Resenha

The Road Of Bones

Álbum de IQ

2014

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

03/10/2017



The Road of Bones é sombrio, edificante e impecável

Quantas bandas com 40 anos de carreira conseguem fazer com que o seu disco mais recente seja o melhor? Se essa pergunta me fosse feita em 2014, antes que o IQ lançasse seu álbum The Road of Bones, talvez eu demorasse pra responder - isso se eu respondesse. Mas desde aquele ano, após ouvir o disco, minha resposta é outra, afinal, The Road of Bones, é sim o melhor trabalho da carreira da banda inglesa.

Mas ainda assim, como nada é unânime, qualquer álbum do IQ está obviamente sujeito a uma grande gama de opiniões. que variam desde "obra-prima" até "não entendi muito bem". Mas acima disso tudo, vi nesse álbum que a banda não somente foi um dos grande nomes do neo progressivo em resposta ao "desaparecimento" iminente do progressivo clássico no final dos anos 70, como mesmo depois de basicamente quatro décadas, mostram que obras relevantes e musicalmente tão ricas quanto os "anos de ouro" do gênero ainda estão entrando em catálogo, sendo a banda um dos principais responsáveis por isso. 

Particularmente, eu sou um fã da banda, tirando dois deslizes seguidos no final dos anos oitenta com seus discos, Nomzamo de 1987 e Are You Sitting Comfortably? de 1989 - ambos sem Peter Nicholls no vocal -, a banda sempre foi coesa. A capa do álbum já é algo bastante condizente com a música em si, ou seja, um clima sombrio, uma tristeza melancólica sob uma névoa. Um dos principais responsáveis para que o desenvolvimento disso tudo tenha um grande resultado ficou, por conta das mãos do tecladista Neil Durant que arquitetou tudo brilhantemente.


CD1:

O disco começa por meio da faixa “From The Outside In”. A música tem o seu início com a voz do ator húngaro, Bela Lugosi, que interpretou Drácula em 1931, inclusive, a frase é uma famosa dita por ele no filme, “listen to them, children of the night, what music they make”, isso junto de um som atmosférico. Então os instrumentos entram em uma explosão que faz lembrar um pouco o que a banda de neo progressivo dos seus compatriotas da Galahad fizeram nos discos mais recentes. Na abertura, já nos é apresentado um poderoso mellotron, e segue assim por toda a faixa, exceto no momento que ela se acentua mais. O baixo dessa música é extremamente profundo. Uma música que tem um brilho melancólico incrível. É uma das faixas mais pesadas que a banda criou em toda a sua discografia, quase um metal progressivo.

A música seguinte é a que dá nome ao disco. “The Road of Bones” é uma faixa sensacional. Possui um brilho moderno, partes com teclados orquestrais, baixo fretless e uma instrumentação que varia entre grande leveza e crescentes partes sinfônicas que são avassaladoras, criando uma paisagem sonora soberba.

Em 2004, dez anos antes do lançamento de The Road of Bones, a banda gravou um épico, "Harvest of Souls", para o disco Dark Matter. Aqui eu digo que gravaram uma música companheira a ela chamada "Without Walls", algo me faz uma lembrar a outra. Um épico de mais de 19 minutos. A música tem o começo por meio de uma balada que confesso ser meio chato, mas ainda bem que a musicalidade da faixa é substituída por uma levada de guitarra e bateria ao estilo "Kahsmir" do Led Zeppelin. No meio tem uma parte introspectiva criada por uma orquestração até a entrada de um violão e o vocal sereno e emotivo de Peter Nicholls. A faixa então novamente ganha uma cadencia mais excitante parecer ter chegado ao seu fim, com os instrumentos sendo executados de maneira "bagunçada" e caótica, mas então tudo volta a mesma instrumentação inicial da faixa, sim, aquele que não me agradou, mas agora tem a vantagem de ser um som mais encorpado com direito a um bonito solo final de guitarra.

“Ocean”  eu confesso ter demorado um tempo para apreciá-la. Uma canção de clima pastoral, bucólico e atmosfera pura muitas vezes por conta do clima criado pelo teclado de Neil Durant, que é completamente influenciado por Tony Banks. Uma balada simples que vai crescendo conforme nos acostumamos com ela. Destaque também para dos vocais emotivos.

