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Cozy Powell: 20 anos sem a locomotiva do rock

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Autor: Márcio Chagas

02/01/2020

O tempo é realmente implacável. Tomei um susto quando percebi que em 2020 faz mais de 20 anos que Cozy Powell, um dos mais renomados bateristas, encerrou sua passagem aqui pela terra. O inglês Cozy, cujo nome verdadeiro era Colin Trevor Powell, era apaixonado por bateria e por velocidade,  foi um dos maiores músicos de seu instrumento nos anos 70 e 80. E foi exatamente a velocidade que o levou pro andar de cima de maneira prematura, quando seu Saab 9000 se chocou contra uma árvore em uma rodovia próxima a cidade de Bristol, ocasionando instantaneamente sua morte.

Músico muito requisitado quando o estilo era hard rock ou heavy metal, Cozy possuía uma estilo de tocar bastante peculiar, o baterista conseguia imprimir peso e pegada em suas batidas, soando como John Bonham (Led Zeppelin) ou Keith Moon (The Who); ao mesmo tempo que possuía também uma riqueza melódica ímpar, que se equiparava a bateristas na linha de Phil Collins (Genesis) e Bil Bruford (Yes). Ao vivo, Powell era uma máquina, um verdadeiro trator que conseguia impulsionar o grupo ainda mais a frente. Uma amostra desse talento pode ser conferido no DVD do grupo Whitesnake lançado no formato digital, em um irrepreensível show realizado no Monsters of Rock de 1981, Chamado “Live At Donnington 81”.

Powell começou a tocar aos 12 anos e logo estava atuando no circuito amador de sua cidade. Em pouco tempo atuava no meio profissional. Porém, sua carreira só começou a mudar  maneira significativa quando o músico entrou para a banda do guitarrista inglês Jeff Beck, praticamente um sósia do baterista. O músico grava apenas 2 discos até se desligar do grupo e ganhar o mundo. Aliás, essa era uma das principais características que marcaria a carreira de Powell: Ele não conseguia ficar quieto por muito tempo em um determinado grupo, sempre buscando novas direções e rumos musicais, fosse por usa inquietude artística, fosse pelo seu gênio irascível. Powell participou dos maiores grupos de rock e heavy dos anos 70 e 80, tendo trabalhado com o já citado Whitesnake, Gary Moore, Brian May, Robert Plant e até mesmo o mítico Black Sabbath. 

O baterista lançou ainda alguns trabalhos solo, a maioria instrumental, onde pôde, com a ajuda dos amigos, demonstrar toda sua técnica no instrumento. Cozy Powell era um baterista que sabia transitar com desenvoltura na tênue linha que separa o virtuosismo do exibicionismo no sense, tocava como grupo e para o grupo, coisa rara de ser ver em bateristas de rock, que nos dias de hoje se preocupam muito mais em serem atletas do instrumento.

Abaixo separei alguns grandes momentos de Powell nas principais bandas por que passou.

