Resenha

Mrã Waze

Álbum de Arandu Arakuaa

2018

CD/LP

Por: Tarcisio Lucas

Colaborador

20/03/2019



Música e ancestralidade!

Desde seu primeiro lançamento, tenho acompanhado com muita atenção o som do Arandu Arakuaa. Logo na primeira audição que fiz da banda, percebi estar ali uma proposta única, e que prometia evoluir enormemente quanto ao valor das composições, tamanho potencial latente que existia no som do conjunto.

E de fato foi o que aconteceu!

“Mrã Waze” é a concretização de todo o potencial do grupo, de forma cristalina e fantástica!
Enquanto os trabalhos anteriores ainda apresentavam certas passagens que pareciam “quase chegar lá”, aqui eles de fato chegam! A junção entre a regionalidade, explicitada no uso da viola caipira e dos cânticos indígenas que lembram vocalizações de um pajé no meio da mata, com as guitarras e sonoridade heavy metal encontrou aqui o equilíbrio definitivo. Ou melhor, chegou bem perto disso. Mas chegaremos lá.
A parte metal mostra variações enormes, indo desde riffs típicos do Death Metal, passeando por outras paragens como metal progressivo, metal tradicional, black metal, rock progressivo...já a parte regional, que é majoritária dentro do trabalho da banda, além do canto indígena,  traz referências ao frevo, ao maracatu, moda de viola, jongo, Milton Nascimento (em seus trabalhos mais experimentais), entre outros...até a dança tradicional conhecida como “catira” tem seu momento aqui, na musica “Ko Kri”.
Acrescente a isso elementos de world music e new age, e temos então o som do Arandu Arakuaa. 
Aliás, me parece que a banda está cada vez mais abraçando esse lado world music, o que acho sensacional, uma vez que pode levar o heavy metal para mercados e audiências que de maneira geral ficam bem longe do nosso estilo musical favorito. 
Lembrando que é basicamente o que o Jon Anderson, ex vocalista do Yes fez na decada de 80 e 90 com seus trabalhos com o Vangelis e Kitaro: levou o rock a lugares nunca antes explorados, com excelentes resultados, tanto comerciais como musicais! 
Palmas para o Arandu Arakuaa nesse quesito.

A produção de Mrã Waze é outro fator de destaque, sendo bem superior às produções anteriores do grupo, alcançando o tipo de limpeza no som que a proposta da banda exige. 
Em relação aos álbums anteriores, percebemos também uma diminuição no ritmo e velocidade das musicas, acredito que para acentuar os elementos que a qualidade dos recursos propiciou ressaltar. Mas quando o peso e a velocidade aparecem, como na música “Jurupari”, aparecem lindamente!

A respeito dos vocais, acho sensacional a impostação “pajé” que é dado a muitos trechos, fugindo totalmente dos modelos tradicionais do heavy metal e criando algo muito original e até certo ponto exótico. Os vocais femininos, cantados por Lis Carvalho, como sempre, estão maravilhosos.

Sou muito fã da banda.

Como contraponto a todas as qualidades do álbum, apenas uma coisa me preocupa, e nem chega a ser uma critica de fato...
As composições da banda ainda focam grandemente na alternância do metal com o regional. Eu, enquanto musico, adoraria ver essas duas propostas AINDA mais mescladas de fato. Por exemplo, um longo solo de viola caipira em cima de uma base típica do death metal, ou um solo de guitarra com arpejos e escalas modais tendo como acompanhamento apenas maracas e tambores...isso seria lindo! Não que não exista isso na discografia do grupo, mas acho que ainda muita coisa pode sair disso! É uma fórmula que a própria banda tem apresentado, e que, a meu ver, pode ser levada ainda mais longe! Qualidade, criatividade e competência para isso a banda tem de sobra.

Em tempos de discussões ideológicas e políticas sobre o que é de fato o “Brasil” e suas origens, é muito satisfatório ver que a banda ainda mantém todas as suas letras em idiomas indígenas, como o Tupi Guarani, o Xavante e o Xerente, dando um colorido e uma identidade ancestral ao trabalho, que vai muito além das divisões atuais e que mostra um quadro maior.
Termino dizendo que sinceramente acho o Arandu Arakuaa a banda de metal com o som mais original do cenário metálico atual.


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Sobre Tarcisio Lucas

Nível: Colaborador

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Sobre o álbum

Mrã Waze

Álbum disponível na discografia de: Arandu Arakuaa

Ano: 2018

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,75 - 2 votos

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