Resenha

The Man With The Horn

Álbum de Miles Davis

1981

CD/LP

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

23/06/2018



Disco que marca a volta de Miles ao cenário musical

Para curtir melhor este trabalho deve-se entender o atual momento vivido por Miles na época de sua gravação e lançamento. O trompetista havia gravado seu ultimo álbum “Water Babies” em 1976. Seu estado de saúde era deplorável, com um quadro severo de depressão, anemia e uma osteoartrite no quadril, que lhe causavam dores intensas.  O  trompetista  então se afastou do cenário musical e  passou a viver recluso em seu apartamento,  imerso em sexo e drogas, evitando qualquer contato com o mundo da música e levantando inclusive  rumores de sua morte.

As coisas começaram a melhorar em 1979, quando o músico se envolveu com a atriz Cicely Tyson, que viria a ser sua terceira esposa. Tyson ajudou Miles a se recuperar do vício das drogas e sua paixão pela musica. Embora nunca tenha parado realmente de compor, a volta de Miles ao estúdio foi dolorosa, uma vez que, sem tocar há tanto tempo, o trompetista havia perdido sua embocadura. Miles reinventou seu estilo de tocar o instrumento, adicionando inclusive alguns efeitos como o pedal de wah-wah, recurso usado eminentemente por guitarristas.

Ao retornar efetivamente ao mundo musical, Miles percebeu outro problema: quase todos os músicos que haviam tocado nas ultimas formações de sua banda haviam seguido em frente e no inicio daquela década eram estrelas do fusion, cada um com sua própria banda. Como teria que optar por um novo grupo de apoio, Davis optou por trazer jovens talentos com influências dispares, para que pudesse aproveitar o melhor de cada um. 

Sua primeira escolha foi um jovem negro magricela que além de compositor, tocava vários instrumentos e tinha fama de excelente baixista: Marcus Miller. Para a bateria  convocou Al foster, único músico que já havia tocado com Miles antes de seu  hiato musical. Sammy Figueroa, nascido no Bronx veio cuidar das percussões. Para cuidar das guitarras Miles recrutou dois músicos completamente diferentes: o jovem Mike Stern, músico bastante influenciado pelo fusion, tendo integrado dois anos antes a banda do baterista Billy Cobhan, e Barry Finnerty, guitarrista orientado pelo jazz, mas com influência de musica negra americana, mais especificamente soul e funk. O jovem Bil Evans foi convocado para cuidar dos saxofones. Embora tivesse forte influência dos grandes mestres do jazz, o sax de Evans era bem eclético, transitando com igual desenvoltura por vários estilos. Por fim, Robert Irving III foi convidado por Miles para cuidar dos pianos e teclados. Robert também era um músico bastante eclético, com forte influência do funk americano, não se prendendo apenas ao uso do piano e teclados, mas pesquisando também sintetizadores e outros instrumentos, além de ser um prolifico compositor. Esta banda entrou em estúdio em 1979 e tinha a árdua  tarefa de ajudar a trazer Miles de volta aos holofotes.

O petardo abre com “Fat Time”,  um tema em que o trompete começa a frente, com uma boa linha de baixo de Miller. A  guitarra de Stern faz um  contraponto com o baixo e  mostra que o novo grupo era competente e que Miles continuava em forma. Intervenções de sax dão um providencial descanso ao velho lobo trompetista, que  apesar de tocar de maneira diferente, continuava se mostrando genial. O tema é longo, vai crescendo aos poucos com seu groove poderoso, mostrando a banda cada vez mais coesa. A participação de Stern aumenta a medida que Miles vai aos poucos se escondendo e deixando seus novos pupilos brilharem, para então terminar a canção de forma abrupta. 

“Back Seat Betty” é o tema mais longo do disco com seus mais de 11 minutos. A canção pode causar estranheza aos fãs mais ortodoxos do trompetista, pois começa de maneira eminentemente rockeira, tendo a  guitarra  de Finnerty a frente de um batida pesada. Somente após alguns minutos, as notas esparsas do trompete do líder acalmam o tema e preparam terreno para o baixo malemolente de Miller brilhar. Miles flui no tema com uma maciez inebriante, passeando pela canção com seu trompete como se estivesse construindo a música naquele momento. Na verdade, o trompete é o fio condutor de toda  a canção, que alterna momentos calmos com outros mais nervosos, onde Barry demonstra todo seu amor pela distorção. 

“Shout” é a primeira grande surpresa do disco, uma canção completamente diferente, onde Miles é acompanhado por outros músicos, como o baixista Felton Crews, o baterista Vicent Wilburn  e o guitarrista  e tecladista Randy Hall, mantendo apenas o tecladista Irwin. É basicamente um tema soul, com guitarra swingada no início da canção, com participação maior de metais contrastando com o groove de guitarra e baixo. A bateria possui linhas harmonicamente simples, sem a complexidade do jazz. Parece um tema composto por Isaac Hayes, exceto pela participação de Miles e seu genial trompete comandando a temática da musica. É o tema mais curto do álbum, alegre e cativante, mas que destoa do álbum e dos trabalhos anteriores do músico.

O álbum volta a sua temática com “Aida”, uma canção com fortes percussões e a guitarra ritmada, onde Sammy consegue se colocar em evidência. São quase oito minutos de puro improviso, onde Miles sola a vontade, acompanhado do sax de Evans, que faz um maravilhoso contraponto com as incursões sonoras do líder. A canção vai aos poucos, diminuindo o volume até desaparecer, mas a impressão que fica é que o tema tinha potencial para se desenvolver ainda mais.

A faixa título é outro tema gravado pelos mesmos músicos de “Shout”, é mais uma  canção com influência de soul. Lenta, tranquila e com um pezinho no pop, tem como base a voz aveludada de  Hall  à frente da canção. O ponto alto da canção é o solo de trompete de Davis, que se mostra genial em qualquer  ritmo ou estilo musical.

O disco termina com “Ursula”, um tema jazzístico e elegante, em que  Miles Davis permanece a frente da canção, e mostra que não perdeu o talento para compor músicas no estilo que o consagrou.

Lançado em julho de 1981, o disco não recebeu boas criticas, talvez pelo fato de possuir canções diferentes do que estavam acostumados a esperar de Miles. Mesmo assim, “The Man With The Horn”, é um grande trabalho que marca a volta do trompetista ao mundo da música, preparando-o para buscar novas sonoridades e alçar vôos mais altos, lançando alguns clássicos nos anos seguintes.


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Sobre o álbum

The Man With The Horn

Álbum disponível na discografia de: Miles Davis

Ano: 1981

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,5 - 1 voto

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