Para os que respiram música assim como nós


Artigo

Dark Light: Projetos e bandas obscuras integradas por músicos famosos que lançaram no máximo dois álbuns de estúdio!

Acessos: 188


Autor: Márcio Chagas

17/05/2020

Há grandes projetos que reúnem músicos extraordinários, mas que lançaram um ou dois discos e encerraram as atividades pelos mais diversos motivos. Alguns desses  álbuns foram festejados e muitos fãs esperaram a continuidade ansiosamente por anos. Outros são tão obscuros que nem os admiradores mais ortodoxos chegaram a ouvir ou mesmo conhecer. Abaixo separei dez projetos paralelos integrados por músicos conhecidos que tiveram no máximo dois álbuns oficiais lançados. Optei por apresentar projetos mais obscuros e desconhecidos para instigar os leitores a ouvi-los, pois muitos têm qualidade inigualável. Se você conhece algum outro projeto paralelo integrado por pelo menos um músico conhecido escreva nos comentários. Boa leitura.

1.Planet of the Abts - O baterista Matts Abts do Govt Mule, um dos maiores representantes atuais do Shouthern rock, convidou seu colega de grupo, o baixista Jorgen Carlson e o guitarrista e vocalista sueco T-Bone Andersson para formarem um novo Power trio em suas atividades paralelas ao Mule. O som praticado pelo trio não é muito diferente do grupo original de Abts, ou seja: um hard vigoroso, encharcado de blues, com pitadas de rock psicodélico a lá Pink Floyd e muito improviso. O projeto possui dois discos, mas por gosto pessoal, prefiro o primeiro, que alterna grandes canções com poderosos temas instrumentais. Uma grande dica pra quem curte o rock setentista.
2.Iris – Projeto instrumental capitaneado pelo guitarrista e tecladista Francês Sylvain Gouvernaire. O interessante deste projeto é contar com a cozinha do Marillion, o baixista Pete Trewavas e o baterista Ian Mosley. O trio lançou um único trabalho em 1996 denominado “Crossing To Desert”. O som é um progressivo instrumental com Gouvernaire emulando Steve Rothery boa parte do tempo, com solos melódicos e bem estruturados. Embora seja progressivo, o som não tem muito a ver com o Marillion e privilegia a guitarra do líder que opta por texturas suaves e às vezes mais dinâmicas. Quem gosta de progressivo instrumental deve conferir.
3.The Crooked Vultures – O guitarrista do Queen of the Stone Age e Kiuss, Josh Homme, sempre foi amigo de Dave Grohl (baterista do Nirvana e do Foo Fighters). Ambos já haviam combinado de gravar alguma coisa juntos quando as agendas permitissem. Por isso, ninguém se espantou quando anunciaram que juntos, formariam o super grupo The crooked Vultures. Surpresa mesmo foi a inclusão do mítico John Paul Jones, o eterno Baixista do Led Zeppelin nas fileiras da banda. O trio lançou um álbum homônimo em 2009, e logo de cara dá pra perceber a perfeita integração entre os músicos. John Paul Jones tem em Dave Grohl, um companheiro eficiente, a sua melhor parceria desde a morte de John Bonham no inicio dos anos 80. Já Josh Homme tem uma convivência diferente com sua guitarra. O músico não sola milhões de notas como Steve Vai ou Joe Satriani, seu trabalho é mais minimalista, mais econômico, e nem por isso menos eficiente. Ao contrário, Homme consegue reinventar o instrumento, ao mesmo tempo em que não deixa de nos remeter a fraseados que lembre Jimmy Page ou mesmo Keith Richards. Após uma turnê relativamente extensa pelo primeiro mundo, o grupo deu um tempo nas atividades, o que é uma pena, pois os “corvos” tinham tudo para nos brindar com pelo menos, mais uns dois trabalhos de qualidade.
