (1966) e Get Yer Ya-Ya's Out! (1970). O primeiro inclui sobras de estúdio como "I've Been Loving You Too Long" e até faixas já lançadas em disco oficial como "Fortune Teller". O segundo foi totalmente mexido no estúdio, com novos e mais certinhos vocais e guitarras; basta compará-lo com Liver Than You'll Ever Be, versão pirata lançada um ano antes e realmente ao vivo, inclusive com algumas faixas bem mais longas. Love You Live, o disco ao vivo seguinte dos Stones, é indicado somente para pessoas que, mais que fãs, sejam viciadas necessitando ter absolutamente todo e qualquer disco de um artista: é um dos primeiros álbuns duplos ao vivo burocráticos, mero produto para ganhar tempo e dinheiro entre (ou até em vez de) discos de estúdio. É consenso que de Love You Live só se salva o terceiro dos quatro lados, gravado na pequena boate canadense El Mocambo – embora a gaita em “Mannish Boy” tenha sido claramente sobreposta no estúdio em trechos nos quais Mick Jagger jamais conseguiria tocar e cantar ao mesmo tempo.

Um caso à parte é Live At The Kelvin Hall, primeiro disco ao vivo dos Kinks. De fato, boa parte do disco é ao vivo, mas pelo menos alguns trechos foram bastante reelaborados em estúdio - basta dizer que as mixagens mono e estéreo trazem diferentes solos de guitarra nas mesmas faixas! Para completar, nem a capa é ao vivo: todas aquelas fotos foram feitas em estúdio...

Mas se os Stones e os Kinks conseguem fingir muito bem que tocam ao vivo, de outros é o caso de perguntar para quê se dar ao trabalho de fazer algo mal feito. Veja o grupo inglês John's Children, cujo lendário LP Orgasm consiste em gravações de estúdio recobertas com, veja só, os gritos das beatlemaníacas do filme A Hard Day's Night. E não é à toa que Jimmy Page mandou sumir das lojas o disco Yardbirds Live, que, além de mostrar o grupo no pior de sua forma, inclui, escute só, gritos da platéia não de um show de rock, mas de uma tourada! Pois é, se você precisar fazer algo errado, pelo menos faça certo.

Um pouco mais esforçada foi a banda The Sweet. Em algumas faixas ao vivo de seu álbum Strung Up a caixa da bateria foi refeita em estúdio. Motivo: o show (no Rainbow Theatre de Londres em 1973) foi gravado em 16 canais, além de uma versão em mono diretamente da mesa; só que esqueceram de microfonar a caixa da bateria, a qual precisou ser refeita nas faixas que a banda resolveu incluir no citado Strung Up... A citada mixagem em mono está completa, embora em mono e ligeiramente distorcida, e foi lançada integralmente no álbum Live At The Rainbow 1973.

(E o álbum “fake live” dos Eagles tem um concorrente perigoso até no nome: Live And Dangerous da banda Thin Lizzy, no qual, segundo o produtor Tony Visconti, até alguns ruídos da plateia foram inseridos em estúdio...)

UM FESTIVAL DE FALSIFICAÇÕES

O mítico LP triplo ao vivo do festival de Woodstock de 1969 tem menos do que pode parecer de gravações autênticas do evento. O encarte de uma edição oficial em CD deste álbum admite que sons de grilos e trovões foram incluídos artificialmente e que muitas gravações de artistas como John Sebastian e a Grande Família Crosby são ao vivo de outros locais ou mesmo de estúdio. Quanto ao LP duplo, Woodstock 2, a resenha do crítico Robert Christgau já dá uma pista: “Não entendo porquê, mas [Paul] Butterfield, [Joan] Baez e especialmente CSNY soam com mais coesão que da última vez.”

SE LÁ FORA É ASSIM, IMAGINA AQUI

E no Brasil? Pergunte à gravadora PolyGram, notória especialista em "ao vivo" com dez aspas; o mais famoso é Hollywood Rock, reunindo gravações de estúdio com aplausos (mal) sobrepostos. Quando for perguntar, lembre-se de que a PolyGram é a mesma Universal de hoje, que tanto reclama da pirataria - ou seja, da pouca honestidade alheia. Pois é, veja o que acontece quando se dá às pessoas o que se quer que elas queiram...

E não direi o nome da banda que lançou um disco ao vivo e da qual um integrante me contou ter sido o único que não precisou refazer sua parte em estúdio... (Mas direi que meu disco de 2019 vai ter uma faixa sobre este tema de falsos discos ao vivo, intitulada "Eu Sei Que Eu Vou Estar Lá", aguardem!)

Enfim, lembra-se de quando um aparelho, mesmo que pesasse 30 quilos, "se tivesse alça era portátil"? Do mesmo modo, se um disco tiver ruídos de platéia, é ao vivo. Alguma dúvida?.

Agradecimento especial ao brother Ayrton Mugnaini Jr. pela gentileza de liberar a matéria.
Aproveitem e confiram o grupo de música a qual ele é um dos administradores, e também seu blog.
O endereço das paginas seguem na parte dos comentários.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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