Para os que respiram música assim como nós


Artigo

Quase dez anos...

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Autor: Marcel Z. Dio

07/05/2020

Como o tempo passa rápido, como flecha; ainda lembro a sensação ao ver a morte de Ronnie James Dio anunciada na TV. Foi como se um pedaço me fosse arrancado, algum parente bem próximo a partir, embora nunca tivesse conhecido, chorei. A voz do sujeito de estatura baixa, fisgou-me desde o inicio, quando ouvi o tal disco com a icônica capa com mulheres vestidas de anjo e fumando. Pintura do artista norte-americano Lynn Curlee, inspirada em uma fotografia de 1928.
Era mágico ter o Black Sabbath com o homem desses na linha de frente, assim como saboroso perceber que a banda ganhou um sopro divino, erguendo-se das catacumbas com uma dose de luz chamada Dio, que significa Deus em italiano, nome justo pelo que fez a música.

Ritchie Blackmore, um dos seres mais exigentes, foi um dos primeiros a curvar-se a lenda, impossível ser diferente. E apesar de uma carreira longa antes mesmo de chegar ao Rainbow, foi ali que Dio se estabeleceu de uma vez por todas. Ouvir Catch Rainbow derrubou todos da cadeira, um sonho de música e também a tara do baixinho sobre o tema arco íris. Ainda existiam outros hinos no mesmo disco, como The Man the Silver Mountain e Temple of the King.
Apesar da vitória com a primeira tacada de Blackmore, o sucessor Rising assumiu o posto de queridinho. Conheço poucos que não rasgam elogios a ele. Juntamente com Dio, sou um desses poucos. Realmente não morro de amores por Rising, entendo seu valor, gosto de suas canções, mas não ultrapasso a cerca quanto a isso. 
Long Live Rock 'n' Roll dispensa comentários, só a balada Rainbow Eyes pagaria a bolacha com sobras ...
Conflitos e a ideia de comercialização do som para a conquista de outros territórios, a exemplo do americano, fizeram o Rainbow acabar com a saída de Ronnie, que não se venderia, nunca se vendeu, seu amor era pela música e não por números.
Sim, muitos dirão que o Rainbow prosseguiu, é fato. Prosseguiu apenas com o nome, pois até o maior fã da banda sabe em seu intimo que ela morreu com Ronnie James Dio.

E assim os relatos sobre sua voz de aço, são inúmeros, quase unanimes ao afirmar que ele era o melhor. Como as palavras de Claudia Friedlander, professora de canto, moradora de Nova Iorque. É sobre a canção “Falling Off the Edge of the World” (1981). Sua analise :
Este é mais um ótimo cantor. Sua voz é tão naturalmente ressonante – ele me lembra o Freedie Mercury. Assim como o primeiro cantor, ele canta com um “ligado” perfeito, dicção clara e vibração orgânica e consistente. Ele organiza seu espaço de ressonância para criar um leve rosnado, sem apresentar qualquer resistência à sua respiração. Você pode perceber o quão saudável é sua performance, através da forma em que ele entra e sai de breve momentos de harmonia com entonação impecável.

Não podemos esquecer o vislumbre de Tony Iommi em ligação ao tema, então deixo aqui um trecho de suas palavras :
"Quando fizemos o álbum Heaven and Hell - foi na época em que Ozzy teve que sair da banda e tivemos de arrumar alguém... E então tentamos Ronnie. E eu nunca havia encontrado com Ronnie antes; na verdade eu só o tinha visto em uma festa e era isso. E quando Ronnie entrou na casa - nós tínhamos uma casa em que vivíamos juntos - e meu Deus... quando ele começou a cantar... cacete... Eu não conseguia acreditar que aquilo saia daquele pequeno corpo. Aquela voz era boa demais."
"Até aquele ponto, com Ozzy, não tínhamos ido muito adiante porque estávamos todos chapados e fora da realidade, e ele estava pior do que nós. Ele perdeu o interesse. Então precisávamos de algo, senão a banda teria terminado. Tínhamos de ter alguém novo na banda - e era Ronnie. Não quero depreciar Ozzy - ele é brilhante no que faz - mas Ronnie era um vocalista completamente diferente em tudo."

Assim os anos foram passando e fui emergindo em sua discografia. Acompanhando sua carreira solo com os clássicos Holy Diver e The Last Line, ouvindo atentamente até mesmo os "menosprezados" Dream Evil (1987) e Lock Up the Wolves (1990), que só pela sua sua voz, valeriam a pena. Caminhei pela sua evolução, insistindo sempre que Mágica (2000) era tão clássico quanto Holy Diver, e que Strange Highways (1994) foi soterrado injustamente pelo tempo. 
Vi a segunda, rápida e sacaneante passagem dele pelo Sabbath, sabia e sentia o cheiro pútrido de uma certa "mulher" por trás daquela interrupção brusca, pela troca a base de uma despedida fajuta de Ozzy. Pelo menos, ficamos com Dehumanizer, o disco mais pesado do Sabbath, e que disco !.
Com todo respeito ao substituto emergencial conhecido por Tony Martin, mas, o Sabbath com Ronnie, vinha a ser outro mundo, outro conceito. Basta apenas conferir os vocais de After All para entender o óbvio. Nela, Dio solta os demônios internos, colocando qualquer banda postulante ao Doom metal no chinelo. Pisoteando-as como se fossem baratas, também o criador Tony Iommi mostrando quem mandava na área.
Já em sua terceira passagem, egos inflados, reuniões fajutas de Ozzy, teorias sobre mixagens as escondidas e ordem de nomes em capas, tinham ficado para trás. Finalmente, um tempo de paz, de aparar as arestas, e a cena do rock estava feliz novamente. O nome Heaven And Hell em troca do sagrado Black Sabbath, pouco importava, tanto que o título The Devil you Know deixa claro a intenção sobre. Enfim, o lançamento de uma obra, cujo a capa estampava o que seria o som, o mais arrastado e sombrio possível. Naquela altura ninguém se espantava pela voz de Ronnie, e sim pela sua capacidade de mante-la em alta performance quase aos 70 anos. Mais meio tom abaixo na conta, para que ele conseguisse cantar Mob Rules com mais tranquilidade, nem era percebido, e seria um crime se algum louco ousasse diminuí-lo por isso.

O sonho da "velha nova" formação em Heaven and Hell, não tinha como ser freado, a não ser pela porta da senhora morte, que injustamente estava a espreita, esperando para entrar em ação. Dio não teria mais seus dragões fictícios para cravar a espada, sua luta era contra um câncer. Torcia e tinha certeza que ia sair dessa, creio que por sua força interior, até ele tinha, mas ... não deu, e no fatídico dia 16 de maio de 2010, a voz calou-se. 
Passaram-se dez anos, bom, ainda faltam alguns dias para chegarmos lá, pouco importa, a dor continua sendo forte, mesmo que o tempo amenize. Pelo menos tive o orgulho em ter vívido "os tempos de Dio", apesar do arrependimento incurável de nunca te-lo visto ao vivo. 
Long Live Rock 'n' Roll. Obrigado DIO.


"As vezes você fica retido nos próprios parâmetros que criou; ninguém percebe que existe um portão na cerca, por onde você pode sair de vez em quando". RJD.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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