Resenha

The Snow Goose

Álbum de Camel

1975

CD/LP

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

21/07/2018



Rico lírico e musicalmente, "The Snow Goose" é um clássico do progressivo.

“..Esta não é uma história que segue calma e suavemente uma sequência, visto que ela foi coletada de muitas fontes e por meio de muitas pessoas. Inclusive, algumas destas vem na forma de relatos fragmentados de homens que presenciaram cenas estranhas e violentas.” Trecho do livro Snow Goose de Paul Gallico.


A aventura musical aqui relatada começa no disco anterior do grupo, “Mirage”, quando Latimer compôs “White Rider” baseado no livro Senhor do Anéis de J.R.R. Tolken. Como todos no grupo adoravam ler, o baixista Doug Ferguson  sugeriu um disco conceitual baseado em um livro. Todos adoraram a ideia, e começaram a dar sugestões de trabalhos literários que pudessem servir de inspiração para o próximo disco. Ficaram entusiasmados com “Lobo da Estepe”, sugestão de Bardens, mas quando o próprio Ferguson recomendou “Snow goose” de Paul Gallico, todos entenderam que aquele seria o livro perfeito para o projeto.

Para entender a criação desta viagem musical é necessário conhecer a obra e o autor que a inspiraram.  Galico era um escritor americano excessivamente detalhista em suas narrativas, gerando fábulas altamente belas e complexas. O livro em questão, conta a história da amizade surgida entre o recluso Rhayader  e a menina Fritha. Esta ultima encontra um Ganso ferido e pede ajuda ao eremita. A amizade nasce tendo como ponto comum o Ganso da neve.

Interessante que, mesmo tendo em mãos um livro tão rico literariamente, o grupo tenha optado por realizar um trabalho eminentemente instrumental, como se servisse de trilha sonora para a obra.

Difícil destacar faixas devido a riqueza sonora e o entrelaçamento das canções que o fazem soar como uma única música. O fato do grupo estar tocando e gravando há um bom tempo ajudou bastante no resultado final do trabalho. Andrew Latimer é um guitarrista de rock progressivo na melhor acepção da palavra, não só pela sua técnica refinada, mas pelo bom gosto com que a utiliza; Peter Bardens já possuía uma carreira solo relativamente bem sucedida antes de se juntar ao grupo, e sua experiência com teclados, moogs e moduladores de som foi essencial para criar atmosferas e camadas sonoras que remetiam ao livro que serviu de base para as inspirações musicais do quarteto; Doug Ferguson é daqueles baixistas precisos como um relógio suíço, utiliza sua técnica em favor das canções e o ouvinte sempre sente seu baixo pulsando e dando vida as canções; E Andy Ward é um baterista que apesar do toque intenso, consegue transmitir suavidade quando necessário. Seria a definição da frase “pesado, mas voa”,  dita por Jimmy Page. 

Conforme já dito, o álbum deve ser ouvido em sua totalidade para enteder a viagem musical composta pelo grupo, mas obviamente há canções que se destacaram tanto, que são executadas pela banda em todos os shows, como a dupla  “Rhayader / Rahayader Goes to Town”: A primeira  é completamente comandada por flautas tendo como base o baixo seguro e preciso de Ferguson e contando com boas inserções de piano e teclados de Bardens. A segunda parte traz a guitarra em evidência, pela primeira vez no álbum. É um tema pungente, orientado pelo instrumento de Latimer mesmo após a queda no andamento da canção. O grupo todo parece tocar em torno da guitarra, e mesmo os solos de teclados de Bardens parecem servir apenas de preludio para as guitarras de Andrew, que faz um trabalho de Gênio na construção da canção;

A faixa titulo também merece destaque. É outro tema calcado nas guitarras e com uma cozinha bem segura. “Migration” é a única faixa com vocais em todo o trabalho. Sem letra, o destaque são as vocalizações feitas por Latimer;
“Dunkirk” é outro ponto alto, onde todo o grupo se sobressai, como se fosse uma unidade sonora, mostrando o quão integrados estavam seu componentes. Merece destaque o baixo brilhante de Ferguson pulsando no peito, e o solo de Latimer ao fundo da canção;

E como ultimo destaque não poderia deixar de citar "La Princesse Perdue", penúltima faixa do álbum, inspirada no nome que Rhayader e Fritha deram para o ganso. Neste tema, Latimer e Bardens, os principais compositores da obra parecem se encontrar de maneira única e quase telepática. Um grande tema que encerra o disco de maneira brilhante, sendo sucedida apenas por um pequeno tema;
Apesar de instrumental, é inegável que o grupo consegue transmitir o conceito da história do livro através de suas nuances e riqueza sonora. Após o lançamento, o quarteto teve reconhecimento imediato de crítica e público, ganhando inclusive o prêmio de banda revelação da prestigiada revista Melody Maker. 

Ainda assim, nem tudo foram flores para o quarteto: Paul Gallico foi tomado de surpresa pelo lançamento do trabalho e, sendo um anti-tabagista ferrenho, não gostou nada da homenagem de um grupo que ele acreditava estar ligado a indústria do tabaco devido ao nome. Na ocasião, intimou o Camel a alterar o nome do disco ameaçando processá-los caso não alterassem o nome da obra.  Para resolver o entrave jurídico, os advogados da gravadora Decca Sugeriram a adição da frase “inspirado por..” e o imbróglio foi resolvido.

Lírico, complexo e rico harmônica e musicalmente, não é exagero argumentar que ‘The Snow Goose” não é só o ápice musical do Camel, mas também do estilo denominado progressivo sinfônico, predominante nos anos 70. Um verdadeiro clássico e referência quando o assunto é álbum conceitual.


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Sobre o álbum

The Snow Goose

Álbum disponível na discografia de: Camel

Ano: 1975

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,94 - 9 votos

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