Resenha

Light of Day, Day of Darkness

Álbum de Green Carnation

2002

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

14/05/2022



Metal progressivo feito por músicos bem direcionados e que realmente querem extrair até a última gota de fluido vital do gênero

Ouvi Light of Day, Day of Darkness alguns dias atrás pela primeira vez e desde então me sinto assombrado pela grandeza do seu som. Também cheguei a ouvir outros dois discos da banda, mas sinceramente, tudo fica muito pequeno perto do que é encontrado aqui. Sua faixa única é incrivelmente bem feita – isso mesmo, todo o disco é composto por apenas uma faixa de 60 minutos.    

“Light of Day, Day of Darkness” é uma música que tem tudo o que você deseja encontrar em uma peça desse tipo, desde passagens acústicas suaves à acordes pesados, solo de saxofone à riffs de velocidade mais variável, gritos femininos à gritos masculinos enérgicos, mas nunca atingindo os limites extremos de cada estilo e, acima de tudo, mantendo a coerência da música, sendo isso, um dos fatores mais impressionantes, afinal, enquanto algumas bandas tendem a fazer das peças longas uma sucessão de riffs, esta é bem homogênea.  

Há alguma maneira de dividir, “Light of Day, Day of Darkness”? O disco pode ser dividido em duas partes, cada uma com 30 minutos – ao menos eu o divido assim, outra pessoa pode dividi-lo de uma forma diferente. A primeira metade, se desenvolve principalmente dentro de uma melancolia que enraíza firmemente a música em um território gótico. Os vocais se mostram impressionantes em termos de perspectiva dramática, possuindo uma lindíssima melodia recorrente e que dá uma boa constância à música, tendo a sua intensidade alavancada por limpos arpejos de guitarra e algumas partes de teclado que desfilam pela música de forma lúbrica. Na segunda metade, o disco é mais experimental e progressivo, começando apenas com a voz operística de Synne “Soprana” Larsen, em uma seção onde ela “conversa” por alguns minutos com um saxofone em tons depressivos. Confesso que esse foi o único momento de todo álbum que não me agradou inicialmente, porém, agora já o vejo necessário, pois serve como transição de uma metade para a outra. Por volta do minuto 39, a música recomeça de fato, com guitarras acústicas que soam muito bonitas. Por volta dos 40 minutos, temos uma belíssima construção de piano que se mistura com um excelente solo de guitarra – provavelmente o grande destaque de todo o disco. 

Antes de ouvir Light of Day, Day of Darkness pela primeira vez, qualquer pessoa ao ver que ele é composto só por uma faixa homônima e com 60 minutos de duração, pode pensar que se trata somente de mais uma banda soando pretensiosa. Bom, primeiramente, temos que entender que quando o assunto é rock/metal progressivo, ser pretensioso não é novidade alguma, então, ainda que fosse, não há nenhum problema nisso. Além disso, nada está no disco somente para fazer volume e dar a ele o status de falsa grandeza, todos os instrumentos estão ali para criarem sonoridades meticulosamente muito bem entrelaçadas, para assim, concretizar toda a visão de Tchort.  

Falando em  Tchort, como é conhecido, Terje Vik Schei, o guitarrista, letrista, arranjador e líder da banda, estamos falando também da grande mente por de trás de Light of Day, Day of Darkness. Como é de se esperar, estamos diante de uma história musical, e que deve ser tratada da mesma maneira de quando se assiste um filme, ou seja, de preferência do começo ao fim e sem interrupções - no máximo voltando algo caso não tenha ficado claro. Uma decisão ambiciosa essa de desafiar as pessoas para ouvi-lo do primeiro ao último segundo seguidamente. O tema abordado por Tchort é a história sobre um período bastante agitado de sua vida, em que ele perde a sua filha ainda muito jovem e ganha um filho, Damien Aleksander – a quem de fato ele dedica o álbum - naquele mesmo período, inclusive, Aleksander é o dono da voz de bebê que aparece várias vezes durante o disco.  

O clima na maior parte do disco é bastante sombrio e taciturno, mesmo assim, há momentos em que podemos perceber uma luz penetrá-lo. O metal progressivo aqui não pode ser considerado puro como o do Dream Theater, nem enraizado no death metal como o do Opeth, nem tão psicodélico como o do Riverside ou conceitual como costuma ser o Pain of Salvation, porém, ao mesmo tempo, ele tem um pouco de cada uma dessas bandas - além de outras, porém, a lista ficaria muito grande, mas citando ao menos mais duas delas, há acenos a Therion e Evergrey. Dificilmente você vai achar um material tão diversificado em apenas um disco de metal progressivo, ainda mais, sem que em momento algum ele perca a direção, mantendo-se sempre coerente. Riffs do mais puro e pungente heavy metal, passagens de death metal, muitos momentos atmosféricos e espaciais liderados por guitarras e teclas psicodélicas, uso de instrumentos além do básico, digamos assim, como violoncelo de e sopro, partes de tranquilidade total e até mesmo hard rock é possível perceber durante toda à música.  

Bem, tudo isso que foi dito até agora, só virou realidade por conta de uma infinidade de músicos, cada qual extremamente competente em seu respectivo instrumento, sem deixar, claro, de mencionar os vocais que possuem grandes habilidades melódicas, assim como um ótimo rosnado quando necessário - mas se você ficou preocupado, pois não gosta de gutural e o acha até mesmo irritante, pode ficar tranquilo, pois é um gutural profundo, um rosnado concentrado, obscuro e inofensivo que não tira a qualidade da música. Voltando aos músicos, além dos 5 tradicionais da banda, foi convidado um coral com 8 membros, mais um coral composto por 19 crianças, além de mais 7 convidados entre músicos e cantores adicionais.  

O que mais pode ser dito sobre esse álbum? Muitas coisas, mas eu vou parando por aqui. Na minha concepção do que é uma coleção completa e que podemos chamar de essencial em termos de metal progressivo, não consigo a imaginar com a ausência de Light of Day, Day of Darkness. Uma realização esplêndida, majestosa e original que consegue apresentar tudo o que o metal é capaz de entregar ao ouvinte, quando executado por músicos bem direcionados e que realmente querem extrair até a última gota de fluido vital do gênero. O disco encerra com o mesmo tema que começou - se não levarmos em conta o som de uma caixa de música no último minuto -, como quem o usa como ponto de partida e também o de chegada nessa verdadeira epopeia musical. Uma obra-prima.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Light of Day, Day of Darkness

Álbum disponível na discografia de: Green Carnation

Ano: 2002

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 2 votos

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Veja mais opiniões sobre Light of Day, Day of Darkness:

  • 30
    jan, 2018

    Pretensioso, longo e magnífico!

    User Photo Tarcisio Lucas

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