Resenha

Imaginary Voyage

Álbum de Jean-Luc Ponty

1976

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

22/03/2019



Imaginary Voyage é um disco extremamente rico em estilos, influências e sons

Jean-Luc Ponty é daqueles artistas que toma de diferentes influências e combina-as com sua personalidade única para criar um som novo e diferente sem perder sua essência e toque distintivo, mas com referências óbvias aos específicos gêneros dos quais ele leva as influências. Em outras palavras, compositores menos talentosos misturam sons e gêneros aleatoriamente, um grande compositor como Ponty combina tudo com delicadeza para criar uma concepção diferente de música com uma personalidade bem definida.

Em Imaginary Voyage, Ponty muda a formação em relação ao disco anterior, Aurora. Patrice Rushen é substituído por Alan Zavod nos teclados e Norman Ferrington por Marc Craney na bateria e percussão. No caso da bateria, não sinto nenhuma diferença gritante, mas gosto muito mais da abordagem clássica de piano de Rushen do que o estilo eclético de Zavod, mesmo quando esse segundo seja inclusive mais versátil, porém, a real mesmo é que qualidade não muda porque todos os membros são muito talentosos, incluindo, claro, os permanecentes, Tom Fowler no baixo e Daryl Stuermer na guitarra e violão. 

O disco começa através de, “New Country”, uma excelente mistura de jazz e folk/country americano. Interessante é que Jean-Luc cria a sonoridade country com seu violino e o resto da banda continua tocando em um estilo jazzístico, especialmente os poderosos baixo e bateria em uma seção rítmica arrepiante. Em um ponto da música, Ponty usa a técnica pizzicato (quando o músico toca o violino com os dedos em vez de usar o arco) criando a ilusão de um som de banjo, uma lição perfeita de como dois estilos devem ser misturados.

Em “The Gardens Of Babylon” os membros da banda mudam o papel, violino, piano, baixo e teclados tocam uma música claramente orientada para o jazz, enquanto Darryl Stuermer adiciona um toque maravilhoso de flamenco, novamente uma lição de como as coisas deve ser feitas quando você quiser misturar dois gêneros absolutamente diferentes sem criar uma bagunça. Faixa maravilhosa. 

“Wandering On The Milky Way” é um solo de violino onde Jean-Luc se permite tocar no seu instrumento de coração usando todos os dispositivos eletrônicos nos quais ele é pioneiro para criar uma atmosfera espacial. São menos de dois minutos, mas muito bem utilizados. Porém, não espere algum virtuosismo ou algo impressionante, aqui se trata de uma boa viagem sonora. 

“Once Upon A Dream” é uma música clássica de jazz/fusion onde o violino e o piano assumem o papel principal enquanto Marc Craney mantém um ritmo perfeito com sua bateria, porém, acho que um baixo mais forte soaria muito melhor, ainda assim não tem como deixar de dizer que se trata de mais uma grande música. 

“Tarantula” mostra o lado mais agressivo do álbum em uma mistura perfeita de Jazz com rock, Ponty e Stuermer trabalham perfeitamente juntos nas linhas mais rock enquanto as linhas fortes de baixo de Fowler e o metrônomo humano chamado Marc Craney mantêm a atmosfera jazzy viva, mas Zavod e seu trabalho nas teclas merece menção especial, porque ele está sempre mudando de um gênero para o outro com muita destreza e apoiando cada dueto quando necessário. Música espetacular. 

Agora chegou o momento do épico, “Imaginary Voyage” e que é dividido em quatro partes. A Parte I é claramente orientada para uma linha progressiva sinfônica, com algumas referências a Emerson, Lake & Palmer, mas claro que sem nem 0,1% de cópia, Ponty apenas toca com essas influências o seu próprio som, mesmo quando esta parte soa 100% sinfônica, ainda nota-se bater no coração dela algum som jazzístico. A Parte II é um retorno às brilhantes seções de violino de jazz e características de Ponty, enquanto a banda o apoia perfeitamente, especialmente Zavod, que faz um trabalho espetacular com os teclados. A Parte III começa com uma atmosfera espacial de alguma forma reminiscente ao Pink Floyd, mas novamente o desenvolvimento leva a música para o jazz/fusion, um território onde Jean-Luc Ponty é mais confortável, mesmo quando alguns toques psicodélicos são evidentes, sem dúvida a mais rica e minha parte preferida entre as quatro desse épico. Se houve algum gênero não trabalhado por Ponty neste álbum, esse gênero é o blues, mas pelo prazer de quem gosta do gênero (como eu), Jean Luc fecha este álbum com a Parte IV que tem uma sonoridade principalmente orientada para blues, onde novamente existe um excelente trabalho de Daryl Stuermer, esta seção do épico também recapitula atmosferas das outras três partes anteriores, grande desfecho. 

Imaginary Voyage é um disco extremamente rico em estilos, influências e sons. Maravilhoso do começo ao fim, onde o seu único ponto fraco é que ele acaba. Um clássico absoluto. 


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Imaginary Voyage

Álbum disponível na discografia de: Jean-Luc Ponty

Ano: 1976

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,67 - 3 votos

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