Resenha

Roxy & Elsewhere

Álbum de Frank Zappa

1974

CD/LP ao Vivo

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

28/10/2018



Zappa ao vivo: Musicalidade, irreverência e genialidade em estado bruto

O ano era de 1974 e Frank Zappa havia gravado dois trabalhos menos experimentais e com mais ênfase no rock: tratava-se de Over-Nite Sensation e Apostrophe ('). Apesar de bem recebidos por crítica e público, o músico não se acomodou a sombra de seu sucesso, uma vez que essa  não era uma característica da personalidade de Frank. 

O guitarrista contava com uma grande banda formada por músicos extremamente competentes que permitiam ao guitarrista dar vazão a sua veia compositora, elaborando temas complexos e intrincados, uma vez que o grupo lhe dava segurança para tal empreitada. Gente do porte de George Duke (teclados), Tom Fowler (baixo), Ruth Underwood (percussão), Bruce Fowler (trombone), Walt Fowler (trompete), Napoleon Murphy Brock (vocais) e Chester Thompson (bateria) e outros.

Com o grupo coeso ensaiando varias horas por dia, o guitarrista realiza uma série de shows no Roxy Theatre, em  Hollywood, Califórnia,  no Edinboro State College, em  Edinboro, Pensilvânia  e em Chicago, onde apresenta um repertório formado em sua maioria por composições inéditas. 

	
“Peguin in Bondage” Abre o disco com uma letra sacana e debochada, com vocais sincopados,  seguida por um solo maravilhoso do mestre Zappa, que servia como um cartão de visitas, um convite a audição do disco;

"Pygmy Twylyte", é uma tema curto, como uma continuação da canção anterior, com os músicos cantando sobre a linha de vibrafone de Ruth Underwood e  apoiado pelo contraponto dos metais;

"Dummy Up” não deixa o ritmo cair, é cheia de swing e com vocais influenciados pela Soul music, cortesia de  do saxofonista e vocalista Napoleon Murphy Brock. Há inclusive espaço para improvisações de vocalizações. O baixo de Tom Fowler se mostra gorduroso e afiado, sustentando o ritmo;

A maior surpresa do trabalho fica por conta de "Village of the Sun", um a música pop com um pezinho no soul que poderia estar presente em qualquer disco do Marvin Gaye e não faria feio. A intenção de Zappa foi brincar com os emergentes grupos que surgiam no cenário mundial como Abba. O tema tem qualidade, mas assusta quem é fã da música intrincada do guitarrista;

A seguir temos “Echidna´s arf (Of You)”, uma pérola do universo fusion. ´é uma música toda sincopada e instrumental, onde que o guitarrista usa seu instrumento para duelar com os metais, tendo como base o xilofone de Ruth;

"Don't You Ever Wash That Thing?" Com seus mais de nove minutos é o  segundo maior tema do disco. Inicia-se de maneira urgente e claustrofóbica, com os metais atonais a frente da canção.  O solo de trompete de Fowler dá ares jazzisiticos  a canção, que se desenvolve espontaneamente em meio a improviso, com espaço para outros músicos de destacarem, como George Duke, com seu maravilhoso solo de piano elétrico  e o baterista Chester Thompson brilhando com seu solo. Frank deixa o melhor pro final: sua guitarra entra com precisão cirúrgica aos sete minutos da canção  e encerra o tema em seu ápice;

“Cheepnis”, é  talvez o auge do lado debochado e galhofeiro  de Zappa, que tira sarro dos filmes de terror mal feitos e dos efeitos especiais toscos. Musicalmente é um tema bem intrincado, com algumas mudanças de andamento e cantado por Zappa em meio a interseções musicais do grupo e a ajuda de vocais de apoio, 

Na sequência vem “Son of Orange County”,  que possui um andamento mais arrastado e cool, com a baixo de Fowler soando elegante e em evidência, além do naipe de metais comportado ao fundo. Frank vai crescendo dentro do tema paulatinamente e o incorporando com sua guitarra, sempre de maneira mais lenta;

“More Trouble Every Day” vem do primeiro disco dos Mothers, “Freak Out” e foi executada pelo músico até sua ultima turnê em meados de  1988.  É um rock mais acessível e arrastado, mas nem por isso menos genial. A letra é densa, criticando dois temas que tiravam Zappa do sério: racismo e jornalismo da imprensa marrom. “Na quarta feira eu assisti o protesto / Eu vi policiais nas ruas / Assisti eles jogando pedras e outras coisas...Ouvi os repórteres / Sobre o uísque passando em torno deles  / Vi fumaça e fogo...” Ninguém sabia criticar com tanta propriedade o sistema político Americano como Zappa;

"Be-Bop Tango (Of the Old Jazzmen's Church)", é a suíte do álbum com mais de 16 minutos, servindo para o encerramento do disco. Uma Jam session encharcada de jazz, onde o trompete de Fowler brilha mais uma vez amparado pelo baixo de seu irmão Tom.  Há boas  inserções vocais de Zappa que brinca com a plateia e os próprios músicos.

“Roxy & Elsewhere” reúne o que havia de melhor na personalidade de Zappa: Humor, deboche, irreverência,  musicalidade e genialidade. Um clássico,


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Sobre o álbum

Roxy & Elsewhere

Álbum disponível na discografia de: Frank Zappa

Ano: 1974

Tipo: CD/LP ao Vivo

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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