Jeff Beck Group – Rogh And Ready, 1971 – Primeiro trabalho realmente importante que Cozy participou. E não foi uma tarefa fácil, pois o músico estrearia no recém reformulado Jeff Beck Group substituindo o grande Aynsley Dunbar, uma das assumidades quando o assunto era bateria. Mesmo assim Cozy se sai muito bem, imprimindo seu tecninca em canções como “Got Feeling” e “Situation”, tendo a frente a guitarra pungente e pernóstica de Jeff Beck.
Rainbow – Rising, 1976 – quando saiu do Deep purple, Richie Backmore queria organizar uma banda que deixasse seu antigo grupo no chinelo. E de certa forma conseguiu! Depois de gravar um primeiro álbum solo acompanhado pelo grupo ELF, o guitarrista manteve seu cantor, o mago Ronnie James Dio, dispensou o restante da banda e começou a procurar músicos realmente talentosos pro seu futuro grupo. Além de Dio, Blackmore recrutou para a banda o baixista Jimmy Bain e o tecladista Tony Carey, além de Cozy na bateria. Tudo nesse CD é superlativo, com a banda soando coesa e mandando um petardo atrás do outro. Faixas como “Tarot Woman” e “Stargazer” são uma verdadeira aula de como gravar um álbum de rock pesado. E lá no fundo, tem Powell na bateria mostrando a que veio, dividindo com Blackmore a responsabilidade pelo peso do grupo. Essa formação gravou também o excelente “On Stage” um dos mais cultuados discos ao vivo dos anos 70.
Michael Schenker Group – One night at Budokan, 1982 – Queria evitar em colocar trabalhos ao vivo aqui, mas esse CD é inevitável! Cozy integrava aqui a banda do ex-Scorpions e ex-UFO Michael Schenker e com ele já havia gravado o segundo disco de estúdio da banda chamado simplesmente de MSG II. Depois de uma extensa turnê pelo Japão o grupo lança esse ao vivo gravado no Budokan Hall. Cozy está mais endiabrado do que nunca, imprimindo peso e força nas canções. É ainda mais incrível saber que o músico tocou completamente combalido por conta de uma infecção gástrica. “enquanto o cara (no palco) dizia "senhoras e senhores...", eu ainda estava vomitando nos bastidores. Entrei no palco quase morrendo, Deus sabe como foi que ficou tão bom”, teria dito o músico posteriormente em uma entrevista. Apesar dos problemas, sua integração com o lider e guitarrista Schenker é quase telepática, mais uma vez o baterista mostra que sabe adaptar sua técnica ao som do grupo e trabalhar de acordo com a linha melódica proposta pelo líder em questão. Faixas “Armed and Ready”, “On and On” e a instrumental arrasa-quarteirão “Into The Arena”, mostram como Cozy utilizava sua técnica ao vivo, imprimindo peso, ao mesmo tempo que dava sustenção a todo grupo. Um trabalho no mínimo obrigatório.
Cozy Powell – Octopus, 1983 – Terceiro trabalho solo de Cozy, que aqui é acompanhado pelos antigos colegas de que integraram com ele o whitesnake, o excelente Colin Hodgkinson no baixo, Mel Galley na guitarra e o mítico Jon lord nos teclados. Músicas como a faixa-titulo e “Princetown”, mostram Cozy tocando um vigoroso e bem sucedido jazz-rock instrumental, e se saindo bem, inserindo um clima de jam sesion que perpetua por todo o álbum. Outra boa pedida é o seu primeiro disco solo denominado “Over the Top”, de 1979, outro grande trabalho instrumental que o baterista faz uma excelente dobradinha com Jack Bruce.
Whitesnake – Slide It In, 1984 – Mostrando toda sua versatilidade, Cozy integra as fileiras do Whitesnake em um momento de transição: O grupo vinha mudando seu som, que tinha suas influências calcadas no blues, para uma sonoridade mais pesada e hard. E nesse ponto a participação de Powell veio para somar, pois o baterista conseguiu injetar peso na medida certa que o vacalista e líder David Coverdale tanto buscava. Faixas mais rápidas e hard como Guilty of Love” aparecem ao lado de outras com acento mais pop como o mega-sucesso “Love is no Stranger”, catapultando o grupo ao estrelato mundial. Aqui Powell teria a ajuda do excelente Baixista Neil Murray, e com ele formaria uma das cozinhas mais coesas do rock, inclusive repetindo a parceria anos mais tarde no Black Sabbath. Powell mais uma vez dá um show de técnica e versatilidade, colocando o peso de sua bateria a serviço do grupo. Ponto pra ele.
Black Sabbath – Headless Cross, 1989 – No final dos anos 80, pouco havia restado do Black Sabbath como todos conhecemos. Na época o grupo servia de base para as aspirações solo do guitarrista Tony Iommy, único membro original, que por motivos contratuais gravava sob o nome de Black Sabbath. Do seu lado, co-liderando o grupo estava Cozy Powell, que inclusive ajudava a escrever as músicas junto com o Iommy. Mais uma vez o baterista dá um show de ritmo e sensibilidade. Aqui, na música do Black Sabbath, sua bateria soa mais densa, arrastada, mais soturna mesmo, como na introdução da faixa-titulo, e na apoteócia “when Dead Calls”. “Call of The Wild” é outro bom destaque que mostra a perfeita integração do baterista com o baixista contratado Laurence Cottle. Headless Cross pode ficar abaixo dos grandes clássicos gravados pelo Sabbath, mas com certeza tem peso e um trabalho de bateria realizado por Powell poucas vezes vistos nos CDs lançados pelo grupo.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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