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R. I. P. Neil Peart (12/09/1952 – 07/01/2020) - A lenda do Rush se vai e deixa uma obra consistente e inigualável

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Autor: Márcio Chagas

10/01/2020

“Nem todo herói usa capa”. Essa frase popular sintetiza bem minha juventude e adolescência quando meus verdadeiros heróis empunhavam guitarras, baixo e bateria. 

No caso deste ultimo instrumento, a grandeza de Neil Peart era insuperável. O músico, que faleceu em decorrência de um tumor cerebral, era um dos mais técnicos e adorados quando o assunto era bateria, encabeçando a lista dos maiores nomes no instrumento desde revistas especializadas a fanzines locais por todo o mundo.

Mas nem só de técnica vivia o músico. Neil começou no instrumento aos 13 anos. As aulas de piano na infância, aliada ao ouvido apurado de tanto escutar os discos de jazz de seu pai  o ajudou a ter uma visão mais melódica e harmônica do instrumento, .

A personalidade centrada e interiorizada de Peart o levou a buscar outra paixão: a literatura. Paralelo ao estudo da bateria, o músico passou a se interessar por grandes escritores como T.S. Eliot, Scott Fitzgerald, Ernerst Hemmingway e tantos outros.

A paixão pela literatura seria determinante no futuro, pois seria responsável por praticamente todas as letras do grupo canadense. Seu amadurecimento literário é claramente perceptível nas letras do Rush, que se iniciaram numa fase mitológica e fantástica, inspirada principalmente por escritores como J.R. Tolkien e na década seguinte passaram a ter um cunho mais social e filosófico, levantando questões sobre guerra fria, corrida espacial, AIDS, busca do ser humano por autoconhecimento entre outros temas da vida moderna.

Sua técnica extremante avançada para o rock lhe rendeu indicações de melhor baterista em todas as revistas que abordavam o instrumento, seja por votação popular, seja pela mídia especializada. Depois de vencer seguidas vezes como melhor baterista, a prestigiada revista Modern Drummer, o considerou hors-concours no longínquo ano de 1986, entrando para o hall of fame e considerado inelegível desde então.

Embora o grupo tenha um excelente relacionamento, onde impera o bom senso e cordialidade, Neil tomava para si a responsabilidade de escrever os tour books do grupo, narrando minuciosamente o processo de composição da banda. Ele também dava a palavra final no set list dos shows, na ordem das músicas em cada álbum lançado, alem de determinar a longevidade das turnês.

Neil era, acima de tudo um perfeccionista. No ano de 1994 durante uma pausa do Rush o baterista produziu e tocou um disco tributo a Buddy Rich, uma dos maiores nomes do jazz e um de seus heróis da bateria, denominado “Burnning For Buddy”. Durante a execução da faixa “Cotton Tail”, da qual participou, Neil percebeu que o grupo tocava de maneira mais simples para acompanha-lo. Tal fato o deixou arrasado e Peart procurou o renomado baterista Fred Gruber com quem tomou lições sobre o instrumento que alteraram  completamente seu estilo, imprimindo novas técnicas e andamentos em sua maneira de tocar.

Neil possuía muitas facetas e em todas imperava o individualismo. Como atleta, se entusiasmou com o ciclismo, chegando a fazer longos itinerários que muitas vezes atravessavam países. A motocicleta era outra paixão cultivada por Neil, que utilizava o veiculo para viagens longas.

Neil juntou seu amor pela literatura e o ciclismo e em 1997 estreiou no meio literário com o livro “The Masked Rider: Cycling in The West Africa”, que contava suas aventuras pelo continente africano utilizando apenas sua bicicleta como transporte. Ele ainda publicaria “The Ghost  Rider” em 2002, contando suas aventuras de moto pela America do Norte após o trágico acidente que vitimou sua filha no ano de 1997 e a morte da esposa por câncer no ano seguinte.

Após os trágicos acontecimentos que levaram sua família, Peart se tornou ainda mais recluso e arredio, evitando de toda maneira o assedio dos fãs e imprensa, como pôde ser visto no ano de 2002 quando estiveram no Brasil. Neil chegou em um vôo diferente de Geddy e Alex, não concedeu entrevistas a nenhuma emissora ou jornal, não deu autógrafos, não falou com ninguém. Suas poucas entrevistas eram concedidas a revistas especializadas em seu instrumento e o repórter era orientado a falar única e especificamente sobre bateria, sob pena de encerramento precoce do bate papo.

Neil seguiu incansável até 2015, quando se retirou do meio musical alegando problemas de tendinite nos ombros e falta de tempo para sua nova família. Como sempre foi discreto e reservado, provavelmente já estava doente e sentindo os efeitos do tumor cerebral que o vitimava.
Peart nos deixou em 07/01/2020 em decorrência do tumor cerebral. A noticia foi confirmada  pelo porta voz da família Eliot Mintz e pelo próprio grupo em seus perfis oficiais.

A mim cabe uma profunda tristeza e dor por sua perda. Embora não o conhecesse pessoalmente, Neil Peart fez parte de toda minha adolescência e juventude, quando ouvia os álbuns do Rush tocando minha air drum imaginaria. 

Sua perda deixa uma lacuna irreparável no mundo da música. Afinal, qual baterista poderia dar um solo de mais de 10 minutos contando historicamente os ritmos percussivos e prendendo a atenção da plateia durante todo o tempo?

O homem nos deixou, mas a lenda assim como seu legado permanecem para sempre. Neil deixou uma obra belíssima e irretocável a nossa disposição, a melhor forma de celebrar sua vida é escuta-la e passar a frente às novas gerações de músicos e ouvintes que vêm chegando ávidos por música de qualidade.

Descanse em paz mestre, seu objetivo foi cumprido, obrigado por tudo!

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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