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Legião Urbana - Do culto ao ódio

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Autor: Marcel Z. Dio

27/10/2019

Enquanto o BRock nadava de braçadas, o heavy metal e hard rock nacional, (oriundos da escola setentista) penavam com a marginalização, sem o aporte de gravadoras, e gravações pra lá de modestas. Tudo uma questão de onda, como sempre foi no Brasil, e a onda era o BRock, consumido por jovens de todas as faixas, filhos da entressafra da ditadura.
As canções não tão agressivas no aspecto instrumental, levantavam bandeiras políticas, sociais e amorosas em alguns casos.
Assim nasceu a Legião Urbana, flertando com influências de bandas pós-punk, como The Cure, Echo & the Bunnymem e The Smiths, inclusive "emprestando" descaradamente partes instrumentais das citadas.
Interessante que o ápice do culto, se deu nos anos 90 e 2000, assim como aconteceu e acontece até hoje com Raul Seixas e em menor escala por Cazuza.
Letras de cunho político, amores perdidos, drogas e sobre uma geração que mal sabia para onde ir, soam atual até hoje, a exemplo de Teatro dos Vampiros, gostem ou não.
"E tudo ficou tão claro como um intervalo na escuridão", nítido que a estrela de brilho raro era Renato Russo, a personificação da Legião Urbana, um poeta realista dos anos 80, com seus chiliques, manias e personalidade forte.

O ódio ...

Da mesma forma que amada pelos jovens dos anos 80, e aos temporões que o descobriam por via de amigos em festinhas, a banda começou a ser odiada com força.
Ninguém suportava mais o colega chato com violão desafinado e voz idem, tocando Faroeste Caboclo, (me incluo nessa lista).
Ainda em manifestações políticas, suas músicas eram gritadas como cânticos sagrados, uma peste que se espalhava aos que procuravam um sentido a vida ou rebeldia adolescente.
A parte mais revoltada com essa religião juvenil eram os roqueiros e bangers, insuportável ouvir aquele pop rock água de batata cantado por burgueses, diziam muitos.
Os eruditos musicais frustrados também pegaram a fila dos descontentes, atacando a falta de técnica dos instrumentistas. O que eles não entendiam é que o conceito funcionava, simples assim. A questão não era virtuosismo e sim aplicar bom gosto a canção, basta ouvir a beleza contida nos arranjos de Angra dos Reis.
A queda realmente veio após o Volume V, quando Renato Russo botou sua depressão e doença a prova, em discos como Descobrimento do Brasil (1994) e o póstumo Tempestade (1996), triste ouvir esses discos.

Assumo que também abandonei o grupo, minha paciência esgotou, ainda mais quando descobri a fundo o hard rock 70, o heavy metal e o rock progressivo. Naquela altura, ao contrário do final dos anos 80, escutava ocasionalmente as canções da Legião Urbana, e bem baixinho no receiver, com medo de machucar meu ego roqueiro, achando que algum vizinho estaria preocupado com meu "refinado" gosto musical. Não era mais um adolescente, nem tão pouco adulto, apenas uma criança, se achando a ultima bolacha do pacote enquanto ouvia ... And Justice for All do Metallica.

Os textos publicados na página do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do autor


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