Resenha

Focus Plays Focus

Álbum de Focus

1970

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

17/03/2019



Uma estreia agradável, diversificada e influente

Por mais que após eu falar que considero o Focus uma banda subestimada, aparecem algumas pessoas falando que a conhecem ou mesmo a tem como sua preferida, nada disso apaga que o reconhecimento da banda está muito abaixo dos seus feitos. Seu disco de estreia é de 1970, época em que o progressivo sinfônico já estava bastante conhecido e querido dentro do Reino Unido e na Itália que seguiam os passos britânicos com algumas características especiais. Porém o Focus ultrapassou os limites e mudou completamente a abordagem. 

Enquanto as bandas britânicas e italianas estavam muito ocupadas com os exuberantes teclados e as melodias fortes, o Focus foi capaz de combinar uma guitarra distinta e única, alguns elementos de jazz e uma forte influência clássica. Neste primeiro álbum eles ainda não se livraram das influências psicodélicas do final dos anos 60, mas eles já estão criando uma nova forma de fazer música dentro do meio. 

A faixa de abertura é “Focus” (vocal), apresenta uma atmosfera suave e relaxante, uma das poucas faixas vocais na carreira da banda, sendo que Thijs Van Leer mais tarde começaria a usar sua voz como um instrumento extra ao invés de cantar letras. A voz faz uma introdução perfeita para um longo onírico e relaxante trabalho de órgão hammond coberto pela guitarra. Um início de disco que já parece nos preparar para algo especial. 

“Black Beauty”  é uma faixa diferente do que foi mostrado no começo e que mantém vivo o espírito dos anos 60, de alguma forma podemos dizer que é uma música psicodélica lançada de maneira “atrasada”, os vocais no estilo da invasão britânica combinam perfeitamente com uma melodia forte e bem elaborada. É importante notar como Jan, com sua guitarra, e Thijs, com um piano sutil, conseguem assumir a liderança um após o outro, duas personalidades fortes e estilos diferentes mesclando seus esforços em favor da música.

“Sugar Island” é outra típica faixa ao melhor estilo 60’s com reminiscências do cenário da Carnaby Street, mas já com um estilo mais desenvolvido, quando ouço o trabalho vocal, não consigo entender por que eles decidiram cantar tão pouco durante a carreira. Uma menção especial para a fantástica guitarra de Jan Akkerman e a flauta de Thijs, simplesmente impressionante. Algumas pessoas dirão que tentam clonar o som folclórico de Jethro Tull, mas, de fato, o Jethro ainda fazia principalmente blues até 1970, então é difícil falar sobre uma cópia.

“Anonymus” é a primeira música que soa como o Focus que todos conhecemos e amamos, a flauta é claramente agressiva, a força da música depende exclusivamente dos instrumentos, longas passagens, mudanças radicais de andamentos, enquanto Jan se concentra em sua guitarra, Thijs salta do piano para a flauta como um polvo humano, enquanto Hans Cleuver e Martijn Dresden complementam perfeitamente, especialmente Martijn, que faz um solo de baixo de tirar o fôlego. Uma ótima música

“House Of The King” foi o primeiro hit mundial da banda, Thijs faz um trabalho frenético de flauta com Martijn o apoiando impecavelmente com o baixo, a faixa é simplesmente deliciosa em sua simplicidade. Um fato curioso é que pra cada 10 pessoas que mostro essa música, 9 dizem ser do Jethro Tull, mas sinceramente, acho a pegada bastante diferente. 

"Happy Nightmare (Mescaline)" é uma faixa diferente, de alguma forma influenciada pelo jazz latino, funciona como um alívio do estresse. Mesmo que as faixas anteriores pareçam relaxantes, há discos em que o excesso de seções instrumentais e poucas vocais podem criar algum estresse que precisa ser dissolvido, e a banda faz esse trabalho exatamente aqui. 

“Why Dream” é o que eu defino como uma faixa estranha. Começa com uma introdução barroca reforçada por um órgão sóbrio, mas os vocais nos trazem de volta ao século XX. A melodia forte e melancólica combinada com a guitarra agressiva de Jan é espetacular. O órgão hammond é uma constante ao longo da faixa. Não espere mudanças radicais, apenas deixe fluir e você vai se divertir assim como eu me divirto com essa música. 

“Focus” (instrumental), ao ler o nome dessa música pensamos que iremos ouvir a uma faixa idêntica a primeira só que agora sem os vocais, mas não se enganem com isso, apenas a melodia central e o nome se repetem. A banda explora seus instrumentos muito bem, Thijs faz constantes solos de hammond, cada um mais forte que o anterior, enquanto Jan faz a sua guitarra chorar de angústia criando uma atmosfera dramática que contrasta com a agradável criada na faixa de abertura do disco. Rock progressivo puro e no seu melhor. 

Esse álbum de estreia é o melhor álbum do Focus? Não, mas tenha a absoluta certeza que essa é a chance (caso não conheça) de você descobrir uma banda que mais tarde seria revolucionária e transcendental no desenvolvimento do Rock Progressivo.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Focus Plays Focus

Álbum disponível na discografia de: Focus

Ano: 1970

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 2 votos

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