Resenha

Disclosure In Red

Álbum de Trail of Tears

1998

CD/LP

Por: Tarcisio Lucas

Colaborador

29/10/2018



O metal gótico na medida exata!

1998 foi com certeza um dos anos mais importantes para a história do metal gótico. O Tristania fazia sua estréia oficial com o maravilhoso "Widow's Weed", e o Trail of Tears seguia na esteira com esse incrível Disclosure in Red.
Ambos os discos - o do Tristania e o do Trail of Tears - acrescentavam doses cavalares de peso ao gothic metal mais suave que se fazia na época. Elas (as duas bandas, Tristania e Trail of Tears) apareceram como sendo as versões "malvadas" do som mais polido que caracterizava o som do Theatre of tragedy, o grande nome do estilo "beauty and the beast" naquela época.
O Trail of Tears surgiu em 1994, e encerrou suas atividades em 2013. 19 anos de atividade, um tempo bastante longo se pegarmos como comparação a duração das dezenas de bandas que seguiram essa proposta ao longo dos anos.
19 anos de fidelidade absoluta ao estilo que se propuseram a divulgar.
O que temos aqui nesse Disclosure in Red é o que temos em absolutamente todos os discos do conjunto: musicas de extrema qualidade, que primam por soarem melódicas dentro de uma massa sonora densa e pesada. 
O vocal de Thorsen - que futuramente emprestaria seus dotes vocais ao Tristania, no (regular) disco World of Glass - possui um peso que nenhuma outra banda do estilo apresentava até então. 
A guitarra esbanja linhas melódicas alternadas com bases de um peso gigantesco, filhos diretos do passado death metal da banda.
O vocal da cantora Helena Iren Michaelsen, que deixaria a banda após o segundo disco, a obra prima "Profundemonium", é extremamente eficaz e casa perfeitamente com a sonoridade da banda.
Mas o grande destaca do Trail of Tears repousa mesmo no cuidado com as composições. Ao passo que a estréia do Tristânia, ainda que a banda buscasse um certo requinte, repousasse em composições até certo ponto repetitivas e com poucas variações, o Trail of Tears apresentava composições estruturalmente complexas, cheias de passagens diferentes, mudanças de andamentos e ritmos. Tudo com uma atenção a cada timbre de cada instrumento. A guitarra, por exemplo, apresenta dezenas de efeitos distintos ao longo do álbum, e mesmo assim nunca soa sem identidade (vide a música "Illusion", como um bom exemplo de variações de timbre por parte das 6 cordas). A quantidade de riffs que o guitarrista despeja ao longo do registro também impressiona. A bateria também acompanha essa modalidade, repleta de viradas e variações, coisa não tão comum de se ver dentro do estilo.
O teclado é usado mais na criação de climas, como na abertura de "Enigma of the Absolute", ou como reforço harmônico da guitarra de maneira geral, sendo dentre todos os instrumentos da banda o que passa mais despercebido. Mas ainda assim é tocado de forma muito competente.
O material gráfico desse debut colocaria em destaque outra característica da banda (que, ainda que não tão constante, pôde ser percebida ao longo de toda carreira do Trail): a visível preferência pela cor vermelha, que faria presença em muitas outras capas do grupo e que combina perfeitamente com a proposta lírica e estética da banda. Claro, esse é só um detalhe, mas que demonstra como a banda se preocupava em criar toda uma identidade para si própria, fato louvável em meio a tanta mesmice que começava já a se instituir dentro da cena gótica dos anos 90.
Mais do que um álbum de gothic metal, acredito que Discolosure in Red possui elementos capazes de agradar qualquer fã de heavy metal em geral. Se duvidam, recomendo que escutem as músicas "Temptress" e "Burden" (com uma introdução que poderia estar em um disco do Iron Maiden), que possuem elementos de praticamente todos os gêneros do metal, do mais pesado ao mais leve, verdadeiras obras primas, e talvez as melhores dentro do disco.
Escutando hoje - 20 anos depois - esse disco, percebemos que não teria forma melhor do grupo começar a carreira. 
Ao passo que bandas já citadas como o Tristania e o Theatre of Tragedy foram se perdendo e se encontrando ao longo do caminho, alternadamente, o Trail of Tears nunca se desviou dos trilhos que traçou claramente aqui.
Se algum ponto negativo tivesse que ser apontado, eu colocaria o vocal de Thorsen, que é extremamente potente e gutural, e ao mesmo tempo agradável de se ouvir, mas que não possui a gama de variação que todo o restante do som da banda apresenta (incluindo os vocais femininos, que variam bastante ao longo do disco). Mas esse é um detalhe quando comparado com as qualidades de todo o resto.

Enfim, para quem quer conhecer e se aprofundar na história e estética do gothic metal, "Disclosure in Red" é um trabalho indispensável e fundamental.
Palmas ao conjunto, que mesmo tendo encerrado as atividades, deixou uma obra extremamente digna, e que ainda angaria fãs em todo o mundo, como esse que humildemente vos escreve!


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Sobre Tarcisio Lucas

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Sobre o álbum

Disclosure In Red

Álbum disponível na discografia de: Trail of Tears

Ano: 1998

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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