Resenha

The Piper At The Gates Of Dawn

Álbum de Pink Floyd

1967

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

24/03/2019



Uma ode à loucura

Esse disco se trata de algo tão amado por tantas pessoas que sempre me senti caminhando em cima de ovos ao falar dele, afinal, apesar de achá-lo um bom álbum, não consigo captar nenhum tipo de genialidade, principalmente porque quando ouvi esse disco pela primeira vez eu já estava calejado em ouvir obras primas como Dark Side of the Moon e Wish You Were Here, por exemplo, logo, me perguntei, “por que meus ídolos estavam fazendo essa música exuberante e lisérgica?” Acho que a resposta vocês já até devem saber, né? Syd Barrett. 

The Piper at the Gates of Dawn é um álbum semi conceitual inspirado no livro infantil favorito de Syd Barrett "O Vento e os Salgueiros" (inclusive o nome do disco é o nome do seu capítulo mais famoso) e por isso é de alguma forma ingênuo e inocente, mas também é uma ode à loucura, às vezes confuso e às vezes com uma total “falta” de coerência. Mas convenhamos, essa insanidade é a chave de toda a sua transcendência. 

O álbum começa com "Astronomy Domine", uma música típica da psicodelia 60’s, um som pop baseado em guitarra, além de uma bateria de levada simples e eficaz. Mesmo quando Floyd nem sequer sonhou com Dark Side..., podemos ouvir algumas seções espaciais que eles desenvolveriam anos mais tarde.

"Lucifer Sam" é uma música que eu gosto muito e possui uma linha de baixo bastante cativante, me fazendo lembrar certa forma o tema do Batman (aquele dos anos 60). Seu destaque sem dúvida alguma se encontra na mistura complexa de instrumentos na seção intermediária e em seus teclados exagerados.

“Matilda Mother” é uma música que me dá a impressão de que deve ter sido um clássico na época, mas hoje soa um pouco desatualizada e não envelheceu como outros clássicos e que os vemos de maneira atemporal. Mas ainda assim tem o seu valor, muito complexa com múltiplas mudanças e vocais elaborados. Devo dizer que o ouvinte quase pode sentir os efeitos do LSD quando está diante dessa música. 

“Flaming” não consegue me entusiasmar muito. Um pop psicodélico de letra boba (deixando claro que essas letras nunca foram o problema, muito pelo contrário, são ótimas para o disco). Apesar de não gostar muito dessa, devo admitir que os efeitos de produção são os melhores até agora. 

"Pow R Toc H" é daquelas músicas que podem ser descritas em apenas duas palavras, ácido puro. A canção é atormentada com sons e gritos, quase sempre fora de sintonia e que seria totalmente fora da realidade se não fosse pelas extraordinárias seções de piano de Wright que a traz de volta pra terra. 

“Take Up Thy Stethoscope And Walk” é mais um momento do disco que o enfraquece, mas ao contrário de “Flaming” que apesar de tudo, ainda possui algo elogiável, aqui sinceramente eu não aproveito nada. Trata-se uma música típica dos anos 60, porém, sinto nela uma falta de imaginação e coerência.

"Interstellar Overdrive” com quase dez minutos é a faixa mais longa do disco, mostra a banda provavelmente na sua primeira tentativa de algo mais ligado ao space rock e menos psicodélico. Apesar de soar às vezes meio confusa e caótica, não deixa de ser muito interessante. É a banda oferecendo algo inovador. 

Chegamos agora o momento de maior discórdia quando falo sobre esse disco que é o fato de considerar "The Gnome", "Chapter 24" e "The Scarecrow” uma trinca de músicas literalmente fracas. A banda não oferece nada diferente do que bandas menores fizeram antes, considero três faixas bem esquecíveis, exceto pelos valores históricos de terem sido compostas por Syd Barrett.

“Bike” é a faixa que finaliza o disco. Bastante infantil e ingênua, consegue me cativar bastante, muito bem feita. Acho interessante que na seção do meio há um momento de silêncio e uma explosão de sons de relógio que por um instante nos remete ao Dark Side of the Moon.

The Piper at the Gates of Dawn explora muito bem os aspectos da música psicodélica, de um mundo que vai além dos sentidos e ao mesmo tempo é uma demonstração absoluta de insanidade mental, algo que talvez até explica o futuro colapso de Syd Barrett. É certamente um disco significativo da psicodelia britânica e que nem sempre é compreensível por aqueles que não viveram os excessos proporcionados pela segunda metade dos anos 60, mas dentro da discografia da banda, devo admitir que apesar de acha-lo um bom disco, está aquém de álbuns que considero de fato essenciais da banda. 


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

The Piper At The Gates Of Dawn

Álbum disponível na discografia de: Pink Floyd

Ano: 1967

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,14 - 14 votos

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