Resenha

Welcome To The Planet

Álbum de Big Big Train

2022

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

28/05/2022



Um disco que é magnífico por si só, não requerendo elevação artificial dadas as circunstâncias

Ainda que algumas obras musicais, quando compostas, tenham sido planejadas inicialmente para acalentar a mente das pessoas com delicadeza, doçura e um verdadeiro esplendor, podem mesmo que pôr acaso, sofrer uma alteração na sua aura, devido acontecimentos que irão marcá-las para sempre com pinceladas de tristeza. Existem muitos lançamentos póstumos de discos que não causam nenhum tipo de sentimento, pois são lançados anos depois, quando a perda de um determinado arista já foi de certa forma “superada”. Mas quando tudo ainda é fresco na mente, discos e músicas podem carregar uma enorme dose extra de melancolia. Alan Wilson, em relação ao Hooker ‘n Heat, que foi o último disco em que Wilson gravou com a Canned Heat, quatro meses antes de sua morte, Martin Lamble, baterista da Fairport Convention, morreu menos de um mês depois das gravações de Unhalfibricking – um dos maiores clássicos da banda -, apenas dezoito dias depois da morte trágica de Otis Redding, foi lançado seu single (Sitting On The) Dock Of The Bay, e para citar um último exemplo, inclusive, um dos mais conhecidos para o pessoal que cresceu nos anos 90, MTV Unplugged in New York do Nirvana, gravado no dia 18 de novembro de 1993 e lançado somente quase um ano depois, em 1 de novembro de 1994, cerca de seis meses após a morte de Kurt Cobain. 

Infelizmente, com a morte inesperada de David Longdon – e que pegou todos de surpresa - no dia 20 de novembro de 2021, Welcome to the Planet, entrou para o rol das obras citadas. Desde o seu disco de estreia com a banda, The Underfall Yard, que Longdon deixou claro que não havia chegado na Big Big Train apenas para ser um simples vocalista. Se tratava de um multi-instrumentista que por meio de sua voz rouca, passou a fornecer uma alma incrível na música da banda, principalmente em projetos baseados em narrativas e história. David faleceu após gravar o disco onde as letras mais parecem estar fechadas em lacunas de comunicação, celebrando o que é estar vivo (uma infeliz ironia do destino) e parecem pedir uma conexão humana, onde suas peças das extremidades são dirigidas aos recém-nascidos.  

Lançado apenas seis meses após, Common Ground, Gregory Spawton chegou a explicar o curto espaço de tempo entre os álbuns: “A experiência da pandemia nos mostrou que precisamos fazer o melhor uso do nosso tempo na Terra. Com isso em mente e com novos membros da banda a bordo nos dando uma nova cabeça, decidimos voltar rapidamente ao estúdio para escrever e gravar Welcome To The Planet.” Mais uma vez, a banda entrega a sua musicalidade tipicamente impecável e arranjos deslumbrantes. A produção, sempre muito cristalina, enquanto que violino, guitarra, flauta, mellotron e Hammond brilham em uma mistura de muito bom gosto e que já é conhecida por qualquer um que acompanhe a banda, as harmonias vocais, essas são excelentes.  Os metais, quando adicionados, salpicam as peças com cores vivas e as edificam ainda mais.  

Welcome to the Planet foi composto por meio das contribuições de escrita de vários de seus membros. Podemos perceber a banda mantendo as suas raízes progressivas, mas também se ramificando de maneira criativa, ao mesmo tempo em que abraça com toda a força as suas influências em vários outros gêneros, criando assim, um disco que é magnífico por si só, não requerendo elevação artificial dadas as circunstâncias. 

“Made From Sunshine” começa o disco de forma alto astral e edificante. Uma balada que consegue colocar alegria no meu coração sempre que a escuto. As invertidas de metais também são maravilhosas. Possui uma cadência bastante natural e extremamente encantadora, os vocais de Longdon em parceria com a violinista/vocalista Clare Lindley, representam os pais cantando para um bebê e lhes dando as boas-vindas ao mundo. Algumas linhas de guitarra lembram Johnny Marr – mesmo que eu não seja necessariamente um grande conhecedor de The Smiths -, enquanto que algumas harmonias vocais lembram Finn Brothers/Crowded House. Assim como aconteceu em seus dois discos anteriores – Grand Tour e Common Ground - por meio de “Alive” e “The Strangest Time”, Welcome to The Planet também começa de forma muito animada.  

“The Connection Plan” segue mantendo o disco com uma energia alta, além de intenso. Começa por meio de algumas belas frases de violino, que logo em seguida tem a companhia do vocal apaixonado de Longdon, além de fortes linhas de baixo. Possui uma belíssima coleção de sonoridades alegres e que entregam para o ouvinte excelentes Mellotron, sintetizadores, órgãos e vibrafones, além de um solo edificante de guitarra. A banda tem no seu catálogo várias peças de caráter mais sombrios, mas o que é encontrado aqui é um som cheio de alegria e muita vida. No fim de tudo, se trata de uma música sólida, concisa e ágil, além de possuir letras inteligentes. Pode ser vista como uma música pop demais? Pode, mas ainda assim, a maneira com que tudo é tão bem construído não a faz menos especial dentro do disco.    

