Resenha

Heaven And Hell

Álbum de Vangelis

1975

CD/LP

Por: Marcel Dio

Colaborador Sênior

12/06/2022



Entre o céu e inferno existe algo maior, a música de Vangelis

Por muitas vezes caio na própria armadilha quando especulo sobre ouvir um álbum até amadurecer e ficar doce. No caso de tantos, nem com jornal embrulhado, no caso de Vangelis um susto no contato inicial e a percepção de megalomania, erro imperdoável!
O tempo preparou-me para Heaven and Hell, não é simplesmente laboração eletrônica, quem cogita deve procurar um psiquiatra ou ficar no limbo entre o céu e inferno. 
A criatura pega em fragrante ouvindo Viagem ao Centro da Terra (Rick Wakeman) seria taxada de velho, um vidente sertanejo de terceira categoria adivinharia até o ano da concepção. No caso de Vangelis mesmo com timbres datados o sinal ultrapassa o que podemos chamar de atemporal. Enfia embusteiros da música eletrônica numa caixa e manda-os pelo correio, enforca a pompa new age e revela o que a alma necessita quando queremos dar o fora desse mundo.

Os teclados de "Bacchanale" são densos, hipnóticos e seguidos por vocais poderosos e assustadores. O sujeito mais desprendido fica atento ao cataclisma sonoro quando entra nos dois movimentos de "Symphony to the Powers B", cujo as notas são secas e fortes na impressão de estamos num grande mosteiro cercado de vozes sacras ou afins. Dessa forma a imaginação divaga a bel prazer e os arranjos fogem de qualquer assunto relacionado ao convencional. 
É grandioso e para ser apreciado num lugar especial, tanto pelo contexto épico religioso quanto pelo enquadramento harmônico perfeito e também operístico. Podem comparar a qualquer ação de Carmina Burana, mas... em alguns pontos. 
Em trechos progressivos, frases maravilhosas de pianos, vamos do pseudo tango finalizante e logo após na calmaria abre-se o portal do terceiro movimento. Esse entrelaça-se gradualmente subindo os degraus do sagrado. Nesse instante e sem exagero, saímos da terra e olhamos o mundo da órbita. Sem citar uma palavra as notas comentam entre si o quanto somos apenas um rastro do nada a circular na gaiola. Não por bobagem foi tema da aclamada série Cosmos.

Para fechar o lado "inferno", o contraste celestial entra em cena. Nada mais oportuno ter Jon Anderson (futuro parceiro de trabalho). Anderson deixa um pouco de sua alma na impecável apresentação. 

No Lado B (para apreciadores do vinil) começamos o céu, aquele que todos podem desfrutar.
"Intestinal Bat" é puro suspense de ruídos misteriosos e angustiantes. 
Terminado o mistério de Intestinal Bat, marchamos com "Needles and Bones", a qualquer mão ficaria em desfoco por virar a mesa ao entrar no veio oriental. De certa maneira é uma trilha que poderia ser abduzida em qualquer best of, ao tempo de encaixar perfeitamente na proposta conceitual. 

Cantos gregorianos costumeiramente são chatos, a diferença é que os tímpanos e orquestrações ao fundo de "12 O'Clock dão outra conotação juntos com vozes lamuriantes. Teclados semi progressivos climatizam o enredo. É o "divino" manifesto em notas !, ponto final. Vangelis é o artista, um dos maiores. 
“12 O’Clock” mostra a conexão com o imaterial. Pode ser paralela a Ave Maria, porém, mil léguas além. 
"Aries" toma o ar do rock progressivo e impulsivo do virtuoso trio ELP. Repetindo-se em tonalidades diferentes. Tão rápido galgamos outro degrau para receber a singela "A Way", pianos a frente e fim da jornada.


Evángelos Odysséas Papathanassíu deixou o plano carnal há três semanas, deixou um legado, um arrombo na primeira arte. 
Homem reservado, não muito afeito a shows e entrevistas. Numa das poucas que acompanhei dizia que as gravadores tiraram-lhe a liberdade criativa e que os artistas não deveriam ser produtos. 
Disse ainda que poucos conhecem sua obra, a maioria de suas ideias não foram gravadas pela indústria justamente pela questão acima e talvez não vejam a luz do dia. 
Vangelis não ligava para questões teóricas nos temas, era a força da natureza que o guiava. Segundo o mesmo, a natureza fundia-se a própria música.
Com um largo sorriso no fim da entrevista, exclamou: A mim pouco importa o que aconteça, sou segundo plano desde que voltem a respeitar a música. Deixando bem claro a diferença de um músico de verdade e um astro de ego inflado. 
Descanse em paz mestre, seu lugar no trono da arte está garantido por uns mil anos, se bobear pela eternidade. 


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Sobre Marcel Dio

Nível: Colaborador Sênior

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"Sou um amante da música, seja em qualquer estilo, rock, blues, jazz ou pop."

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Sobre o álbum

Heaven And Hell

Álbum disponível na discografia de: Vangelis

Ano: 1975

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,7 - 5 votos

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Veja mais opiniões sobre Heaven And Hell:

  • 13
    mar, 2019

    Extremamente único, bem desenvolvido e musicalmente rico

    User Photo Tiago Meneses

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