Resenha

...Tenebrae Vincunt

Álbum de Absenthia

2009

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

04/05/2022



Tenebrae Vincunt é uma grande diversidade instrumental e atmosférica produzida em um clima poético, ora enérgico e ora lúbrico

A Itália é um dos países mais prolíficos que existe quando um dos assuntos é o rock progressivo, impressionante como desde os primórdios do gênero, entra ano e sai ano e a terra da bota continua a revelar uma infinidade de bandas. Absenthia, primeiramente era formada por um quinteto de músicos bastante talentosos e que compunham somente material instrumental, foi então que o excelente vocalista Igor D'Aoconte se juntou a eles, e com ele, também trouxe ótimas ideias líricas para serem acrescentadas ao som do grupo.  

 Tenebrae Vincunt se trata de um disco conceitual, com as observações da banda sobre o mundo moderno sendo apresentadas de forma alegórica. Está encharcado de mitologia clássica, e várias canções incorporam referências sobrepostas a personagens particulares do mundo antigo. Os tópicos comuns que percorrem o álbum incluem heróis e ditadores, amor e guerra, liberdade e escravidão, mas a verdadeira força está na maneira como tudo isso se junta para formar um disco incrivelmente emocional e forte. Vale destacar também, que as letras foram baseadas em uma coleção de escrita de poemas chamada ''Piazza D'Aoconte ei poeti dell'autunno''. Musicalmente, há uma mistura de influências que vão de Premiata Forneria Marconi, Banco Del Mutuo Soccorso e Le Orme ao folk, melodias clássicas típicas da música italiana e até mesmo incursões de metal progressivo, sendo tudo entregue sempre de uma forma muito original, coesa e convincente. 

“Commentarii - De Bello Gallico VII” é a peça que inicia o disco. É uma bela balada inspirada na vida de Julio Cesar e o seu assassinato. Mas apesar de seu pano de fundo de tirania, assassinato e revolução, a música em si é muito suave e acústica, além de bastante pensativa. Como tal, faz uma introdução impressionante ao álbum com efeitos de flauta, corda e harpa que imbuem a música com uma sensação pastoral e antiga. “Atomica Achillea” por meio da sua agressividade, direciona o disco para algo completamente diferente do encontrado na faixa de abertura. Possui alguns licks agitados de piano e riffs pesados de guitarra. Achillea”  é o nome de uma planta antiga e que Aquiles usou para estancar o fluxo de sangue das feridas de seus soldados – por isso o nome dela. É uma peça bastante irônica, pois descreve a erva curativa (Achillea) sendo usada como material físsil para produzir uma bomba, resultando tanto em paz quanto em dor.  

“Absira e la battaglia di Teutoburgo” é uma peça cheia de complexidade, porém, se trata de um trabalho cheio de romantismo e poder. Um número épico de amor ambientado no meio da batalha da Floresta de Teutoburgo em 9 d.C. A combinação de folk, hard rock e metal é maravilhosa. É incrível como tudo se move entre linhas melancólicas em alguns interlúdios de flauta e momentos mais pesados que chegam até um metal estrondoso. Uma peça de estrutura sensacional que é sem dúvida um dos pontos altos do disco.” Aria - ricordi di un soldato”  é mais um momento de balada. Uma peça cheia de emoção e energia, talvez com um excesso de ressonância. Mas de qualquer forma, mais uma bela música, Igor D'Aoconte se entrega de corpo e alma para pôr o maior sentimento possível na história de uma viúva cuja o marido morreu na guerra.  

“La Danza dei miei Satiri” traz com ela uma raiva e desespero pelas ambiguidades da vida e a ganância das pessoas. Mesmo que soe mais “animada” em alguns momentos, o que se destaca mesmo é o seu clima quase sempre sombrio. O peso unido à atmosfera sinfônica sob os vocais operísticos cria uma música cheia de paixão. “Catilina e la congiura degli stracci” começa muito rápida e pesada, com uma bateria triturante que me lembra bandas de Power Metal, assim como o uso sinfônico do teclado. Sempre que acionados, os vocais “esfriam” a peça, mas também fazem uma preparação para que o tema instrumental inicial volte em cada refrão.  Apesar de falar de “Catilina” - uma política romana do século I a.C -, a peça também consegue reforçar muito bem a ideia de corrupção e estupidez que consome os políticos modernos.  

“Amore e Psiche” é mais uma peça de sonoridade romântica, onde após um começo sereno, alguns riffs pesados de guitarra são contrapostos há acordes incendiários de órgão. A música é baseada no conto, Cupiso e Psique” de Apuleio. Uma canção de amor muito poderosa, mas de clima obscuro. “Argonautica” mantem o disco em um clima sombrio e misterioso. A música apresenta vocais viris cantarolando em uma melodia cadenciada que captura bem uma sensação quase árabe - embora seja uma peça baseada em Medeia, uma feiticeira da antiga mitologia grega -, além de ser adequadamente melodramática.  

“Spartacus” é o nome mais conhecido entre os “homenageados” no disco. Uma música muito animada e envolvente, sem dúvida, um dos melhores momentos de Tenebreae Vincunt – pra mim, o melhor. Há trechos instrumentais turbulentos e conflitantes, mas o maior destaque, está em uma nota longa de Igor no final da música, que vocalista incrível, é de arrepiar. “Lo Schiavo infante e la Matrona romana”, se você gosta de músicas italianas cantadas por meio de suas tradicionais narrativas poéticas - essa baseada no amor de um jovem escravo com uma matrona -, prepare-se para um final de disco deslumbrante. Vocal quase falado, belíssimo violão e teclados que adicionam um pouco de cor à peça. Um encerramento de disco simples e perfeito.  

Se você - assim como eu -, também é um entusiasta do rock progressivo italiano, não ficaria mais nenhum dia sem conhecer essa pérola. Uma pena que já se vão 13 anos desde o seu lançamento e a banda até hoje só lançou mais um EP chamado Novecento (Atto Primo), em 2016. Tenebrae Vincunt é uma grande diversidade instrumental e atmosférica em um clima poético ora enérgico e ora lúbrico.


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.



Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaSebastian Hardie - Four Moments (1975)

    21/02/2018

  • Image

    ResenhaDevin Townsend - Ocean Machine - Biomech (1997)

    22/11/2020

  • Image

    ResenhaSteve Hackett - Surrender Of Silence (2021)

    06/09/2021

  • Image

    ResenhaSyd Barrett - The Madcap Laughs (1970)

    13/11/2019

  • Image

    ResenhaKaleidoscope - Tangerine Dream (1967)

    05/05/2021

  • Image

    ResenhaMagenta - We Are Legend (2017)

    27/10/2017

  • Image

    ResenhaLynyrd Skynyrd - (Pronounced 'Lĕh-'nérd 'Skin-'nérd) (1973)

    24/05/2018

  • Image

    ResenhaFates Warning - Disconnected (2000)

    29/01/2021

  • Image

    ResenhaVangelis - See You Later (1980)

    03/02/2022

  • Image

    ResenhaMike Oldfield - Ommadawn (1975)

    10/04/2018

Visitar a página completa de Tiago Meneses



Sobre o álbum

...Tenebrae Vincunt

Álbum disponível na discografia de: Absenthia

Ano: 2009

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

Avalie

Você conhece esse álbum? Que tal dar a sua nota?

Faça login para avaliar

Visitar a página completa de ...Tenebrae Vincunt



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.