Resenha

Le Ver Dans Le Fruit

Álbum de Nemo

2013

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

24/03/2022



Como sempre, a banda entrega um disco onde suas músicas vão e vêm, porém, sempre com intenções e direcionamentos claros

Considero Nemo uma das forças motriz do Rock Progressivo mundial do século XXI, e ainda hoje, peço todos os dias para que o anúncio do seu término em 2015 não tenha passado de um blefe, para que em algum momento, Jean-Pierre Louveton e companhia, de repente apareça com a notícia de que estão produzindo um disco novo. 

O que eu mais adoro em uma banda como esta, é o quanto seus álbuns levam semanas para quebrar apenas a sua superfície, fazendo com que passemos meses encontrando todos os seus detalhes, para enfim, ter absorvido toda a sua música. Um disco que não é apenas um vocal carismático sobre uma execução instrumental excepcional – embora só isso já valesse a pena -, mas as composições contêm arranjos intrincados e de uma imprevisibilidade incrível. Agora, já imaginou tudo isso em um disco duplo e que presenteia o ouvinte com mais de uma hora e meia de duração? Pois é exatamente isso que banda entrega por meio do seu Le Ver Dans Le Fruit, seu disco mais pesado, porém, não o suficiente para ser considerado Metal.  


CD1: 

“Stipant Luporum” começa o disco com uma ótima harmonia criada por suaves vozes à capela, e que direcionam muito bem o álbum para, “Trojan”, onde de fato as coisas começam pra valer. “Trojan (Le Ver Dans Le Fruit)” começa por meio de alguns riffs e teclas eletrônicas executados de forma variada e ameaçadora. O peso dessa peça faz com que a banda chegue a flertar até mesmo com o metal progressivo, apresentando alguns riffs de progressões muito legais, mudanças de humor e seções de teclados efervescentes. Um começo de disco que mostra muito bem muitas de suas credenciais e que serão encontradas nas faixas posteriores.  

“Milgram, 1960” mantém o disco dentro de uma sonoridade pesada – levando em conta o que a banda costuma fazer -, com sintetizadores dinâmicos e bons riffs de guitarra, além de uma seção rítmica forte e sólida. As mudanças de tempo características da banda também marcam presença bastante acentuada. Uma peça forte e muito empolgante. “Verset XV” mantém uma tradição das baladas da banda, evocando um clima sereno e pensativo. Começa com alguns acordes suaves e esparsos, além de teclas temperamentais que vão levar a um solo de guitarra maravilhoso, Louveton entrega notas limpas e claras que explodem em uma belíssima sonoridade atmosférica criada pelos demais instrumentos – sonoridade essa que acontece por toda a música. Delicada e contemplativa, a peça se aventura em território acústico, construindo camadas intensas antes de terminar de forma suave em uma nota acústica.  

“Un Pied Dans La Tombe” começo por meio de algumas notas fantasmagóricas de piano antes de ser aplacada por um riff pesado de guitarra. Louveton canta primeiramente de forma doce, mas depois alterna com momentos rosnados. A alternância entre sons sutis e pesados é excelente, Louveton mais uma vez faz um belo solo de guitarra. “Neuro-Market” tem como grande destaque as teclas de Guillaume Fontaine, sua performance no Hammond e piano não são menos do que brilhantes, enquanto que o restante da banda constrói uma cama instrumental intensa. Na sua parte final, a banda cria uma atmosfera sombria liderada por alguns pequenos “ataques” de guitarra. “Le Fruit De La Peur”, a faixa título, encerra a primeira parte do álbum. Possui uma grande carga emociona e de momentos melancólicos. Novamente Louveton oferece um solo escaldante de guitarra, há também um bom solo de sintetizador, enquanto que as linhas de piano – principalmente nos minutos finais - também merecem menção.  


CD2: 

“A La Une” dá início ao segundo disco por meio de uma mistura de partes acústicas e pesadas. Essa música sempre me remeteu algo que poderia ter sido criado pelo Rush. As belas harmonias também fazem com que o ouvinte se lembre de Porcupune Tree. Guitarras e sintetizadores mais uma vez criam solos que empolgam e energizam a peça. “Triste Fable”, algumas notas suaves de guitarra e de influência blueseira sobre um sintetizador sinfônico dão início a peça. A forma onírica com que ela vai se desenvolvendo, mais uma vez faz com que lembremos de Steven Wilson e sua banda. Um som belíssimo e dos mais acessíveis – embora eu ache esse disco todo acessível. 

“Allah Deus” é um número instrumental. Sem dúvida um dos destaques do álbum, com sua atmosfera divertida, funkeada e psicodélica, também possui uma linha de guitarra influenciada pela Flower Kings, além de ter em sua seção rítmica baixo e bateria formando uma dupla tempestuosa. “Opium” apresenta uma introdução acústica de influência no blues, ótimo piano elétrico e grande vibração jazzística. Quando toda a banda se reúne, a linha de baixo de Lionel Guichard se destaca pela sua potência - se tiver bons fones, melhor para captar isso bem. Os vocais de Louveton nessa peça são comoventes e sinceros. Solos estendidos de guitarra e sintetizadores sempre ornam a música com muita beleza. Sem dúvida é o momento com a vibração positiva mais contagiante do disco está nessa faixa. “Arma Diania” encerra o disco, um épico com mais de dezessete minutos, um tipo de música que eles sabem fazer muito bem. Traz de tudo um pouco, vocais pomposos, guitarra às vezes de delicadeza acústica e às vezes pesadas – o primeiro riff de guitarra, ainda na introdução é sensacional -, piano aprazível, sintetizadores selvagens e uma seção rítmica sempre bem orientada e fundamental para manter firme a cola entre todos os instrumentos. O ideal em relação a essa música é entender que ela é uma gama vertiginosa de várias mudanças de ritmo e humor. Simplesmente impossível pensar em um encerramento de disco melhor que esse.  

Como sempre, a banda entrega um disco onde suas músicas vão e vem, porém, sempre com intenções e direcionamentos claros. A banda mantém-se dentro de uma grande gama de influências, mas sempre usando bem a liberdade de implementar a sua forma única de criar música. Interessante, sofisticado, melódico e diversificado o suficiente para que muitos fãs de rock progressivo “perca” um grande tempo descobrindo todos os seus detalhes.  


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.



Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaAdrian Belew - E (2009)

    16/03/2022

  • Image

    ResenhaBig Big Train - Welcome To The Planet (2022)

    28/05/2022

  • Image

    ResenhaRick Wakeman - No Earthly Connection (1976)

    25/03/2020

  • Image

    ResenhaArlekin - Disguise Serenades (2014)

    03/11/2021

  • Image

    ResenhaTriumvirat - À La Carte (1978)

    17/06/2020

  • Image

    ResenhaOceansize - Frames (2007)

    31/10/2020

  • Image

    ResenhaNew Trolls - Concerto Grosso Per I New Trolls (1971)

    01/06/2020

  • Image

    ResenhaGolden Earring - Moontan (1973)

    10/03/2020

  • Image

    ResenhaDuffy - Rockferry (2008)

    02/07/2020

  • Image

    ResenhaCollegium Musicum - Konvergencie (1971)

    04/07/2018

Visitar a página completa de Tiago Meneses



Sobre o álbum

Le Ver Dans Le Fruit

Álbum disponível na discografia de: Nemo

Ano: 2013

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

Avalie

Você conhece esse álbum? Que tal dar a sua nota?

Faça login para avaliar

Visitar a página completa de Le Ver Dans Le Fruit



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.