“Lanterna” começa com boa sensibilidade e um estilo vocal de harmonias suaves, influenciados por compositores dos anos 60, como, The Mamas & the Papas. Escrita por Greg Spawton, a música oferece muitas de suas composições elementares e que formam a base do que é considerado o som clássico da banda. Pouco antes dos 2 minutos, a peça sofre um redirecionamento para um rock progressivo completo e de ótimo ritmo, além de alguns pianos “clássicos” excelentes. A maneira como os backing vocals, masculinos e femininos, se apresentam de forma diferente para acentuar o vocal de Londgon é sensacional. Na sua parte final, mais uma vez, Rikard entrega um deslumbrante solo de guitarra – a banda parece está dando a ele cada vez mais espaço para ele brilhar, inclusive, eu agradeço por isso. Vale destacar que “Atlantic Cable” e “Lanterna” são compostas por um material que faz com que Common Ground e Welcome to the Planet tenham um fio condutor que os liguem – inclusive, “Lanterna”, inicialmente fazia parte de “Atlantic Cable”, mas Greg Spawton decidiu separá-las. Destaque também é a mixagem de Rob Audrey, pois embora “Lanterna” conte com vários elementos musicais, tudo se mantem sempre coeso e nítido.  

“Capitoline Venus”, com pouco menos de 2:30 é a menor peça do disco. Cheia de sensibilidade, foi inspirada pela estátua de mesmo nome e dedicada à esposa de Greg – que obviamente, foi quem a escreveu. Um violão de dose cordas desfila suavemente junto do Mellotron que acompanha o vocal apaixonado de David. Bastante simples, também é uma das músicas mais comoventes e belas que a banda já gravou. É impressionante que, embora a voz de David, muitas vezes entregue brilhantemente - sempre com uma grande nuance de sentimentos - algumas aulas de história inglesa em forma de música, parece que é em canções de amor que ele consegue canalizar de forma mais plena todas as suas emoções. Se Kathy Spawton já nutria uma paixão por Greg, após ouvir “Capitoline Venus”, tenho certeza que tudo ficou ainda maior.  

“A Room With No Ceiling” é a primeira das músicas instrumentais do disco. Composta por Rikard, é uma espécie de vitrine para que o músico mostre as suas habilidades tanto de guitarrista, quando de tecladista. A seção rítmica de Greg e Nick é intensa por meio de um baixo robusto e bateria virtuosa. Certamente o momento mais progressivo de Welcome to the Planet. Próximo do início do 3° minuto de música, quando órgão e acordeão dominam a peça, as notas usadas foram parecidas com as da abertura de Stranger Things – inclusive, vou atrás de mais opiniões sobre isso. Então a música volta para a linha jazzística do início, até que a peça desaparece com um breve solo de acordeão tocando uma melodia melancólica.     

“Proper Jack Froster”, desde que foi apresentada, cerca de dois meses antes do lançamento do disco, eu já pensei, “se está não for a minha música preferida, será pelo menos uma delas”. Começa com uma sensação suave de folk/rock, mas logo se torna mais pop/rock quando é adicionada à seção rítmica. Novamente é uma peça riquíssima em sons, apresentados de maneira muito bem organizada e cheia de estilo, violino, piano elétrico, órgão Hammond e ótimos licks de guitarra, além dos sempre maravilhosos vocais de Longdon. Maravilhoso também é quando Carly Bryant assume o vocal após algumas belas incursões dos metais, direcionando a música, primeiro para um ar mais adocicado e depois para uma interação instrumental mais acalorada. A banda como sempre, consegue criar situações muito bem feitas em suas músicas, a ponto de não ser preciso de um vídeo para “ver” a história, os elementos musicais já fazem isso muito bem. Minha preferida do disco.  

“Bats In The Belfry” é a outra música instrumental disco, desta vez, composta pelo baterista Nick D’Virgilio. O que esperar em um caso desse? O óbvio, Nick mandando ver em sessões lentas e mais rápidas no instrumento que domina tão bem. Há muito groove e algumas inclusões de trompas, que inicialmente eu devo admitir que não gostei muito, porém, com mais audições - assim como aconteceu com todo o disco -, comecei a me relacionar cada vez melhor com elas. A primeira metade é mais interessante e mais rica instrumentalmente e mostra a banda acrescentando uma pitada muito boa e saudável dos seus momentos mais progressivos. A segunda metade, após uma breve passagem instrumental mais lenta e atmosférica, mostra Nick finalizando a peça por meio de um solo fenomenal.  