4.The Honeydrippers – Após o fim do led Zeppelin, o vocalista Robert Plant decidiu realizar um antigo desejo de formar uma banda que pudesse exteriorizar suas influências de rhythm and blues, rockabilly, e rock dos anos 50 no melhor estilo Elvis Presley, dentre outras sonoridades que não cabiam no Led Zeppelin. Então Plant convocou o guitarrista e produtor Nile Rodgers (Chic) e juntos formaram os The Honeydrippers, que incluía outras feras como seu parceiro de Zeppelin Jimmy Page, o guitarrista Jeff Beck e até mesmo o baterista Dave Weckl (da Elektric Band do Chick Corea) antes de se tornar um expoente do fusion. Nem é preciso dizer que o som em nada lembra seu antigo grupo. Mas a qualidade é indiscutível com destaque para “I Got a Woman” de Ray Charles. O grupo lançou apenas um disco intitulado “Volume One” antes de encerrar as atividades.
5.Mirage – Este projeto foi criado nos anos 90 por membros do Camel e Caravan, dois dos maiores expoentes do progressivo inglês. Foi capitaneado pelo tecladista Peter Bardens (Camel), que convocou seu antigo colega de banda, o baterista Andy Ward, juntamente com Dave Sinclair, Pye Hastings e seu irmão Jimmy Hasting que integravam o Caravan. Completavam o time o guitarrista Steve Adams e o baixista Rick Biddulph. O grupo lançou este duplo ao vivo com músicas das bandas que integraram anteriormente e alguns temas de Bardens. O interesse em gravar um álbum de estúdio com temas inéditos manifestado pela banda não se concretizou, e após uma turnê europeia o grupo se desfez. Bardens reformulou o grupo com músicos desconhecidos e lançou mais uma trabalho ao vivo antes de encerrar definitivamente as atividades. O som obviamente é indicado para fãs do Camel e do Caravan.
6.Tin Machine – Nos anos 80 David Bowie era uma mega estrela da música mundial. Nessa época, o cantor colocou no mercado seu álbum de maior Sucesso “Let´s Dance”, lançou o hit “Under Preassue” em dueto com o Queen, atuou como ator em várias produções hollywoodianas, fez participações em inúmeras outras películas, compôs várias trilhas sonoras chegando inclusive a gravar com o Pat Metheny Group. Para promover ‘Never Let Me Down” Bowie levou ao palco um aparato teatral com produção digna das maiores peças da Broadway. No meio de tantos excessos o músico resolveu voltar ao básico. Então chamou o guitarrista Reeves Gabriels e os irmãos Tony e Hunt Sales, respectivamente baixista e baterista, para formarem um quarteto com a intenção de tocar hard rock como nos primeiros tempos. O grupo se reuniu predominantemente na Suíça e gravaram as faixas sem qualquer edição, como se fossem uma banda de garagem, aproveitando a crueza sonora em canções que versavam sobre vida urbana e agruras da sociedade em geral, como uso de drogas. Não é um disco indicado para fãs mais ortodoxos de Bowie, mas agradará aos que preferem rocks diretos gravados com espontaneidade. A banda lançou mais um disco sem tanta repercussão, após encerrar as atividades dois anos depois.
7.Ego on the Rocks – O tecladista Detlev Schmidtchen e o baterista Jürgen Rosenthal integraram o Eloy, grupo alemão de rock progressivo em sua melhor fase, lançando clássicos como “Ocean e "Silent Cries and Mighty Echoes". Após a saida da banda, a dupla montou este projeto de rock progressivo com forte influência de música psicodélica e krautrock, no estilo de bandas como o Tangerine Dream. O álbum foi inteiramente gravado pela dupla, com Detlev incorporando as funções de guitarrista e baixista, além dos teclados. Inicialmente a dupla gravaria uma triologia, mas as baixas vendas fizeram os músicos encerrarem precocemente o projeto. No entanto, seu único trabalho “Acid in Wounderland” é um excelente disco de rock progressivo com todas as características e peculiaridades do universo germânico.
