Resenha

Closure/Continuation

Álbum de Porcupine Tree

2022

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

27/06/2022



Algumas composições decentes, mas sem apresentar nada de novo

Após um longo hiato de 12 anos, a Porcupine Tree retorna com seu novel trabalho cercado de muitas expectativas por parte dos fãs e do ouvinte de prog em geral. Liderada pelo multi-instrumentista e produtor Steven Wilson, a Porcupine já ganhou, inclusive, uma espécie de alcunha de “embaixadores” do rock progressivo moderno. Lançado em 24 de junho de 2022, “Closure / Continuation” é o décimo primeiro álbum da banda. Os caras começaram a carreira fazendo um som claramente inspirado na psicodelia do Pink Floyd, produzindo trabalhos de rock progressivo que ora flertavam com a ambient music ora com o metal. Destaco “Up the Downstair” e “The Sky Moves Sideways”, sendo este último a magnum opus na minha opinião. Com o passar dos anos, acabaram incorporando tonalidades pop alternativas à sonoridade, expressas principalmente no excelente “In Absentia”, de 2002.  

Há uma pergunta fundamental a ser feita antes de continuar a análise e cuja resposta pode mudar completamente a avaliação sobre este álbum: o que o ouvinte espera realmente deste trabalho (coisas novas ou mais do mesmo)? Se a resposta for “mais do mesmo”, garanto que o admirador da banda alcançará o seu tão aguardado regozijo. Mas se, por acaso, espera algo diferente, tais como inovações sonoras, flertes com outros estilos..., sinto dizer que este registro será decepcionante neste quesito.   

A verdade é que Closure/Continuation está situado no território de “Deadwing” (2005) e “Fear of a Blank Planet” (2007), mas carecendo daquelas interessantes passagens eletrônicas de “The Incident” (2009). Nesse sentido, o disco reforça de fato a sensação de retorno fiel ao som trivial da banda, sem falar que algumas músicas remetem, até mesmo, aos trabalhos solo de Wilson, notadamente “Hand Cannot Erase”.  

É bom que se diga, no entanto, que se está diante de um bom álbum, que consegue recortar alguns daqueles matizes exitosos do início da trajetória da banda e os cola aqui com maestria. Não sendo novidade para aquele que acompanha os ingleses a capacidade fora do comum de Wilson, o qual já afirmei aqui no 80 Minutos em outras análises ser um cara que beira a genialidade em determinados momentos, quer seja pela versatilidade instrumental quer seja pela mente criativa e inquieta que possui.   

Desta forma, indubitavelmente, há aspectos positivos a serem abordados sobre este disco, os quais superam, no saldo final, os seus eventuais deslizes e a notória ausência de frescor. Talvez o maior problema com Closure/Continuation para quem espera novidades seja constatar que há nele uma espécie de revivals de tudo aquilo que a banda já fez, mas com menos refino e inspiração. E nesse ponto, portanto, ao olhar retrospectivamente e constatar a abundante criatividade discográfica da Porcupine Tree, pode ser que o efeito comparação leve à conclusão de que álbuns da estirpe de “Signify” (1996) e “Stupid Dream” (1999), por exemplo, eram bem mais peculiares, atraentes e vivazes que este. 

E, de certa forma, mesmo quando cotejado com os demais álbuns lançados na década de 90, pode-se dizer que Closure/Continuation possui uma carga emocional menos tocante e conteúdo lírico mais pobre. O que não deixa de ser muito estranho, até porque os álbuns solo de Wilson têm letras e conceitos maravilhosos. A propósito, para quem está em busca de boas novas, a carreira solo de Wilson está se mostrando um tanto mais viçosa e imaginativa que a Porcupine Tree, vide o seu último disco “The Future Bites” (2021), já resenhado por mim aqui no site.

Interpreto que o conceito de “Closure/Continuation” está ligado a uma dualidade necessária, assim como às circunstâncias da própria vida, ou seja, muitas vezes não há certeza sobre a continuidade ou encerramento. O que também pode ser inferido em relação à carreira da própria banda. 

Voltando ao instrumental, entendo que um dos problemas deste álbum não é apenas a falta de diversidade estilística, o fato é que algumas músicas carecem de arranjos e estrutura mais dinâmica. É quase como se fossem sobras incompletas de vários discos que foram trabalhadas e incluídas neste disco com o intuito de pode ter um lançamento em 2022 para chamar de seu. Não há profundidade e nem camadas progressivas tão bem acabadas aqui. As canções, principalmente as mais longas, não te pegam completamente e quando há um ou outro momento mais empolgante ele logo se esvai e a gente fica com água na boca. 

