Resenha

Holidays In Eden

Álbum de Marillion

1991

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

02/08/2022



Releve um pouco o excesso de açúcar e aposto que vai curtir o barato!

Este provavelmente é o disco pós Fish que realmente deixou os fãs tradicionais do Marillion de cabelo em pé. Com produção de Chris Neil, um homem vocacionado para a música pop, “Holidays In Eden” agradou bastante a gravadora, cuja obsessão por singles radiofônicos colocava uma pressão considerável sobre os ombros da banda. 

É bem verdade que o disco funcionou à época como um teste para Steve Hogarth, que a partir dali assumia o posto de vocalista e letrista principal, e H, inclusive, começava a trabalhar sem a ajuda integral e luxuosa de John Helmer. Apesar de considerar este trabalho um pouco irregular, não posso deixar de apreciá-lo. E até mesmo em seus momentos mais sutis e açucarados, regozijo como fã retardado. 

O primeiro grande tema desta revisão não pode ser outro senão o caráter flagrantemente comercial que o álbum teve. Como dito antes, ficava claro que a gravadora queria que a banda parisse hits de qualquer maneira, além de explorar a bela fotografia de Hogarth no papel de frontman galã. 

"No One Can" e "Cover My Eyes (Pain And Heaven)" são dois ótimos exemplos dessas flechas lançadas na direção do sucesso comercial. No caso de "No One Can", é preciso ressaltar que tenho uma história especial com ela, e, embora reconheça o seu apelo radiofônico e melosidade, esta é uma música que marcou a reconciliação com a minha mulher. O que me levou na ocasião, mesmo arriscando ser chamado de piegas e ridículo, a fazer um CD e um versinho autoral desbotado, tendo “No One Can” como fundo musical. Mas como dizia o filósofo Nietzsche: tudo que é feito por amor está acima do bem e do mal. 

Na verdade, as letras desta balada adocicada e meio clichê do Marillion falam coisas que não posso ignorar sobre o meu relacionamento. A história de um homem maduro, já cansado da vida boêmia e da curtição, e que precisava de um abrigo seguro, um pouco de amor e estabilidade. Quiçá um café quente ao final do dia com uma parceira para dividir os problemas e poder dar risadas juntos das bobagens ditas.  

Quando uma música fala algo pra gente ou marca um momento importante, a crítica racional e fria (pautada nos aspectos instrumentais, técnicos, etc.) fica completamente esquecida, pois passamos a enxergar tal música como uma parte de nossa história, uma espécie de diamante indestrutível. E não importa que digam o contrário ou que nos queiram convencer da nossa imbecilidade. A arte, inequivocamente, tem a capacidade de captar momentos especiais e torná-los eternos em nossas lembranças.  
 
"Cover My Eyes" é outra faixa que faz muito a minha cabeça, carrega uma solidez notável e proporciona aqueles instantes bombásticos que funcionam muito bem nas execuções ao vivo. Hogarth arrasa aqui. É pop? Sim, sem sombra de dúvida, mas qual o problema? Lembra aquelas investidas terrivelmente rock de arena do U2. Dá pra se divertir! Quem não gosta que vá ouvir hard rock farofa à la Motley Crue e cia. 

O restante das músicas situa-se dentro daquilo que o fã da banda estava mais acostumado: algumas letras reflexivas, densas e instigantes; ritmos poderosos impulsionados pela competente cozinha de Mosley e Trewavas; com Mark Kelly fabricando climas adequados e sem exageros; e, obviamente, a guitarra incisiva e às vezes gilmouriana de um dos músicos mais subestimados do rock, o excelente Steve Rothery. 

Há faixas muitos legais, a exemplo da peça de abertura "Splintering Heat", cuja pulsação e os vocais atônitos de Hogarth aumentam gradualmente até que a banda explode nas cordas de Rothery e nas baquetas de Mosley conduzindo-a em compasso coordenado. Ou mesmo "The Party", com seu começo melancólico e suas letras girando em torno de uma noite em que uma estudante vai a uma festa de colegas de classe apenas para ser testemunha de uma overdose sensorial de música, experimentação de drogas, e também para descobrir que ela realmente não conhecia essas pessoas. Rothery oferece nesta mais um de seus solos explosivos. 

A faixa título não me empolga muito, fraca demais para carregar essa responsa. "Dry Land", por seu turno, é outro momento mais radiofônico onde suavidade e charme caminham lado a lado. Os vocais de Hogarth entregam os conhecidos instantes emocionais, e, conquanto seja lugar conhecido pra qualquer um que aprecie a banda, não deixa de ser incrivelmente aprazível. Em "Waiting To Happen" Hogarth aparece mais contido, apesar de arriscar eventualmente notas altas em contraste com uma guitarra de timbres acústicos. Devo dizer que não prestava muito atenção nesta faixa, mas temos aqui uma peça bastante honesta. 

"This Town" é um rock supreendentemente enérgico e acaba se misturando com a curtinha "The Rakes Progress", um interlúdio predominantemente vocal com os instrumentos ao fundo até entrar abruptamente em "100 Nights", uma melodia atmosférica construída em dedilhado por Rothery e estilhaçada pelo próprio em um solo vigoroso.

Alguns consideram “Holidays In Eden” um deslize antes dos caras acertarem a mão e produzirem aquela que talvez tenha sido a obra-prima da Era Hogarth, o magnífico “Brave”. Eu prefiro pensar que neste disco podem ser encontradas passagens incríveis e outras sem as quais eu poderia viver tranquilamente. Caso sirva de consolo, vale lembrar que nenhuma coletânea da banda pode deixar de fora algumas das faixas deste álbum. Pra ser mais objetivo respondo à questão fundamental: vale a pena? Com certeza.


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4 comentários:

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André Luiz Paiz 02/08/2022

Webmaster

02/08/2022

Boa Expedito. Não é da fase Fish, não é prog, mas é muito bem feito.

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Expedito Santana 02/08/2022

Colaborador

02/08/2022

Sim, André. Como eu disse no texto, o disco tem algumas faixas muito boas, mas tá bem longe do progressivo, sem dúvidas. Obrigado, brother. Um abração!

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Tiago Meneses 02/08/2022

Colaborador Top Notch

02/08/2022

Acho que nem todo o álbum funciona bem, mas possui sim bons momentos e que não devem ser ignorados. Por não ser um disco de fácil amor a primeira audição, sempre é bom dar uma nova chance para entender melhor a proposta.

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Expedito Santana 02/08/2022

Colaborador

02/08/2022

Com certeza, Tiago. Quantas boas faixas às vezes ficam escondidas numa obra irregular?

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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Holidays In Eden

Álbum disponível na discografia de: Marillion

Ano: 1991

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,92 - 6 votos

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