Resenha

Blood On The Tracks

Álbum de Bob Dylan

1974

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

28/07/2022



Um épico sobre relacionamentos, separação e amor!

Em “Planet Waves” (1974), lançado um ano antes de “Blood on The Tracks”, Dylan chegou perto da perfeição, parecia um prenúncio daquilo que seria alcançado com esse disco. O tipo de dor que Dylan canta aqui é o que o aproxima de todo ser vivente e o que faz dessa obra uma experiência melancólica e calorosa ao mesmo tempo. Aquele paradoxo afetivo da vida a dois que não cansa de nos intrigar: a aflição e o prazer; a partida e o retorno; a impossibilidade e o desejo; a conquista e o fracasso amoroso...Tudo construído a partir de uma ambiência simbólica, acolhedora e marcante. 

Em meio às suas ruínas emocionais, Dylan consegue ser surpreendentemente acalentador em “Blood on the Tracks”. E ainda que se tratasse de uma peça meramente instrumental, a riqueza lírica implícita do álbum iria transbordar inevitavelmente das notas de uma “Tangled Up in Blue”, por exemplo, fazendo o coração percorrer todos os caminhos torturantes até se encontrar em seus próprios recônditos, sozinho e reflexivo, como se flutuasse entorpecido num rio caudaloso de solidão ou ardesse imune nas chamas do inferno incolor do abandono.  

Imaginar um ser sofrido, mas até certo ponto confortado em seu mundo interior, talvez seja uma das melhores metáforas para “Blood on the Tracks”. A verdade é que Dylan nos transporta para uma experiência hipnótica e sutil onde as palavras e os significados vão sendo construídos sem pressa, abrindo aos poucos o espaço para uma imersão cada vez mais profunda, até que nos vejamos presos numa fantástica floresta de percepções, sonhos, idealizações, incredulidade, lamentações e resignação. 

Ter ajudado a produzir este álbum ainda é algo que nos faz indagar o que ele teria sido se Dylan não tivesse assumido as rédeas. Ele regravou muitas canções, pois considerou que não estavam legais. Foi bom? Ruim? A essa altura é melhor suspender tal questionamento ou reduzi-lo à constatação dos fatos: o disco é o que é, e ficou tudo perfeito (ao menos na minha humilde opinião). 

Mas deixando de lado conjecturas um tanto inúteis e voltando ao álbum, aqui as confissões de Dylan vão surgindo sorrateiras, em delicadas doses é bom que se diga, mas sem qualquer apelo piegas. Quando as notas de “Tangled Up in Blue” aparecem são necessários apenas poucos segundos para captar a densidade equilibrada e a narrativa cadenciada que Dylan é capaz de criar. Ficando no ar a sensação de haver entrado num conto de intimidade que mistura o sentimental e o factual esboçados em cordas acústicas suaves e intensas ao mesmo tempo. 

Uma abertura ao melhor estilo do trovador: inesquecível! O fato é que o casamento de Dylan havia terminado, e é disto que “Tangled Up in Blue” trata, porém, com uma ternura que salta aos olhos: “(...) Mas em todo esse tempo que estive só / O passado estava logo atrás / Vi muitas mulheres / Mas ela nunca me escapou da mente / E eu apenas cresci / Envolto em tristeza (...)”  

O lamento de “Simple Twist Of Fate” assemelha-se a um choro contido, nos levando a refletir como o tempo pode escorrer pelos dedos e ser cruel em toda a inexorabilidade que carrega, trazendo o fim e arrancando-nos do passado vorazmente e sem um pingo de piedade sequer. Senão vejamos: “(...) Ele acordou, o quarto estava vazio / Ele não a viu em lugar nenhum / Ele disse a si mesmo que não se importava, abriu totalmente a janela / Sentiu um vazio por dentro com o qual simplesmente não conseguia se relacionar / Trazido por uma simples reviravolta do destino (...)”. 

Cabe a “You’re A Big Girl Now”, outra faixa espetacular, completar o serviço numa espécie de flagelo até que as lágrimas jorrem (...Oh, singing just for you / I hope that you can hear / Hear me singing through these tears). Restando a um refrão vigoroso e magnífico reconhecer a vastidão: “(...) Oh, in somebody's room / It's a price I have to pay / You're a big girl all the way (...)” 

Em “Idiot Wind” há espaço para caçoar a própria miséria, as idas e vindas do amor e, ainda, derramar um evidente rancor: “(...) Não consigo mais te sentir, não consigo sequer tocar nos livros que você leu / Cada vez que eu rastejo pela sua porta, eu gostaria de ser outra pessoa. / Pela rodovia, pelo trilho do trem, descendo a estrada para o êxtase / Eu lhe segui debaixo das estrelas, assombrado pela sua memória / E sua glória furiosa (...)”. 

Enquanto as cordas balançantes de “You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go” cativam num piscar de olhos, como se James Taylor ganhasse generosas pitadas de sal; “Meet Me in the Morning” aposta num blues instigante e recheado de alguns efeitos. 

Avançando um pouco surge o country acelerado de "Lily, Rosemary and the Jack of Hearts”, uma música meio analgésica e incrivelmente longa, mas que não cansa em nenhum dos seus cerca de nove minutos; e a cinzenta “If You See Her, Say Hello”, empoeirando a estrada com uma letra preocupada em apresentar soluções para o aniquilamento causado pelo término (...E nunca me acostumei com isso / Só aprendi a desligar o sentimento / Ou estou sensível demais / Ou estou amolecendo...). A batida folk idiossincrática de “Shelter From the Storm” e a serenidade dos arpejos de “Buckets Of Rain” fecham a jornada compassiva.

“Blood on the Tracks” é algo inoxidável, onde o blues e o folk aparecem diluídos em porções por vezes homeopáticas, proporcionando uma confissão melancólica e libertadora repleta de pequenos diamantes lapidados com esmero pela sensibilidade de um artista que nunca entrega menos que a própria alma.



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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Blood On The Tracks

Álbum disponível na discografia de: Bob Dylan

Ano: 1974

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,75 - 2 votos

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