“Oak and Stone” é uma balada cativante. Tem uma introdução que é o típico e mais puro som da Big Big Train, com excelentes harmonias vocais patinando suavemente sobre belas notas de piano e sendo auxiliada de forma acentuada por ótimos vocais de apoio. A bateria quando entra suavemente, coloca na peça uma sensação de jazz lounge, então que há uma mudança de ritmo e o trompete redireciona a música, até que ela fica lenta novamente, com o Mellotron quase que de forma solitária entregando algumas notas antes que o ritmo mude pela última vez, fazendo com que, por meio de uma seção intrigante, a peça chegue no seu fim. Assim como aconteceu com “End Notes” - que eu achei o final perfeito para o disco anterior -, “Oak and Stone” serviria perfeitamente como o fechar de cortinas mais adequado para o álbum - poderia estar de lugar trocado com a faixa título. De qualquer forma, mais uma belíssima composição.   

“Welcome to the Planet” é a faixa que encerra o disco. Carly Bryant definitivamente quer deixar claro para todos, que não entrou na banda apenas para ser tecladista e/ou eventual vocalista, mas quer participar a fundo na composição das músicas, sendo ela, quem compôs - letra e música - a faixa título. No geral é uma incrível peça atmosférica, quase que uma paisagem sonora. A música abre com trompa e rufos na bateria antes de silenciar em alguns vocais sofisticados, primeiramente de Longdon e depois de Carly – que é quem de fato vai brilhar na música. Pode ser considerado o lado mais sombrio de “Made from Sunshine”. A peça se direciona para uma seção intermediária de instrumentação mais livre, onde os teclados e sintetizadores de Carly, interagem maravilhosamente bem com a flauta de Longdon, antes que haja o “ataque” de algumas improvisações vocais, onde nesse momento, não é nenhuma estranheza pensar em “The Great Gig the Sky” – ainda que em uma progressão instrumental mais animada. Novamente, é um aviso de boas-vindas para um recém-nascido, porém, desta vez, menos excitante e mais lúgubre, além de também deixar claro que se trata de uma nota pessoal, com Carly usando inclusive o seu próprio nome - “tia Carly está cantando canções de ninar para todas as crianças que ela nunca fez”. Uma música bastante diferente – mas não menos brilhante - de tudo que foi feito pela banda até hoje. Como única lamentação, fica o fato de que na última faixa do último disco de Longdon no grupo antes da sua morte, ele tenha uma participação apenas em segundo plano – mas é apenas um detalhe irrelevante e não muda o fato da beleza da faixa.  

Se eu tivesse escrito essa resenha, logo após ouvir Welcome to the Planet apenas uma, duas até mesmo três vezes, certamente que eu o colocaria em uma posição inferior à Common Ground, mas acontece que, após algumas escutas mais, o disco passou a crescer em mim sem parar. Qualquer pessoa que acompanhe a banda, sabe que existe um Big Big Train antes de David Longdon, assim como sabe que não é nada fácil imaginar um Big Big Train depois, porém, acredito na capacidade deles se reinventarem – onde o início de tudo foi em trazer Alberto Bravin. De qualquer forma, os 12 anos em que David esteve na banda, também foram notáveis na evolução do som do grupo, transformando a Big Big Train de uma simples banda de rock progressivo, em uma das mais aclamadas do rock progressivo contemporâneo. Welcome to the Planet, ao mesmo tempo que é um disco de ambição selvagem, também entrega muito carisma, inteligência e beleza transcendental, mostrando o que a banda faz de melhor, um som interessante, divertido e agradável, acrescido de muitos talentos novos e interessantes para a mistura do seu som.  

Não tem como fechar os olhos para a tragédia, pois ela aconteceu e não há nada o que possamos fazer para mudar isso. Mas suas faixas, com todo o seu calor, positividade e excelente musicalidade, com o tempo também passaram a transformar minha tristeza - que parecia inabalável - em conforto. De acordo com a própria banda e segundo palavras do próprio Longdon, ele já havia mencionado que se algo - que lhe tirasse a capacidade de continuar - acontecesse com ele algum dia, enquanto fizesse parte de alguma banda, gostaria que seus amigos continuassem – e seu desejo será realizado. Enfim, quando paro para pensar na pessoa de David, sempre vou enxergar a sua eloquência, sua sensibilidade e um ser humano que transborda um talento puro e genuíno - ainda que estes pensamentos, façam com que tudo fique mais doloroso para suportar a perda. Fato é que vai demorar muito para que todos se acostumem com sua ausência, enquanto isso, ouvir Welcome to the Planet é estar diante de uma combinação incrível de novas ideias com acenos ao passado, onde toda a banda interpreta cada uma de suas canções com a mesma graça e euforia de sempre. Uma pena que um disco de atmosfera tão positiva tenha chegado no período mais triste da banda.


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Sobre Tiago Meneses

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Welcome To The Planet

Álbum disponível na discografia de: Big Big Train

Ano: 2022

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 2 votos

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