Resenha

First Utterance

Álbum de Comus

1971

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

09/03/2022



Folk progressivo e psicodélico de faceta sombria

Quando ouvi falar pela primeira vez na banda Comus e o seu super cultuado First Utterance, foi em alguma comunidade do Orkut – o nome agora eu ficarei devendo. Lembro que o disco era colocado quase em um status sacro, por tanto, partindo dessa premissa, minha primeira impressão em relação ao disco acabou sendo de decepção, porém, não por ele não ter qualidade, afinal, ele é ótimo, mas simplesmente por eu não ter conseguido atingir o mesmo grau de satisfação que aquelas pessoas atingiram.  

Antes de qualquer coisa, é bom deixar claro que o folk progressivo encontrado aqui não soa na mesma linha gentil de bandas como Jethro Tull, Strawbs ou Gryphon, tudo é muito mais sombrio – algo que começa desde a sua capa. Um álbum de músicas assustadoras que serviriam perfeitamente para tocar como trilha sonora na cabeça de alguém com esquizofrenia ou até mesmo na de um assassino psicopata enquanto tortura suas vítimas. Quase que completamente acústica, sua música repleta de violino, violões e oboés vai desde linhas folclóricas e pastorais, até influências crimsonianas, mas sempre com enorme destreza e muitas vezes tudo na mesma peça.  

“Diana” mostra uma mistura entre música folclórica, música de câmara distorcida e psicodélica, tendo como resultado uma sonoridade meio estranha, mas mesmo assim, muito legal. Pensando em duas bandas, seria uma espécie de Jefferson Airplane com Curved Air. Ainda inclui um trabalho de violino muito interessante, além de uma espécie de treino de percussão. Uma música estranha, mas que também consegue ser atraente. “Herald”, com pouco mais de doze minutos é a faixa mais longa do disco, onde é mantido a linha folk inglesa, porém, de uma maneira que mais parece a trilha de um filme de terror. É possível captar as linhas folclóricas preenchendo a peça por toda a parte. Possui um final falso por volta dos quatro minutos, mas então que a direção musical muda para uma intrincada seção baseada em violão solo. À medida que vai se desenvolvendo, outros elementos começam a surgir. Após a faixa atingir uma sonoridade espacial, os vocais enfim regressam para encaminhar tudo pro seu final. Esse é um tipo de música que mostra o quão a banda é boa na arte da construção musical lenta – assim como faz o King Crimson.  

“Drip Drip” começa por meio de alguns slides guitar que cria uma vibe blueseira da velhíssima guarda, mas aos poucos vai se transformando em uma espécie de surto folk. Aqui vale mencionar as letras, algo bizarro, detalhando um assassinato na floresta. Mesmo que seja uma música simples, sua execução é bastante forte e cativante ao longo dos seus quase onze minutos. É possível perceber mais uma vez algo de Jefferson Airplane e Curved Air. Possui uma seção instrumental matadora em uma combinação folk progressiva com rock psicodélico. A combinação de bateria étnica, violão propulsor e violino frenético criam um clima completamente assustador.  

“Song To Comus” possui ótimos violões e algumas belas flautas. Se encontra em algum lugar entre o folk rock clássico, rock psicodélico e o folk progressivo. Talvez seja a composição mais completa do disco. Por mais que haja uma repetição de temas muito semelhantes – principalmente no violino -, em momento alguma a peça fica chata. A banda consegue usar perfeitamente os seus quase sete minutos e meio, a deixando em constante evolução. Uma música um tanto hipnótica. “The Bite” infelizmente esfria um pouco o disco, mesmo sendo uma música agradável no seu geral. Um progressivo folk psicodélico de vocais agudos – vocais que aqui não engrenaram muito bem. Como dito, apesar de não encantar, ainda assim, agrada com os seus violões e violinos esporádicos. 

“Bitten” é um simples exercício de dois minutos de dissonância que poderiam servir tranquilamente como trilha sonora de um filme de terror dos anos quarenta. De certa forma, ela consegue transmitir para o ouvinte uma sensação distintamente Krautrock. Uma peça instrumental e cinematográfica de pouco mais de dois minutos. “The Prisoner” encerra o disco o direcionando mais uma vez para uma linha folk inglês mais clássica. Mesmo sendo uma peça inconsistente, é muito bonita, com alguns arranjos psicodélicos muito bem acabados. A “briga” entre os vocais masculinos e femininos também acrescentam qualidade na faixa. Possui uma seção final frenética - tanto no sentido instrumental quanto vocal - e estranha de alguns efeitos etéreos. No geral, um fim de disco muito bom.  

First Utterance é com certeza um disco revolucionário e diferente de tudo o que foi feito antes se falarmos do universo da música folk, ao trazer uma sensação gótica e pagã com letras tristes e grotescas. Um disco que descreve com as suas letras chocantes, por exemplo, estupro, assassinato e doença mental de uma forma nunca vista antes no gênero. No geral, não o vejo como um disco pra se ouvir com grande frequência, se necessita de um clima, mas soa ótimo e cumpre muito bem o que se propõe fazer, entregando para o ouvinte o lado mais sombrio da música folk. 


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

First Utterance

Álbum disponível na discografia de: Comus

Ano: 1971

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 1 voto

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