Resenha

Blind Faith

Álbum de Blind Faith

1969

CD/LP

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

14/02/2019



Fé Cega, Faca Amolada: os devaneios musicais de Clapton e Winwood!

Em 1969, o rock já havia se firmado como um estilo envolvente e rebelde. As vertentes já começavam a aparecer com o surgimento do progressivo e de bandas mais pesadas, o panorama ainda estava em construção, mas o estilo já possuía algumas personalidades.

Um destes astros era Eric Clapton, um inglês que contava com um currículo e tanto: tinha passado pelo The Yardbirds ao lado de Jimmy Page e Jeff Beck, integrou a melhor formação da banda solo de John Mayall e havia feito parte do Cream, o primeiro supergrupo da história. Nada mal para um jovem de apenas 24 anos!

Steve Winwood, outro inglês também era uma personalidade no mundo do rock com um longo currículo : tocava com desenvoltura guitarra, piano, órgão, baixo teclados e ainda cantava. Havia integrado o Spencer Davis Group, o Traffic e ainda tinha pinta de galã de telenovela!

Os dois se encontraram meio que por acaso, tinham abandonado suas respectivas bandas e estavam pensando em novas possibilidades no meio musical. Os dois músicos decidiram se juntar e realizar algumas jams de forma espontânea e intuitiva, sem nenhuma pressão de gravadora ou mesmo dos fãs. O objetivo era se divertir.

O baterista Ginger Baker que havia integrado o Cream ao lado de Clapton ficou sabendo dos encontros musicais de ambos e se ofereceu para participar. Claro que Clapton foi veementemente contra, pois ele ainda tinha problemas com Baker da época do Cream, sem falar que sua entrada daria uma dimensão maior ao projeto, e o guitarrista evitava isso a todo custo. Porém, Winwood o convenceu do contrario, uma vez que sempre tente vontade de trabalhar com Ginger. 

Claro que nos primeiros ensaios surgiu a necessidade de um baixista. Optaram por um jovem francês amigo de Eric que havia feito relativo sucesso na Inglaterra integrando o combo progressivo chamado Family do cantor Roger Chapman. Além de hábil nas quatro cordas, Greich era competente também no violino e possuía um senso de melodia diferente.

Com a chegada dos dois, havia acontecido exatamente o oposto do que Clapton queria: Estava formado um novo supergrupo com grandes músicos do rock inglês daquela década. A noticia que os quatro estavam juntos fomentou o meio musical da época, com jornalistas e fãs ansiosos pelo disco do novo grupo de astros. Clapton ficou bastante decepcionado com aquilo tudo, ele queria se divertir e não voltar a ser pressionado como antes. Mas como tudo já estava encaminhado o guitarrista seguiu em frente dando a ideia de batizarem o grupo como Blind Faith (em português fé cega), em “homenagem” aos fãs e imprensa que estavam endeusando os quatro antes mesmo de ouvirem o que eles poderiam fazer juntos.

Para a produção veio Jimmy Miller que já havia trabalhado com Winwood no Traffic e com o Rolling Stones. Miller se enfiou no estúdio com o quarteto que compunha as canções de maneira despochada em meio a improvisos, cabendo a Winwood reciclar e transformar os temas.

O álbum abre com "Had to Cry today”, calcado no Riff comportado de Clapton e na voz passional de Winwood. A cozinha segura e coesa de Baker/Greich funciona magistralmente e consegue segurar o tema com propriedade. Durante o solo é perceptível como a guitarra de Clapton é bem amparada pela bateria de Ginger. Apesar dos problemas de personalidade, era inegável que os músicos possuíam uma integração musical notável;

A curta “Can't Find My Way Home” foi o single do disco e é uma das músicas tocadas até os dias de hoje nos shows solo de Winwood.  A canção é uma balada, mas com uma impressionante riqueza sonora e melódica, com violões e percussões amparado o tema. A voz de Steve em meio falsete (se é que isso existe) colaborou para a sutileza da canção;

Seguindo temos "Well All Right", um contagiante cover de Buddy Holly bastante conhecido na época. Aqui, steve Winwood toma o tema pra si, “costurando” a canção com seus teclados e pianos, além de usar sua voz como destaque. A canção tem um groove sincopado ideal para Baker quebrar tudo em seu instrumento como fazia no Cream;

Em “Presence Of The Lord”, Clapton conversa com Deus através da canção. É um tema bastante passional e novamente a guitarra tem papel de destaque no decorrer de todo o tema Durante a gravação apareceram diferenças entre os lideres: Eric não queria cantar sua canção, mas insistia em dizer a Steve como ela tinha que ser gravada. 

‘Sea of Joy” é influenciada pelo rock progressivo, mais notadamente sua vertente psicodélica. Possui um andamento cadenciado amparado pela voz comportada de Steve e seu órgão hammond fazendo contraponto para o tema. O grande destaque é o belo solo de violino de Rich Greich.

O álbum encerra com "Do What You Like", uma suíte de mais de 15 minutos composta por Ginger Baker. A canção começa com o teclado malemolente de Winwood fazendo um contraponto com sua voz e amparado pela cozinha precisa do grupo. O longo tema dá espaço para improviso de todos os músicos encerrando o álbum de maneira soberba.

Quando chegou as lojas em 1969, o trabalho causou um grande rebuliço no mercado mundial, não só pela música de qualidade, mas por sua capa que trazia uma adolescente nua segurando um avião metálico. Comerciantes americanos ameaçaram boicotar a venda do disco e a capa foi trocada por uma foto pequena da banda no meio de um fundo preto. Por anos se especulou que a menina fosse filha ou sobrinha de Ginger Baker, talvez por ser ruiva. Após anos sua identidade veio à tona, trata-se de Mariora Goschen, uma inglesa que evita tocar no assunto devido aos inúmeros constrangimentos sofridos em relação a sua exposição através do álbum.

O grupo caiu na estrada para promover o álbum, que obteve  ótimas vendas. Porém, toda aquela efervescência em torno da banda desagradava Clapton, que não queria voltar a sentir a pressão dos tempos do Cream. O guitarrista foi se afastando do grupo gradativamente, aparecendo apático nas apresentações do quarteto. Então, no fim de agosto de 69 o grupo realizava o ultimo show no Havaí. Terminaria ali a curta trajetória de um grupo que marcou a carreira de seus integrantes até os dias de hoje, exatos 50 anos após seu lançamento.

Se for adquirir a versão em CD, prefira o formato De luxe, que contém varias faixas bônus e um disco  extra com várias jams do quarteto. 


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Sobre o álbum

Blind Faith

Álbum disponível na discografia de: Blind Faith

Ano: 1969

Tipo: CD/LP

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