Resenha

Desire

Álbum de Bob Dylan

1975

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

23/07/2022



Explorando novas sonoridades para além do folk, rock, country e blues

A proximidade de “Desire” com o clássico “Blood On The Tracks”, lançado em 1975, creio que tenha ofuscado um pouco o brilho dessa pérola genuína gestada no ano em que nasci, 1976. Mesmo havendo criado um disco irrepreensível em “Blood...”, Dylan jamais foi um artista que permitiu-se ceder ao desejo de andar por trilha segura. Aqui o bardo procurar expandir as suas fronteiras criativas e mergulhar em novas sonoridades para além do folk, country, rock e blues, ainda que tal empreitada parecesse arriscada para alguém que havia encontrado, digamos, a fórmula do sucesso.  
 
As novidades deste álbum começam pelas composições, pois foi a primeira vez que Dylan lançava mão de uma parceria. Jacques Levy acrescentou tons teatrais e até mesmo cinematográficos às letras de Dylan, que embora já fosse conhecido por sua riqueza lírica, auferiu com a companhia inédita um acréscimo de qualidade notável, deixando seu texto com matizes ainda mais literários e descritivos. 

A participação da violonista Scarlet Rivera, reza a lenda encontrada casualmente por Dylan nas ruas de Nova York e convidada de “supetão” para gravar o disco, talvez tenha sido um dos maiores diferenciais desse trabalho. Rivera confere um charme cigano à sonoridade de Dylan, fazendo desta obra um dos discos mais genuínos de toda discografia dylanesca. Sem falar nos vocais de apoio de EmmyLou Harris, que precisou ser bastante intuitiva e observar os movimentos da boca de Dylan, conseguindo cantar de um jeito muito especial, às vezes até parecendo não acompanhar o ritmo que Dylan imprimia. E, por fim, Rob Stoner está muito bem no baixo, colaborando também nos vocais. Outra curiosidade que torna “Desire” peculiar até o dedão do pé foram as gravações, feitas em incríveis quatro dias e sem muito ensaio, levando os músicos a ter que criar um quase clima de ensaio, algo mais orgânico e que deu ao trabalho um aspecto sui generis em comparação com outros exemplares do acervo discográfico de Dylan. 

Um disco que ejeta “Hurricane” na abertura não poderia ser menos que excelente, uma canção longa que aborda a temática do racismo envolvendo o lutador Rubin Carter, preso e condenado injustamente. Cantada de maneira teatral por Dylan e florida pelos violinos ciganos inesquecíveis de Scarlet, esta música é simplesmente sensacional, um verdadeiro arrasa-quarteirão que, conquanto integre o rol de libelos de protestos de Dylan, tem uma natureza bem alto astral. Quer afastar a preguiça e botar um sorriso no rosto? Coloque Hurricane pra rodar no último volume e confie nesse que vos escreve. Adoro o trecho em que Dylan entoa: “(...) But one time he could'a been / The champion of the world (...)”. Dizem que o trovador até exagerou nessa passagem, que Carter estava em grande forma, mas ser campeão era outros quinhentos. Ahh..., vá lá, quem disse que liberdade poética não permite um pouquinho de floreio e distanciamento dos fatos??

“Isis” é outra música adorável e altiva, colorida por uma gaita onipresente. “Mozambique” também não fica por baixo e deixa o clima lá em cima (vá perdoando o trocadilho infame). Destaque mais uma vez para o violino de Scarlet, que faz um fundo belíssimo enquanto Dylan canta como nunca. A propósito, a voz do bardo neste álbum está mais aberta, limpa e melódica. Arrisco a dizer que é uma das suas melhores performances vocais.  

Quando o céu parece estar ensolarado e sem nuvens, aparece “One More Cup Of Coffee”, uma peça maravilhosa e tristonha para arrancar lágrimas até dos marmanjos. A harmonia vocal de Dylan e EmmyLou é algo que não consigo explicar, parecem cantar separados, mas fica lindo pra cacete!! A bateria de Howard Wyeth é simplesmente hipnótica. “Oh, Sister” trafega pela mesma estrada que ““One More Cup Of Coffee”, dando ao álbum mais um momento melódico e introspectivo. Em “Joey” Dylan conta a história de um personagem polêmico, uma espécie de gangster, diria. Sinto Dylan um pouco leniente e encantado com sua criação. Nesse ponto o disco consolida o instrumental num estágio meloso e tocante, que encontra na reta final continuidade em “Romance in Durango”, que ganhou uma versão meio brega do nosso Fagner intitulada “Romance no Deserto”. Apesar de respeitar muito o cearense e até, às vezes, chorar copiosamente ouvindo “Canteiros”, recomendo não tentar comparar com a original porque é covardia. 

A alegria pueril volta repentinamente nas asas de “Black Diamond Bay” e a bateria dá um ritmo de country acelerado até chegar ao fechamento memorável feito por “Sara”, uma declaração cortante do bardo à sua digníssima mulher na época, cujo refrão chiclete ecoa aos quatro ventos e derrete o coração de qualquer um(a). “(...) Sara, Sara / O que foi que fez você mudar sua mente? / Sara, Sara /Tão fácil de contemplar, tão difícil de definir/ (...) Sara, Sara, / Belo anjo virgem, doce amor da minha vida / Sara, Sara, / Joia radiante, mística esposa (...)”. Precisa dizer algo mais??!!!

“Desire” é uma obra difícil de definir estilisticamente (eu chamo de música boa) e foi um dos maiores êxitos comerciais de Dylan, vendeu que nem água (lembro de muita gente que tinha esse disco em casa). Em 2003 foi incluído na lista da revista Rolling Stone no nº 174 dos 500 Melhores Álbuns de Todos os Tempos, além de ter ajudado a popularizar a música do trovador mundo afora, inclusive aqui no Brasil. Em verdade, tornar-se-ia mais uma daquelas provas incontestes do quão prolífico e genial Mr. Bob Dylan consegue ser quando faz só um pouquinho de esforço. Vida longa ao filho da mãe!!


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2 comentários:

user

André Luiz Paiz 23/07/2022

Webmaster

23/07/2022

Mais uma ótima lembrança. Estou adorando que está resenhando os álbuns do Dylan, amigo Expedito. Adoro este disco.

user

Expedito Santana 23/07/2022

Colaborador

23/07/2022

Também gosto pra caralho desse disco de Dylan. Pois é!! Estou pagando uma dívida com o trovador aqui no 80 Minutos.....kkkk. Afinal de contas, ele merece. Um abraço, brother!

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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Desire

Álbum disponível na discografia de: Bob Dylan

Ano: 1975

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,75 - 2 votos

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