“Until the End” encerra o primeiro CD de forma positiva. Após a introdução de cerca de três minutos em tom de balada, a música entra em uma crescente onde os trabalhos de maior destaque ficam por conta da bateria criativa e enérgica de Paul Cook e as ótimas linhas de baixo de Tim Esau. Mas toda a banda desempenha bem o seu papel, possuindo também um ótimo vocal, excelente ambientação criada pelo teclado e uma bela guitarra de final. Uma música que soa menos obscura que boa parte do resto do álbum, ainda que seu final seja melancólico.

CD2:

Abre com “Knucklehead” por meio de uma seção rítmica que remete a sonoridades indianas. Um dos melhores momentos da guitarra no álbum está nessa faixa, desde a parte acústica que encerra a linha indiana, até os seguidos por ideias pesadas e bom arpejo. A seção rítmica também brilha durante toda a canção. Uma peça de começo sereno e final enérgico.

"1312 Overture", o nome da faixa é uma alusão bem-humorada a peça “1812” do compositor russo PyotrTchaikovsky (1840 – 1893). Uma curta faixa instrumental em que Neil é o maior destaque criativo, nos brindando de maneira ímpar com um teclado que por si só vale por toda a música. Não é complexo, mas é belo e progressivo.

“Cosntellations” sem dúvida alguma é um dos melhores momentos do álbum. Já no início, carrega uma excelente percussão e mellotron. Poucas vezes, durante toda a carreira da banda, nota-se um grupo com o grau tão elevado de inspiração. Os vocais de Nicholls estão no seu ápice de beleza e emotividade, compelido para a grandiosidade e excelência novamente dos teclados, esses por sua vez, impulsionados por linhas de baixo corpulentas e uma condução rítmica sensacional de bateria. Holmes que até então só havia feito uma guitarra tímida, aqui finalmente brilha junto dos demais músicos pra compor um som que já nasceu com status de clássico. Com claras influências de Genesis, a banda atingiu um apogeu musical como poucas vezes foi visto durante sua rica carreira. 

O álbum segue agora com a belíssima, "Fall and Rise". Uma balada sublime em que Tim brilha com o seu baixo fretless por meio de linhas maravilhosas entrelaçadas com a bateria sinuosa de Cook. No meio da faixa, Holmes mostra o quão bom também é no violão em um solo simples, mas ao mesmo tempo, de bastante feeling, bem no estilo guitarra espanhola, e que casa muito bem com os vocais de Nicholls. Outra vez os teclados de Neil Durant são excepcionais.

"Ten Million Demons" é mais um dos momentos arrepiantes do álbum. Começa isoladamente com um baixo encorpado - esse começo sempre me lembra "One of These Days" - que logo ganha a companhia dos demais instrumentos. O que Neil Durant faz nessa música é sublime, as progressões de acordes escolhidas pelo tecladista são maravilhosamente deliciosas de ouvir. Se existe alguém que faz com que essa música seja da grandeza que é, com certeza essa pessoa é o Sr. Durant. Sempre com nítidas influências em Tony Banks, mas sabendo se apresentar de forma singular. Ouvi-la com um fone de ouvido e luzes apagadas é uma forma mais barata de viajar pra fora de órbita.

"Hardcore" é a faixa que finaliza o álbum. Uma sonoridade triste, gótica, fazendo lembrar o compositor clássico alemão Wagner, mas claro, dentro de um contexto progressivo, injetando uma carga sombria na música. Destaque também para o uso do mellotron, executado de forma melíflua. O álbum finaliza com sua música mais fúnebre. O baixo de Tim tem um breve momento solo, sempre carregado com notas tristes. Holmes faz uma mescla entre duas de suas influências, Steve Hackett e Anthony Phillips pra compor um lindo final acústico para o álbum.

Ao contrário do que costuma acontecer com muitas bandas com bom tempo de estradas, o IQ lançou seus melhores álbuns a partir dos anos 2000. A produção, o som, a qualidade das músicas, enfim, tudo ficou impecável. Vida longa a uma banda que depois de tanto tempo de estrada não se acomoda, mas procura de fato fazer sempre algo melhor do que o que foi feito anteriormente. Indispensável.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

The Road Of Bones

Álbum disponível na discografia de: IQ

Ano: 2014

Tipo: CD/LP

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