Resenha

Aja

Álbum de Steely Dan

1977

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

29/09/2017



O ápice criativo da banda

Steely Dan durante sua carreira poderia ser visto mais como um quadro conceitual para a criação de música inventiva do que uma banda de rock típica, tendo como tutores os engenhosos da música, Donald Fagen e Walter Becker. Embora a banda tenha gravado prolificamente durante a maior parte dos anos setenta, eles só fizeram apenas uma turnê por um breve período no início daquela década, decidindo assim, que eles preferiam muito mais o estúdio e trabalhar na criação de uma série de álbuns icônicos e matizados que ficaram bastante conhecidos por apreciadores de música com ganchos pop, uma elegante harmonia de jazz e sagacidade de dessecação.

Sob a superfície altamente polida da música da Steely Dan, os ouvintes astutos podiam ouvir e sentir um amor visceral e uma identificação com a própria alma do jazz, onde esse ápice criativo se encontra no disco Aja. Eles possuíam uma magia sonora perfeccionista e que também conseguia ser acessível, sendo assim, os capacitando na criação de músicas feitas para fãs de diferentes tribos. Aja é a combinação perfeita do alto nível de composição criativa, musicalidade e tecnologia de gravação de estúdio que cresceu a passos largos desde que os revolucionários anos sessenta chegaram ao fim. Sem dúvida alguma um disco que envelheceu muito bem.

A pronuncia para o nome do disco é "Ásia", e foi inspirada pelo continente. Steely Dan tem várias músicas com uma influência do Extremo Oriente. Certa vez Donald Fagen disse à revista Rolling Stone que o título veio de um amigo do ensino médio, cujo irmão estava no exército e voltou com uma esposa coreana chamada Aja. Walter Becker e Donald Fagen usaram uma enorme variedade de músicos no álbum, escolhendo-os a dedo, onde a ideia era para que cada um se adequasse individualmente nas faixas que participassem. O fotógrafo, Hideki Fujii, foi quem eternizou a atraente imagem da modelo Sayoko Yamaguchi em uma seção de fotos no OZ Studios. Patricia Mitsui e Geoff Westen deram o acabamento que a deixou como uma figura intrigante, emergindo de um ambiente escuro com uma linda sombra de vermelho e uma fonte exótica aumentando a distinção do título do álbum no canto superior direito.


“Black Cow” é a música de abertura, por sinal, que música. O coro é bastante cativante e ainda consegue colocar um novo toque na estrutura e na direção da música. A bateria é um tanto contagiosa, enquanto que o restante dos instrumentos também se mantem em alto nível, as harmonias vocais funcionam muito bem e nenhuma nota soa fora do lugar. Um começo de disco maravilhoso.

“Aja” não é apenas a faixa título, mas o mais belo momento do disco. Começa com alguns dos pianos de jazz mais lindos que tive a oportunidade de ouvir, as linhas graves incisivas juntamente com o vibrafone que também ajudam a preencher o som. Os trabalhos de guitarras são maravilhosos e as melodias vocais misteriosas e temperamentais não poderiam ser mais bem feitas. Uma música que exemplifica de forma precisa o quanto o grupo é capaz de ser cirúrgico e apaixonado na maneira de tocar. Estruturas complexas e outras mais instrumentais com direito ao mestre Wayne Shorter emprestando seu talento para entregar um exímio trabalho de saxofone. "Aja" sem dúvida é uma daquelas músicas que entram no rol das que falamos que só ela já vale o álbum, ainda que o disco tenha muito mais a oferecer. Uma dica é escutá-la com um bom fone de ouvido pra captar cada detalhe dessa obra de arte.

“Deacon Blues” é uma daquelas músicas que já soa maravilhosa nos seus dez primeiros segundos. Uma faixa bastante edificante no seu núcleo, mas ao mesmo tempo pode soar melancólica, dependendo do momento que a se ouve. Tem uma cadência jazzy e suave, tudo é bastante claro e de simplicidade encantadora.

“Peg” é provavelmente a música mais direta do “jazz” encontrado no disco, às vezes soando incrivelmente aleatória, enquanto que ao mesmo tempo tudo permanece junto e bem organizado. O riff de fundo é tocado de maneira loquaz, dando uma incrível sensação de alegria no coração cada vez que o ouço.

“Home at Last” tem um excelente trabalho de piano logo no seu início e que continua por toda a sua extensão. Poderia dizer que é a faixa mais fraca do registro, mas não pra desmerecê-la, digo isso apenas se ter uma ideia do quão alto nível é a música do álbum. Adorável e executada com uma qualidade de primeira como sempre, talvez um pouco mais longa que o necessário e que a deixa um pouco repetitiva, mas ainda assim, com partes atraentes e interessantes.

“I Got the News” tem um trabalho de baixo e bateria com bastante groove. No geral uma excelente trilha, muito atraente e sempre adicionando camadas que a fazem crescer a todo instante. Um tipo de música que jamais faz com que o ouvinte fique entediado.

“Josie” é a música que fecha o disco com extrema maestria. Tem um dos riffs de guitarras rítmicas mais infectuosos já feitos pela banda. Apresenta uma linha incrível de baixo e bateria, coro cativante, linhas sólidas de guitarra, enfim, tudo bem encaixado e suavemente executado. Uma música pra finalizar um álbum que mostra o que o Steely Dan tem de melhor.

Quando nos perguntamos qual é a chave do sucesso de Aja, podemos pensar no quão tudo se encaixa musicalmente de forma perfeita. Um disco formado por um conjunto de peças fluindo juntas de maneira lógica, onde em momento algum há qualquer desperdício em termos de composições que estariam fazendo só volume. Aja cimentou firmemente o nome Steely Dan nos ouvidos musicais mais exigentes do final dos anos 70. Um verdadeiro clássico.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Aja

Álbum disponível na discografia de: Steely Dan

Ano: 1977

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,42 - 6 votos

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