Resenha

Dwitza

Álbum de Ed Motta

2002

CD/LP

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

19/09/2018



Um trabalho antológico em que o cantor pôde expressar todas suas influências

Ed Motta sempre foi um prodígio musical. Começou lançando seu primeiro disco ainda bem jovem ao lado do grupo Conexão Japery e rapidamente se iniciou em carreira solo levando a bandeira hasteada por seu tio Tim Maia, como nova promessa da soul music brasileira. 

O cantor realmente se mostrou um excelente performer e compositor, lançando grandes discos  como “Entre e ouça”, com sua mistura de pop, soul e funk americano. Com o tempo e a maturidade, a musicalidade de Ed se tornou maior que um simples estilo musical, uma vez que o músico pesquisava os mais diversos estilos musicais, ampliando seus horizontes e bebendo em fontes tão diversas como Miles Davis, Led zepellin e Donny Hathaway.

Mesmo com uma bagagem musical tão diversa e refinada, o cantor continuava passivamente no estilo que o havia consagrado na mídia, seja por pressão de gravadoras, seja por iniciativa pessoal.

O panorama musical de Ed só viria a mudar em 2002, com o lançamento de Dwitza. O cantor e multi-instrumentista resolveu colocar pra fora sua bagagem musical, e cometeu um disco impecável do começo ao fim. 

Assim como aconteceu como mestres do porte de Miles Davis e Frank Zappa, Ed Motta conseguiu misturar todas suas influências em um mesmo caldeirão sonoro de maneira homogênea e coordenada, um trabalho do mais alto nível. 

O álbum é eminentemente instrumental, com Ed trabalhando seus vocalizes como se fossem um instrumento somado a musicalidade refinada do disco, que tem influencias de soul, jazz, funky, samba-jazz, rock progressivo, e até ambiências características de trilhas sonoras de filmes clássicos.

As harmonias são complexas, mas elegantes, e aqui cabe ressaltar que tal fato se deve ao fato do músico ser também um excelente compositor, pois caso fosse medíocre, os temas cairiam facilmente na autoindulgência tão comuns em discos de fusion;

O disco abre com "Um Dom pra Salvador", tema comandando por piano elétrico e baixo acústico bem marcado com um solo de sax melódico e atonal; 

"No carrão eu me Perdizes na Consolação"é a faixa seguinte e se inicia fortemente influenciado pelo rock progressivo para em seguida descambar em um samba jazz no melhor estilo zimbo trio. Destaque para o belo contraponto de flauta de Marcelo Martins durante o decorrer da canção;

Em seguida temos "Sus-tenta", composição refinada com metais comportados e um baixo elétrico com influencia de soul, cortesia do excelente Alberto Continentino. É um tema eminentemente jazzy com influência de trilha sonora de seriado setentista no melhor estilo Dallas. Os vocais em scat parecem  feitos de improviso, e são demasiadamente afiados, se sobressaindo durante todo o tema;

"Doce ilusão" é uma bossa nova com vocal e violão a la João Gilberto. Os Vocais sussurrantes do cantor são um destaque a parte. é uma composição excessivamente contemplativa e introspectiva;

O álbum segue com "Lindúria", um Jazz elétrico com Paulinho Guitarra sustentando o tema ao fundo com seu instrumento. O piano tocado por Ed tem fortes influências de João Donato e Herbie Hancock.  O Baixo sincopado segura o tema pro solo de guitarra no melhor estilo Pat Metheny.

"Valse au beurre blanc" conforme o título antecipa, é uma mini valsa comandada por cordas e clarinete com cara de trilha de filme europeu.

"Amalgasantos", tema em homenagem ao maestro Moacir Santos, possui andamento empolgante com ênfase no piano elétrico e vibrafone de Jota Moraes que se alinham perfeitamente com os scats vocais de Ed. É uma canção sincopada com boa participação do naipe de metais. O solo de vibrafone é um destaque a parte;


Em "A balada do mar salgado" temo um dueto de Ed com a vocalista Leila Maria. É um tema melancólico e arrastado, com os vocais na frente todo o tempo ladeados pôr instrumentação refinada lembrando as grandes orquestras. Solo de minimalista de trombone

A música "Coisas naturais" é a segunda e última com vocais, e o único tema de Ed feito em parceria para o disco, no caso com o cantor Ronaldo Bastos.  Temos aqui uma MPB com leve batida bossa e um pezinho no pop. A inclusão do órgão hammond comandado por Renato Fonseca foi a cereja do bolo; 

"Malumbulo" é um tema que começa denso, com baixo acustico introspectivo e sax perturbador lembrando os trabalhos de Hermeto Paschoal nos anos 70, cortesia de Teco Cardoso. O orgão hammond também se sobressai aqui. A voz de Ed permanece em segundo plano, apenas acompanhado os outros instrumentos;

Em "Madame pela Umburgo (no seu teatro dos olhos)"  Temos uma canção muito parecida com trilha sonora  de filme cult setentista, com pianos, violoncelos e fagotes a frente da canção com intensas variações climáticas

O próximo tema é mais despojado: "Cervejamento total" é um samba jazz com bateria sincopada e scats dominando o tema. Podia estar em qualquer disco do Donato.

Em "Papuera" pianos e sintetizadores voltam a ficar em evidência. É uma canção jazzística onde o baixão gordo e bem timbrado de Continentino segura firme a canção. O solo de trompete de Jessé Sadoc é um show a parte, lembrando a fase elétrica de Miles.

"Instrumetida" Encerra o álbum. Tema introspectivo, com Ed solfejando notas junto ao piano elétrico. No final, o cantor  é acompanhado por uma orquestra a la James Bond.

Não é exagero afirmar que Dwitiza foi um divisor na carreira do compositor e multi-instrumentista, que após o lançamento do álbum, passou a se enveredar por outras vertentes musicais mais finas e rebuscadas, ampliando seus horizontes e elevando seu status de compositor refinado.
Esqueça o Ed Motta de “Manuel” e “Vamos Dançar”, em Dwitiza temos um compositor maduro, rico, refinado musicalmente e exteriorizando todas suas melhores influências musicais. 


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Sobre o álbum

Dwitza

Álbum disponível na discografia de: Ed Motta

Ano: 2002

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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