8.JBK, Jansen Barbieri Karn – Este projeto foi idealizado pelo baterista Steve Jansen, o baixista Mick Karn e pelo tecladista do Porcupine Tree Richard Barbieri, após o fim de um projeto que o trio integrou denominado Rain Tree Crow. Os músicos decidiram continuar trabalhando juntos e criaram inclusive uma gravadora para lançarem seus futuros trabalhos. O grupo teve uma trajetória obscura lançando apenas dois álbuns completos de estúdio. Porém, em 2001 a banda decidiu gravar este disco ao vivo denominado “Playing in a Room With People” e chamou para acompanhá-los na guitarra ninguém menos que Steve Wilson, guitarrista e líder do Porcupine Tree, além do saxofonista Theo Travis. A música apresentada é de difícil digestão, misturando progressivo eletrônico com imensas camadas de teclados e loops, progressivo tradicional, krautrock, new age, música oriental étnica e muitos efeitos, lembrando vagamente os primeiros trabalhos do Porcupine. Não espere solos de guitarra sinfônicos e psicodélicos de Wilson, afinal ele é apenas um convidado. Porém, sua participação é significativa e contribui para a harmonização e acessibilidade de algumas canções. O disco é apresentado com um belo Digipack e é um item curioso para os fãs do Porcupine Tree por contar com dois importantes integrantes do grupo.
9.K2 – Foi um projeto idealizado pelo baixista Ken Jacques que incluía em sua formação o grande guitarrista Alan Holdsworth. Alan era um dos maiores guitarristas de jazz e fusion de todos os tempos. Nos anos 70 integrou grupos de progressivo e rock como Soft Machine, Gong, Uk e Tempest. O músico começou a se dedicar ao fusion a partir do final dos anos 70, gravando regularmente com sua banda solo. Foi uma grande surpresa ver em 2004, Holdsworth integrando novamente um grupo / projeto dedicado ao prog rock. “Book of Dead” é um disco conceitual, baseado no antigo Egito, e traz melodias sinfônicas, com sonoridade bem similar a Yes, Genesis e outros medalhões do progressivo setentista, até porque o vocalista Shaun Guerin tem o timbre muito parecido com o de Peter Gabriel. Claro que há espaço para improvisos e texturas mais amplas, influenciadas pelo jazz rock praticado nos discos solos de Alan. O tecladista Ryo Okumoto (Spock´s Beard) também integra as fileiras da banda. O grupo lançou mais um trabalho em 2010 com uma formação completamente diferente, sem Guerin, que faleceu logo após as gravações e Holdsworth, antes de encerrar completamente suas atividades.
10.Green Bullfrog – Para encerrar, um projeto do fundo do baú capitaneado pelo produtor Derek Lawrence, que queria gravar um grande disco de rock. Para que sua ideia pudesse ser colocada em prática, Lawrence chamou o mítico Martin Birch para cuidar da engenharia de som e vários músicos que havia produzido na década anterior, como o guitarrista Rechie Blackmore e o baterista Ian Paice do Deep Purple, Mathew Fischer, pianista do Procol Harum, o bluseiro Albert Lee, o pianista Tony Ashton (Que mais tarde faria parte do Paice, Ashton e Lord), o vocalista Earl Jordan, enfim, os melhores músicos da época, fossem de bandas consagradas ou dos estúdios mais conceituados. Porém havia um problema: muitos participantes vinham de bandas promissoras no cenário mundial e estavam sob contrato, assim não poderiam se meter em qualquer gravação. O jeito foi creditar os músicos como pseudônimos inventados a partir da personalidade de cada um. Ian Paice ganhou o apelido de “Speed”, por tocar rápido, Mathew Fisher “Sorry” por estar sempre se desculpando, e por ai vai. O álbum foi gravado em duas sessões noturnas em 20 de abril e 23 de maio de 1970 no Kingsway Studios em Londres em plena madrugada, assim que Blackmore e Paice retornavam dos shows do Purple. O som é rock da melhor qualidade, influenciado pelo blues e pelas bandas de seus integrantes. Embora tenha sido um disco raro, atualmente ele pode ser encontrado facilmente nas plataformas digitais.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


Compartilhe:

Comente: