Resenha

A Pleasant Shade Of Gray

Álbum de Fates Warning

1997

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

29/04/2022



Música progressiva e inteligente que ajudou a criar uma verdadeira obra-prima do metal progressivo

Sem pensar muito, escolho A Pleasant Shade Of Gray como o meu disco preferido do Fates Warning. Sua composição é excelente, todos os músicos envolvidos estão impecáveis e os vocais de Alder nunca soaram tão incríveis quanto aqui, com certeza os melhores que ele já gravou até hoje. Eu achei maravilhosa a ideia de temas recorrentes explorados de forma diferente ao longo de um álbum conceitual. A banda compôs uma grande música, separada em 12 capítulos. Seguindo a estrutura de um livro, esses capítulos musicais estão relacionados a um conceito solto, mas claro, flutuando no corpo da letra que evolui em torno da semiologia de esperanças, sonhos, culpas e arrependimentos das pessoas em relação ao próximo. O que é, o que foi e o que poderia ter sido. 

Musicalmente, a banda mantém muito bem estabelecida a sua patente de metal progressivo, entregando um som quase sempre obscuro. Muitas vezes, é possível perceber em certos capítulos, sonoridades um pouco mais simplistas e às vezes até mesmo “semelhantes” entre si, porém, em momento algum isso tira o fato dos seus ritmos e melodias serem viciantes. Vale ressaltar, que algumas dessas melodias e riffs, no fim, e junto das letras, solidifica a natureza do álbum, lhe dando uma cara de trilha sonora de filme não existente. A banda também deixa variando o seu metal/rock como bem entendem, dando uma clareza espontânea da magnitude das partes instrumentais em cada capítulo da música. 

Apesar de ser um disco em sua maioria das vezes, aclamado pelo público, também já me deparei com algumas críticas bem pesadas em relação a ele, onde entre tantos motivos, falavam-se sobre o fato de não existir uma faixa memorável, assim como carecer de acrobacias técnicas, passagens instrumentais intrincadas, pirotecnias grandiosas e muito mais, como se essas coisas fossem as únicas propriedades e características definidoras da música progressiva.  

A Pleasant Shade Of Gray deu início à era de apenas uma guitarra na banda – eles gravariam ainda mais dois discos dessa forma. Com somente Jim Matheos nas seis cordas, o grupo abriu um espaço significativo para os trabalhos de teclas, sendo elas, muito bem manuseadas pelo amigo de longa data do grupo e ex Dream Theater, Kevin Moore. Um convidado de luxo, que conseguiu durante todo o disco, se manter em um papel sutil e ao mesmo tempo consistente, como construtor de ambientes por meio de muitas camadas, orquestrações e harmonias. Como isso, não é preciso nem dizer que a banda passou a soar mais progressiva do que nunca, mantendo o metal de sua música mais, digamos, circunspecto e menos explosivo do que em discos anteriores. Também é possível perceber que a banda nunca soou de forma tão variada como aqui, apresentando um som sinfônico, indícios de música industrial e até mesmo alguns impulsos melódicos de características neo progressivas. Com o disco, tendo uma guitarra apenas, a seção rítmica obteve um maior destaque, principalmente em relação ao baterista Mark Zonder, que pode pontuar muito bem as suas tendências jazzísticas. Mas vale mencionar também as linhas de baixo de Joey Vera, que serviu perfeitamente como uma ponte entre Matheos e Zonder, porém - e como dito no início -, sem os usos de pirotecnias e excesso de tecnicismo, mas sim, uma maravilhosa coleção de riffs, harmonias e contrapontos interagindo com muitas partes de teclado. Com uma paisagem sonora tão bem feita igual a essa, tudo acaba se tornando o cenário perfeito para a entrega de Alder por meio do seu vocal emocional, onde as letras esparsas e indescritíveis ganham uma dimensão muito apaixonada. 

Apesar de possuir 12 seções, essa não era a ideia inicial da banda. Originalmente, Matheos tinha em mente um disco com apenas uma faixa, porém, por pressões da gravadora, A Pleasant Shade of Grey teve que ser dividido. Jim não se preocupou em dar a cada seção, sequer, um nome autônomo, para que o ouvinte não se distraísse da unidade essencial da peça, algo que acabou sendo uma ideia muito boa, pois esta unidade é preservada pela recorrência bem ordenada com que cada uma delas são apresentadas, sejam por seus vocais ou instrumentais. Há momentos do disco que são emocionantes, alguns momentos mais tristes e outros que apesar de não ser necessariamente felizes, soam ao menos animados, mas acima de tudo, é claro que a maneira com que tudo é construído, é para lembrar o ouvinte que ele sempre estará diante de uma peça um pouco diferente da anterior e, que serve muito bem como uma prévia para a próxima. Durante essa epopeia musical, é entregue para o ouvinte, momentos sofisticados de metal, tons misteriosos e reflexivos – tanto nas letras quanto nas melodias -, baladas cheias de romantismos genuínos, enfim, uma banda que energiza com maestria cada uma de suas emoções mais cruas.  

Para encerrar, se por um lado, algumas pessoas sentiram falta daquele som de duas guitarras, por outro, acho que a banda soube apresentar um incrível poder de renovação, mostrando que não precisava depender de uma sonoridade explosiva e intrincada, optando por oferecer uma música progressiva e inteligente que ajudou a criar uma verdadeira obra-prima do metal progressivo.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

A Pleasant Shade Of Gray

Álbum disponível na discografia de: Fates Warning

Ano: 1997

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,62 - 4 votos

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