Resenha

Phallus Dei

Álbum de Amon Düül II

1969

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

08/04/2022



Uma estreia incrível e cheia de ousadia, dinâmica, inovação e experimentalismo

Quando falamos de música progressiva, se a pauta for o Krautrock, certamente estaremos falando de uma vertente que explorei relativamente pouco se comparada a outras dentro do gênero, porém, conheço o suficiente para enumerar alguns trabalhos essenciais, sendo Phallus Dei, disco de estreia da Amon Duul II, um dos mais importante discos do movimento Krautrock. Para uma estreia, a banda entrega um trabalho psicodélico maravilhoso. Devo admitir, que os vocais passam longe de ser atrativos, e pra quem tem problema com o idioma alemão - não é o meu caso – isso pode deixá-los ainda mais difíceis. A qualidade do som muitas vezes é de quem bate em lata de lixo, mas calma, nada do que estou escrevendo aqui atrapalhou o disco de obter um resultado final incrível, sim, mesmo os seus reveses - quando absorvido de cabeça aberta para o experimentalismo – o disco se desenvolve muito bem.   

“Kanaan” começa o disco por meio de um toque oriental – e mantém esse clima por todos os seus cerca de quatro minutos. Essa peça possui o que de melhor o Krautrock tem a oferecer, alguns efeitos espaciais excelentes, sons assustadores e vocais estranhos e nada melódicos que soam quase falados. As melodias e ritmos esotéricos completam muito bem a faixa. “Dem Guten, Schönen, Wahren” inicia com algumas guitarras psicodélicas e pratos. Enquanto a bateria fica em um ritmo constante, os vocais são bem loucos. É daquele tipo de música que é a cara do final dos anos 60. As linhas de baixo estão bem evidentes e sólidas. Por volta dos 5 minutos, a guitarra fica mais agressiva por meio de um solo encharcado de psicodelia, com isso, convidando-a pra o uso uma bateria mais forte – algo que acontece. Nos seus últimos segundos ainda tem a voz de um homem falando em um megafone – que obviamente eu não faço ideia do que seja.  

“Luzifers Ghilom” possui uma percussão excelente e viciante, impossível ouvir e não bater ao menos o pé no chão. A guitarra soa muito ácida, assim como os vocais que em alguns momentos entrega uns bons agudos. Mas o destaque certamente fica por conta da percussão e bateria que fazem os seus melhores momentos em todo o disco. “Henriette Krötenschwanz”, com cerca de dois minutos, é a menor música do álbum. Cantada em alemão com um tom soprano, me faz pensar se eles não influenciaram de alguma forma, Christian Vander e o Magma. A bateria é em uma linha de marcha.  

“Phallus Dei”, além de faixa título, também é o épico do disco, com os seus quase vinte e um minutos. Seus momentos mais psicodélicos e caóticos são bastante floydianos – fase Ummagumma -, além de alguns sons que nos faz lembrar de Syd Barrett, com direito a alguns acenos a Interestellar Overdrive. As longas improvisações desestruturadas, e que são comuns no som da banda, aqui se transformam em uma verdadeira joia musical psicodélica. Em peças dessa natureza, podemos perceber que costuma acontecer algumas improvisações, sendo que não é diferente aqui. Adoro esses momentos, onde a banda parece não saber pra onde quer ir, mas está sim, muito bem direcionada. Também possui violinos que tocam uma mistura entre folk e clássico, mas que ao mesmo tempo soa perturbador, parecendo ter sido tirado de um filme de terror. Perturbador também é ouvir os lamentos e choros expressionistas. No geral é uma música de atmosfera muito sombria e que possui variações suficientes para que o ouvinte se mantenha seduzido por ela do começo ao fim.  

Ainda que eu ache que a banda atingiria o seu pico criativo nos seus próximos dois discos, Phallus Dei certamente é, historicamente, uma das peças essenciais do Krautrock entre todas as existentes em seu catálogo. Uma estreia incrível e cheia de ousadia, dinâmica, inovação e experimentalismo. Deixo apenas o alerta que, ouvidos não “vacinados” em relação ao gênero, provavelmente não encontrarão muito o que apreciar aqui.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Phallus Dei

Álbum disponível na discografia de: Amon Düül II

Ano: 1969

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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