De positivo, não se pode esquecer que o trio de músicos está acima de qualquer suspeita, entregando como sempre canções executadas com extrema técnica. Steven Wilson (líder, vocal, guitarra, baixo e mixagem), Richard Barbieri (teclados e sintetizadores) e Gavin Harrison (bateria) são verdadeiras lendas em seus respectivos instrumentos. As guitarras de Steven são surpreendentemente pesadas às vezes, e suas linhas de baixo também são envolventes. Richard é mais forte nos momentos mais suaves com suas conexões encantadoras e preenchimentos sob medida; e, claro, Gavin para mim é um dos melhores bateristas da atualidade no rock progressivo. Assim, ninguém poderá reclamar das performances dos três neste disco. Ademais, a mixagem de Wilson também é outro destaque, mostrando-se absolutamente irrepreensível. Quando digo que ele é o cara não estou exagerando. E, por fim, o ouvinte vai encontrar aqui algumas boas composições que lembram as melhores fases da banda, perpetradas por aquele rock progressivo denso, moderno, eventualmente pesado, melódico e climático de outrora. 

Falando das músicas propriamente ditas, o lado A (na versão vinil, óbvio) me agradou mais que a segunda parte. A abertura com “Harridan”, uma das melhores, é bem promissora. Linha de baixo proeminente e o clima clássico de mistério/tensão característico da banda. Mudanças de andamento bem magnéticas, guitarras nervosas e alguns labirintos instrumentais desafiadores. 

A suavidade de "Of the New Day" entra logo em seguida, uma balada legal ao estilo “Pariah”, mas onde faz muita falta uma Ninet Tayeb. “Rats Return” é outra faixa excelente, repleta de riffs fortes e intimidadores, lembra uma trilha sonora de filme de terror/suspense. Há algo de sombrio nela que me faz lembrar do álbum “Grace for Drowning” de Wilson. Também me agradou muito as paisagens melódicas de "Dignity", cujos oito minutos e pouco de duração poderiam até ser encurtados para deixar a canção mais enxuta. 

Já "Herd Culling", que inicia a segunda parte, mostra-se um tanto cansativa, ficando a impressão de que a banda se perdeu um pouco. Outro detalhe que incomoda são os vocais de Steven, uma vez que insistem demais numa passagem modorrenta e repetitiva. “Walk the Plank” aposta numa proeminência vocal de Wilson e do baixo que não dão muito certo, enquanto "Chimera's Wreck" se apresenta longa demais e pouco convincente. Esta faixa aposta numa melodia rasa e que não viceja com o decorrer do tempo, melhora apenas na segunda parte quando fica mais pesada e incisiva puxada pelo baixo e bateria, com a guitarra de Wilson solando de forma espetacular e descendo os riffs sem dó e nem piedade.   

Uma grata surpresa a essa altura do campeonato, por incrível que pareça, são as três faixas bônus da versão deluxe, que acabaram melhorando a minha avaliação sobre o disco. “Population Three” é uma faixa instrumental intrincada, repleta de bons riffs de guitarra, ótima participação da bateria de Gavin e um andamento cativante. “Never Have” tem uma beleza melódica que lembra tanto a carreira solo de Wilson quanto seu outro projeto, o Blackfield, principalmente por conta das passagens abrasivas da guitarra intermediadas por sessões suaves capitaneadas pelos teclados de Barbieri. E “Love In The Past Tense” por sua vez roda o velho Porcupine Tree em seu senso melódico singular, numa canção que traz luz, paz e serenidade. 

Como fã da banda devo dizer que esperava mais desta volta ao estúdio, sendo que as faixas longas e mais progressivas talvez tenham sido as maiores decepções neste lançamento. A impressão que tenho após as seis audições que fiz para produzir esta análise é que este será um trabalho que não terei vontade de ouvir a todo momento, embora, provavelmente, não ficará esquecido e decerto não será nenhuma mácula na carreira vitoriosa do grupo. Porém, acredito que jamais será considerado um álbum clássico ou mesmo essencial na discografia Porcupine. Às vezes, parece que a ansiedade para dar algo novo ao fã pode fazer com que uma banda nem sempre consiga enxergar que ainda não reúne as condições ideais criativas para concluir um trabalho minimamente substantivo e relevante, mas mesmo assim force a barra. Acho que foi o caso aqui! 


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2 comentários:

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Márcio Chagas 28/06/2022

Colaborador Sênior

28/06/2022

Excelente resenha Expedito. Confesso que ainda não ouvi o álbum com a tranquilidade que deveria, mas tive as mesmas impressões que você. E realmente senti falta do baixo fretless do Colin Edwin. Por mais que Steve seja um excelente músico ele não é baixista. E após a saida de Chris Maitland, o Porcupine nunca mais apresentou aquela sutileza caracteristica.

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Expedito Santana 28/06/2022

Colaborador

28/06/2022

Valeu, Márcio. Concordo contigo em gênero, número e grau. Wilson é um ótimo instrumentista, mas ele não pode prescindir de outros músicos especialistas. Um abraço!!

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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Closure/Continuation

Álbum disponível na discografia de: Porcupine Tree

Ano: 2022

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,25 - 2 votos

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