Resenha

Closer

Álbum de Joy Division

1980

CD/LP

Por: Tarcisio Lucas

Colaborador

15/06/2018



O lado sombrio da música dos anos 80

Antes de tudo, é preciso dizer que esse álbum é de fato, um dos grandes marcos da música nos anos 80. Algumas das melhores músicas do famoso post-punk, ou gothic rock, estão presentes nesse disco.
Tendo dito isso, um fato inegável e impressionante precisa ser esclarecido: Como um conjunto de pessoas que estavam longe de serem grandes instrumentistas (na época), acompanhados por um vocalista que cantava a maior parte das músicas fora do tom,  conseguiram criar uma obra tão significativa?
A resposta é: com emoção. O álbum transborda emoção. O instrumental, ainda que longe de virtuoso, soube traduzir o clima de claustrofobia e angústia de que tratam as letras.
O vocal de Ian Curtis - na época com pouco mais de 23 anos de idade - soava como a de um homem de 90, grave, sorumbático e fúnebre.

A produção do álbum, que na época causou profundo desgosto em praticamente todos os músicos da banda, em especial do guitarrista Bernard Samner, que julgou ver seus riffs transformados em massas sonoras de reverbs e delays, provou, com o passar do tempo, ser a produção que a banda precisava; qualquer coisa mais "limpa" ou menos cavernosa seria totalmente incapaz de captar a essência da banda.
Cada parte do som do grupo aqui tem seu papel especial. Ian Curtis emprestou sua voz, que já entregava os problemas internos pelo qual passava o músico,  que cometeu suicídio poucas semanas antes do lançamento do disco. Em entrevistas concedidas ao longo da carreira, os outros músicos do conjunto disseram que na época da gravação havia pouquíssimas conversas a respeito do teor das letras. Mas uma análise agora, à luz do suicídio do vocalista, é possível perceber claramente que ali estava estampado, ou melhor, escancarado, o turbilhão de sentimentos pelo qual Curtis atravessava.
A bateria flutua entre ritmos quase militares de tão precisos e sem variação, como nas músicas "Isolation", "The Eternal" e "Passover" e ritmos tribais e frenéticos, repetitivos e quase hipnóticos, como em "Atrocity Exhibition", "Colony" e "Heart and soul".
A banda nunca definiu seu som, e visualmente eles não pareciam e nem se identificavam com nenhum gênero especificamente. As origens do grupo, quando a banda ainda se chamava Warsaw, eram claramente punks. 
Mas a verdade é que não dá para ser mais gótico do que isso aqui, sonoramente e liricamente falando.
E aqui temos resquícios de uma época em que até as lamentações traziam conteúdo; profundo conhecedor de literatura, é possível encontrar nas letras referências claras à autores como à Sartre, Kafka, Nietsche, Herman Hesse e Dostoievsky.
"Closer" é uma pedra de gelo. Não há esperança aqui, mas sim amargura, e raiva, muita raiva.
O álbum é uma sequência linear e lógica do anterior "Unknown Pleasures", mas com tudo potencializado.
Os músicos que sobreviveram ao som depressivo da banda formaram posteriormente o New Order, que começou meio melancólico, mas depois foi descobrindo a própria identidade, e alcançaram fama e sucesso mundiais.
Mas mesmo com uma trajetória tão curta, a influência musical que o Joy Division exerceu e ainda exerce é imensa. Toda a onda Post punk Revival que presenciamos desde o inicio dos anos 2000 repousa na banda.
Grupos como The Editors, Interpol (esses 2 quase chegam a ser cópias descaradas, especialmente em seus primeiros discos), The National, Franz Ferdinand e similares bebem imensamente da fonte do Joy Division.
Como dito no início dessa resenha, os músicos eram precários, a voz oscilava entre afinação e desafinação...mas tudo isso some dentro das composições, como se elas ganhassem vida própria.

No caso improvável de você estar lendo essa resenha e não conhecer o som da banda, tenha em mente que em uma loja de Cds - Ainda existe alguma? - os cds do Joy Division estariam lado a lado com cds de bandas como Bauhaus, the Cure, Sisters os Mercy, Young Gods, Fields of Nephilim e similares.


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Sobre o álbum

Closer

Álbum disponível na discografia de: Joy Division

Ano: 1980

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,4 - 5 votos

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