Resenha

Mais On Ne Peut Pas Rêver Tout Le Temps

Álbum de Laurent Thibault

1979

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

06/04/2022



Um trabalho hipnótico e sedutor que fornece toques agradáveis e atmosféricos capaz de atrair o ouvinte rapidamente

Mesmo que Laurent Thibault tenha experimentado uma gama enorme de instrumentos enquanto crescia, foi o baixo que se tornou o seu instrumento principal e passou a tocar em diversas bandas covers durante os anos 60, além de outras autorais. Mas creio seja mais conhecido por ser ao lado de Christian Vander e Francis Moze, o cofundador da banda Magma, porém, Laurent cairia fora do grupo antes de lançarem o primeiro disco.  

Foi então que foi oferecido a Thibault um emprego como produtor – algo que com o tempo ele descobriria ser a sua maior paixão - no selo internacional, Barclay, porém, ele não demorou muito no local e acabou saindo para assumir em Junho 1974 a administração do Hérouville Studio. Em 1978, Thibault  começou a trabalhar no seu próprio álbum, baseando-se no estilo ingênuo de pintura do pintor francês, Henri Rousseau. A capa do disco é um dos quadros de Henri Rousseou, chamado, “O encantador de serpentes”.  Porém, ainda houve mais um problema, a propriedade de Hérouville foi colocada à venda algumas semanas depois. Ainda que Thibault tenha gastado fortunas nos tribunais, tentando manter os seus direitos sobre ele, acabou não obtendo sucesso, mas ao menos conseguiu criar um novo estúdio, “Couleurs”.  

Quando falamos de Mais On Ne Peut Pas Rêver Tout Le Temps, é compreensível que ele seja considerado apenas um pequeno pontinho no extenso e diversificado currículo do músico, um disco de somente quatro faixas e que mal ultrapassa os trinta minutos, porém, o que ele deixou de herança com o seu único disco, é um verdadeiro testemunho de todas as suas influências musicais, onde a principal delas é, obviamente, o Magma. On Ne Peut Pas...é um disco encharcado de influências zeuhlísticas, uso de baixo fretless, excelente estrutura percussiva – talvez o maior destaque do disco -, alguns vocais celestiais de Amanda Parsons – National Heatlth -, mas acima de tudo, uma montanha russa musical cheia de mudanças, e que faz com que cada faixa possua um sabor singular e ocupe o seu próprio nicho dentro da selva sônica espalhada em seu curto espaço de tempo.  

“Orée” abre por meio de um cenário musical pastoral, com uma linha suave de guitarra, enquanto que Amanda Parsons cria com os seus vocais sopranos um clima perfeito. Alguns pratos, leves toques de tambores e teclas vão sendo adicionados à peça, assim como uma bateria bem tranquila. Inclusive, vale mencionar que é a esposa de Laurent, Jacqueline, que toca as teclas. Lisa Bois adiciona as suas melodias vocais à de Amanda. Por volta dos cinco minutos, uma flauta aparece e prepara a banda para entrar finalmente com um ritmo mais forte, criando uma paisagem musical muito boa, junta-se à Amanda e Lisa, Lionel Ledissez com sua voz indiana. As linhas de baixo são encorpadas. A peça então silencia e um violão, flauta, teclas e violino se harmonizam de forma belíssima. Vale deixar uma curiosidade, o piano de brinquedo do final da música é tocado pela filha de Laurent – na época com 8 anos -, sendo que esse mesmo piano foi usado por David Bowie na versão original de “China Girls”, de seu álbum, The Idiot, que foi gravado no estúdio de Laurent.  

“Aquadingen” tem seu início em cima de uma linha simples de baixo, mas que aos poucos, vai se transformando em algo meio funkeado, sendo que isso depois é unido à uma bateria suave e efeitos de ondas do mar. Aos poucos, a peça vai se desenvolvendo, até que por volta dos dois minutos, tudo está completo, digamos assim, e a faixa chega no seu ápice de energia. Então que o ouvinte fica diante de vocais malucos, percussão estranha, violino, saxofone e sons de animais, como se estivéssemos em uma selva, inclusive, nesse momento a banda pode estar fazendo alguma referência à capa do disco. É a faixa mais curta, mas musicalmente muito rica.  

“La Caravane De L'Oubli” possui um clima bastante influenciado pelo Oriente Médio. Ela é construída por meio de instrumentos de sopro ao melhor estilo “encantador de serpente”, inclusive, vocês se lembram do nome do quatro na capa do disco? No meio da peça, a guitarra assume a dianteira e dá o início de uma passagem contendo vocais baseados na oração dos islâmicos. Talvez não seja uma peça no mesmo nível das demais do álbum, mas isso não quer dizer que não possua muita coisa para se explorar e desfrutar aqui.

“Mais On Ne Peut Pas Rêver Tout Le Temps”, além da faixa título, também é a última música do disco. Após uma breve fala que apresenta a música - curioso isso em se tratado de uma faixa de estúdio -, ela abre com um clima sombrio, até que se acalma e, alguns barulhos de água e doces melodias de vocais femininos podem ser ouvidos, o som de algumas crianças também ecoam antes da bateria começar a energizar a música em um aumento de ritmo. O baixo fretlees é ótimo. A bateria continua a liderar a peça enquanto que mais algumas melodias vocais sombrias retornam. Quando a melodia para temporariamente, o saxofone entra até que ela retorne com a mesma rapidez. Uma voz grita e sorri enquanto a melodia sombria continua a aterrorizar a faixa. O álbum encerra com mais uma música incrível.  

Quando o assunto é Zeuhl, não costumo indicar disco pra ninguém, apenas falo superficialmente como é o tipo de som, e vai dá pessoa querer se aventurar nele ou não, pois tenho plena consciência que dentro da música progressiva, se trata de um dos gêneros de mais difícil aceitação. Dito isso, se você quer algo de qualidade do gênero, considero Mais On Ne Peut...um trabalho hipnótico e sedutor, que fornece toques agradáveis e atmosféricos capaz de atrair o ouvinte rapidamente, onde sua tensão aumenta sempre de forma gradual. Uma pena que Laurent nunca mais tenha lançado mais algum disco solo – apesar de ter produzido uma infinidade. Um álbum feito para quem não cansa daquelas sonoridades fervorosas e viciantes que somente o estilo rítmico do Zeuhl é capaz de oferecer. 


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado pela música progressiva em todas as suas facetas."

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Sobre o álbum

Mais On Ne Peut Pas Rêver Tout Le Temps

Álbum disponível na discografia de: Laurent Thibault

Ano: 1979

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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