Resenha

Foxtrot

Álbum de Genesis

1972

CD/LP

Por: Roberto Rillo Bíscaro

Colaborador Especialista

21/09/2017



A primeira de uma trinca de obras-primas

Formação sólida com músicos de alta qualidade e extensa agenda de shows, que permitiam muito treino. O GENESIS tinha tudo para compor seu primeiro álbum realmente grande. E o fizeram. Lançado em outubro de 1972, Foxtrot abre a tríade de obras-primas da era Gabriel. Produção impecável, intrincadas composições - abundantes de referências musicais e literárias – e Supper’s Ready, longa e variada suíte de 23 minutos, fazem de Foxtrot uma das gravações fundamentais do rock progressivo em sua vertente sinfônica.

O álbum abre com Watcher of the Skies e sua majestosa introdução organística, presente de Tony Banks. O uso do Mellotron 2 provou ser tão influente, que em versões subsequentes do teclado, a introdução de Watcher of the Skies vinha como um dos riffs embutidos. Phil Collins toca batera em uma espécie de código Morse e Mike Rutherford força o pé no pedal de seu baixo. A guitarra de Steve Hackett pontua e conduz boa parte da canção. Peter Gabriel finalmente alcança maturidade vocal e se sai com uma performance profética, que muitos tentaram imitar (em vão). Sete minutos e meio de pura viagem intergaláctica prog. A letra sci-fi pós-apocalíptica fala sobre um alienígena visitando uma Terra devastada pelo próprio homem. “Has life again destroyed life?”, pergunta-se o visitante, solitário em um planeta habitado por lagartos. A ideia para a canção foi de Banks e Rutherford, enquanto ensaiavam numa grande e deserta arena italiana. Eles imaginaram como seria se um ET visitasse um planeta Terra deserto. Um bocadinho de influência de Keats e Joyce materializaram a canção. Educação esmerada não faz mal, né?

Uma das acusações ao rock progressivo foi a “alienação”, devido à grande quantidade de letras misticóides e contofadistas. Get’em Out By Friday complica esse ataque. A letra mescla ficção-científica, tecnofobia e comentário social. Em seus mais de 8 minutos, Gabriel canta sobre inquilinos despejados pela corporação Styx Enterprises, os quais serão realocados para outros conjuntos habitacionais. A letra, composta a partir de múltiplos pontos de vista e passagem de tempo, anuncia que em 2012 o órgão intitulado Genetic Control terá reduzido a estatura da espécie humana a fim de colocar o dobro de moradores em um mesmo edifício. De arrepiar quando a voz alterada de Peter anuncia "It is my sad duty to inform you of a four foot restriction on humanoid height" para, em seguida, com outra voz e pronúncia, mudar a cena para um pub onde alguém comenta o real motivo da alteração “It's said now that people will be shorter in height/they can fit twice as many in the same building site.” Na verdade, a canção parece mais uma minipeça de teatro cantada, com grande trabalho de guitarra de Hackett e variações de tempo, conforme cada personagem fala.

Submersa sob 3 obras-primas, está Can-Utility and the Coastliners, hoje obscura, mas, uma de minhas favoritas do repertório da banda. O GENESIS volta ao século XI, pouco antes da invasão normanda à Inglaterra, revisitando a lenda do Rei Cnut, monarca viking, conquistador da Inglaterra. Diz a lenda que ele, perante a abjeta lisonja de seus súditos, ordenou que a maré parasse de subir, para provar que um rei não possuía tantos poderes como se imaginava. Vocais delicados, violões dedilhados misturam-se com um longo solo de teclado e trechos de guitarra e vocais urgentes, que conduzem ao final operático. A partir do segundo minuto, quando Banks entra com seu Mellotron, a canção vira um sonho de prog sinfônico grandiloquente.

Sanduichada entre as 2 primeiras canções, a delicada Time Table nunca teve chance de se destacar. Herdeira da época de Trespass e Nursery Cryme, a delicada alegoria medieval traz belo trabalho de piano, mas fica difícil não sentir que é filler (termo usado para designar canções que literalmente estão num álbum para “enchê-lo”).

Precedida por Horizons, vinheta de violão acústico inspirada em Bach, Supper’s Ready ocupava quase todo o lado B do vinil. Pouca dúvida resta de que seja A (maiúscula proposital) obra-prima do GENESIS. Supper’s Ready tem todos os elementos que garantem seu lugar como uma das marcas-registradas do rock progressivo. As influências musicais passam pelo folk, música concreta, clássica, vaudeville, rock. Dividida em 7 seções com nomes bizarros, trechos se repetem, voltam sob forma ligeiramente alterada em outras seções e há sucessivas modificações de andamento e ritmo. As referências da letra são tantas que ninguém jamais conseguiu realmente saber claramente do que se trata. Resumindo, pode-se dizer que é sobre a batalha do bem contra o mal, evocada pelo tom apocalíptico do final. A ceia do título pode ser aquela referida no livro do Apocalipse, capítulo 19, versículo 17: “E vi um anjo que estava no sol, e clamou com grande voz, dizendo a todas as aves que voavam pelo meio do céu: Vinde, e ajuntai-vos à ceia do grande Deus.” Há um “angel standing in the sun” na letra.
Alem disso, há a riqueza poética que passeia por William Blake, T. S. Elliot, pelo típico humor nonsense britânico (“there's Winston Churchill, dressed in drag, he used to be a British flag, plastic bag, what a drag!"), cheia de jogos de palavras (“If you go down to Willow Farm, to look for butterflies, flutterbyes, gutterflies”) e aliterações (“Six saintly shrouded men move across the lawn slowly/The seventh walks in front with a cross held high in hand”). Para deixar o passatempo das interpretações da letra ainda mais complexo e fascinante, membros da banda atestam que determinadas partes foram inspiradas por isso ou aquilo. Exemplo: Gabriel afirma que o começo da letra diz respeito a experiências que ele e sua esposa Jill tiveram com possessão mediúnica e fantasmas. Seja lá o que Supper’s Ready signifique, a habilidade de Gabriel em criar letras com poderosa força imagética é inegável.

Foxtrot colocou o GENESIS pela primeira vez no Top 20 britânico, alcançando a 12ª posição. Na Itália, o álbum saiu-se ainda melhor, cravando um oitavo lugar.


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Sobre o álbum

Foxtrot

Álbum disponível na discografia de: Genesis

Ano: 1972

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,83 - 18 votos

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