Resenha

Youthanasia

Álbum de Megadeth

1994

CD/LP

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

12/08/2018



Grupo se mantém no topo com mais um trabalho clássico!

Confesso que nunca fui grande fã de thrash, mas no final dos anos 80 era praticamente impossível que um garoto gostasse de rock  e ficasse impassível a eterna briga entre Megadeth e Metallica. Na verdade este último é considerado o verdadeiro criador do estilo chamado de Thrash metal, que era caracterizado por um peso maior que o heavy metal tradicional, com guitarras velozes em afinação baixa e bateria bem na cara. O líder e "dono" do Megadeth, Dave Mustaine fazia parte do Metallica e foi posto pra fora do grupo pelos demais membros. Revoltado e jurando vingança, Mustaine criou seu próprio combo com a finalidade de superar sem antigo grupo em termos musicais e comerciais. 

Se Mustaine não conseguiu seu intento no quesito popularidade, uma vez que o Metallica é realmente o maior nome do Thrash metal mundial, pelo menos em qualidade e longevidade ele conseguiu ir além. E antes que resolvam me atirar pedras por essa declaração, fica fácil entendê-la somente olhando a carreira dos dois grupos. O Metallica tinha tudo pra continuar evoluindo em termos musicais, mas a morte precoce de seu baixista Cliff Burton em um acidente com o tour bus da banda em 1986, desestruturou completamente o grupo, que apesar de ter lançado bons trabalhos como o "Black Album" em 1990, nunca mais conseguiu repetir a qualidade de obras como "Master of Puppets" ou  "Kill em All". Na verdade a partir da década de 90 o grupo construiu uma trajetória errática e, mesmo nos dias de hoje, suas apresentações são baseadas em seus primeiros trabalhos.

Com o Megadeth aconteceu exatamente o contrário. O grupo nos anos 80 lançou bons discos, mas sofreu com a instabilidade em sua formação. Somente o guitarrista, vocalista e líder Dave Mustaine e seu companheiro, o baixista Dave Ellefson permaneciam a cada disco lançado, ocorrendo uma constante troca de guitarristas e bateristas. Tudo mudou pra melhor quando no inicio dos anos 90 o grupo abrigou em suas fileiras o guitarrista Marty Friedman e o baterista Nick Menza. Friedman era um autêntico guitar-hero, um músico de técnica invejável, a cereja do bolo que faltava para complementar as intrincadas composições do líder Mustaine. E Menza era um baterista fenomenal, capaz de atacar seus pratos e bumbos aliando velocidade e técnica na medida certa! Estava criada ali uma das melhores formações de toda a história do metal. Como se não bastasse todo o talento musical reunido, o grupo ainda possuía mais um diferencial: as letras escritas por Dave Mustaine. Ao invés de apostar em temáticas fúteis ou falar de dragões, lutas e cavaleiros medievais, o líder do Megadeth se tornava um letrista cada dia mais refinado,  sarcástico e até certo ponto depressivo, escrevendo sobre a guerra fria que assolava o mundo na época, o conflito de interesses das grandes nações e temas mais próximos do nosso dia – a – dia, como suicídio e depressão.  

Com essa formação o grupo lançou em setembro do mesmo ano o excelente "Rust in Peace" e em 1992 o atrabiliário  "Countdown to Extinction". "Youthanasia" é o terceiro álbum desta formação e muitos o consideram fraco por ser menos pesado que os anteriores. Porém, a verdade é que o disco mostra uma continuação do trabalho que essa formação genial vinha fazendo desde o inicio da década. Aqui os arranjos estão mais lapidados, e a banda consegue soar ainda mais coesa e madura. Até os vocais de Mustaine estão mais pensados e encaixados em cada canção. O Megadeth conseguiu com esse trabalho, privilegiar a melodia das canções sem descaracterizar o som feito pelo grupo. O nome do CD é um trocadilho juntando youth (juventude) com  euthanasia (eutanásia). Dave quis chamar a atenção em todo o aspecto sociológio em que estão inseridos os jovens, um conceito de que a própria sociedade  vem matando (alienando) a juventude. Um tema que apesar de escrito há 20 anos continua atualíssimo. A capa, feita pelo artista gráfico Hugh Sime, famoso por elaborar as capas dos canadenses do Rush é um obra que vem complementar diretamente toda a temática do álbum. Nela podemos visualizar uma senhora pendurando bebês em um varal que parece não ter fim. 

Quanto a sonoridade, basta ouvir a abertura  com "Recknoking Day" com seu riff absurdo para cair por terra essas alegações de que o álbum carece de peso. Claro que há algumas baladas, como "Á Tout Le Monde" com seu refrão pegajoso em francês e a quase Hard "Elysian Fields". Mas não falta peso em faixas como "Blood of Heroes" e "Victory". Além das faixas já citadas recomendo ainda "Family Tree",  em que a integração do grupo se mostra quase palpável, tamanho o seu entrosamento, e a longa  trabalhada "Addicted to Chaos".

"Youthanasia" na verdade foi uma evolução no som do grupo, uma comprovação de que peso, melodia e letras inteligentes podem conviver harmonicamente em um único petardo.

O grupo ainda lançaria com esta mesma formação, o bom "Criptic  Writings", antes de começar a modificar seu som para um lado excessivamente pop e que culminaria no lançamento do claudicante "Risk". Mas este é assunto pra um outro post...


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Sobre o álbum

Youthanasia

Álbum disponível na discografia de: Megadeth

Ano: 1994

Tipo: CD/LP

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