Resenha

Wish

Álbum de The Cure

1992

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

23/06/2022



Excelente mosaico de notáveis alternâncias de humor (pop alegrinho, rock básico, melancolia...)

Ser o sucessor de uma obra prima dark do calibre de "Disintegration" não foi uma tarefa fácil para “Wish”, que assim como “The Head On The Door”, apresenta um mosaico de cores do Cure, indo magistralmente do otimismo juvenil à tristeza angustiante com uma fluidez que só Robert Smith e sua trupe conseguem fazer.  

Em “Wish” o Cure alcançou o seu maior sucesso comercial, e logo na estreia figurou em primeiro lugar no Reino Unido e no número dois na Billboard 200 dos Estados Unidos, onde vendeu mais de 1,2 milhões de cópias.

Aqui tem pra todos os gostos: um pouco de baladas pueris açucaradas na medida certa, o gótico inglês em sua plenitude, o pop embalado pra consumo imediato, aquelas doses de psicodelia estampadas em “The Top” e o rock and roll mais direto e franco.  

Sob a liderança habitual e sempre competente de Robert Smith, "Wish" se transformou num sucesso bombástico que cravou o nome da banda definitivamente no mainstream, arrebanhando fãs fervorosos inclusive aqui no Brasil, onde a grande popularidade da banda pode ser explicada principalmente pelos shows antológicos que os ingleses fizeram em território tupiniquim. 

Mesmo enfrentando uma concorrência ferrenha do grunge, que sacudiu as estruturas no início da famigerada década de 90, o The Cure não perdeu o prumo e muito menos a identidade. “Wish” mostrou que os ingleses sabiam bem o que estavam fazendo, e se por um lado a aposta no caráter musical multifacetado tenha frustrado os fãs mais radicais, ansiosos por sombras e melancolia, por outro reafirmou a categoria do Cure para fazer obras absolutamente perfeitas e diversas, as quais chegam a parecer coletâneas de tão boas. 

Espantando, de certa forma, os fantasmas góticos mais musculosos, a banda construiu um disco sólido, palatável e repleto de excelentes canções, com direito a guitarras aventureiras, melodias belíssimas, assim como letras marcantes e reflexivas forjadas bem ao padrão Robert Smith.

O disco não poderia ter entrada melhor e mais sugestiva que “Open”, com suas guitarras altissonantes e calorosas e Robert Smith refletindo sobre a falta de sentido em meio a um comovente ardor existencial bem à la Albert Camus, filósofo franco-argelino, muito referenciado nas criações líricas de Smith. “(...)I really don't know what I'm doing here/I really think I should've gone to bed tonight but/Just one drink” (...) 

Quando “High” aparece logo em seguida o céu adquire novos contornos e eis que nasce uma paisagem pop, despojada e romântica. Uma canção singela e marcante com todos os ingredientes convencionais (mas não enfadonhos) para dar certo. 

Em “Apart” o Cure volta a deixar o clima macambúzias (e bota macambúzias...), trazendo aquele compasso lento clássico da banda (que por sinal eu adoro!!), com o baixo assumindo certo protagonismo. Uma música que tenho em playlist de favoritas que reacende as ambientações soturnas de "Disintegration". Algo como os desencontros do amor cantado com toda suavidade e dramaticidade de Smith. “Ele espera dela simpatia/ Mas ela não simpatizará com nada/ Ela espera toda noite para sentir um beijo dele/ Mas sempre espera sozinha”. 

“From the Edge of the Deep Green Sea” é uma das melhores do disco, viagem charmosa apoiada em riffs de guitarras sensacionais que parecem uma parede, melodia repetitiva e grudenta que não para de ecoar na cabeça, caindo como uma luva para o lirismo lamentoso de Smith. “(...) Eu queria apenas conseguir parar/Eu sei que outro momento irá partir meu coração/Tantas lágrimas/Tantas vezes/Tantos anos eu tenho chorado por você/É sempre a mesma coisa (...)”. 

“Wendy Time” é uma coadjuvante com certa dignidade, aparece para levantar a poeira e fazer sorrir um pouco. “Doing the Unstuck” por sua vez é uma ótima passagem, com clima alegre e belos arranjos, onde um violão mais saidinho faz as vezes da guitarra rítmica e Smith adquire aquela postura radiante e otimista. 

As coisas estavam em ótimo nível, mas “Friday I'm in Love” é fora da curva, hit maravilhoso da banda, onde os ingleses criam aquela climão festivo de celebração. É Cure em estação de flores, amor e arrebatamento. ‘Friday I'm in Love” é a simplicidade pop em doses cavalares radiofônicas, sem nenhum reparo a fazer, nada pra tirar ou botar. Poucas bandas conseguem esse equilíbrio. Nota 10!. 

“Trust” não é uma grande faixa, mas confesso que consigo escutá-la todinha percebendo seus detalhes e regozijando como fã idiota que sou. Os arranjos e o piano dão um tom de serenidade e resignação.  

A formosura de “A Letter to Elise” é notável. Pop, leve e prazerosa em todos os seus cerca de cinco minutos de duração. É daquelas composições minimalistas que o Cure tira da cartola com tanta naturalidade que parece ser fácil (mas não se enganem, não é para a maioria das bandas!!). A letra de “A Letter to Elise” foi considerada como uma das melhores pela Far Out Magazine.  

“Cut” se assemelha a um sonho psicodélico. Música balançante e guitarrística, onde explodem solos para todos os lados e riffs de rock básico pipocam em quantidades generosas. Smith solta seu fraseado britânico sem qualquer pudor, vai pra notas mais altas e mostra que não tem medo de cantar fora da zona de conforto. Excelente momento do disco!

“To Wish Impossible Things” não fica devendo, traz aquele ar tristonho e melancólico do Cure novamente, canção cadenciada até a raiz e sem nenhuma pressa de chegar. Robert Smith canta versos que evocam a saudade, absolutamente tocantes e encharcados de autocomiseração. “(...) Lembra como costumava ser / Quando as estrelas preencheriam o céu / Lembra como costumava sonhar / Aquelas noites que nunca acabariam / Aquelas noites que nunca acabariam(...)”. Funciona bem!

O fechamento fica a cargo de “End” (tudo a ver). Uma irmã de “Open”, verdadeira chuva de guitarras poderosas e imponentes, cujas letras pessimistas refletem sobre ilusões e sonhos destroçados. O vocal de Smith parece estar revoltado aqui, como se gritasse desesperadamente contra as intempéries da vida. 

"Wish" é um disco inesquecível e encontra posição de respeito na discografia da banda. A coprodução competente de David Allen deixou uma marca interessante na sonoridade da banda, vide o peso de algumas músicas, o que se mostrou bastante adequado ao momento do lançamento. Sem fazer comparações e sem menosprezar obras primas do Cure, escutar este álbum, ao fim e ao cabo, é uma experiência extremamente deleitosa. 


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Wish

Álbum disponível na discografia de: The Cure

Ano: 1992

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,75 - 4 votos

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