Resenha

Glow

Álbum de Kaki King

2012

CD/LP

Por: Marcel Dio

Colaborador Sênior

03/03/2022



A garota prodígio

Tomei conhecimento sobre a canadense Kaki King já no começo, confirmando que não dei tanta importância por estar ligado em outros estilos musicais (falha imperdoável).
Ao começar ouvir seus álbuns com atenção, a percepção de talento inato veio como um raio, não só as peripécias como instrumentista, também como usa o violão como instrumento percussivo, já que toca e bate no corpo do mesmo com uma facilidade rítmica espantosa. Um belo exemplo é Playing with Pink Noise, onde a moça intercala tapping com as batidas percussivas, num tempo complexo, onde parece divertir-se ao violão, enquanto para muitos, nem em uma vida de estudos severos seriam capazes de recriar sua audácia, quanto menos conceber um análogo.

Consideremos que Kaki King não é tão conhecida nos circuitos brasileiros, apesar ter tocado até no Sesc, numa mini turnê por Araraquara, São José dos Campos e São Paulo. Lá fora e no país de origem é bastante requisitada. 
Em fevereiro de 2007, King foi nomeada "Guitar God" pela Revista Rolling Stone, sendo a primeira mulher a receber esse destaque em toda a história de publicações. 
Também foi convidada para a canção "Ballad of the Beaconsfield Miners" do Foo Fighters.
Contudo, parece que a indústria da música preocupa-se mesmo com as desnecessárias "divas" pop ou brindes para adolescentes, algo que exercite pouco o cérebro.

Glow é seu penúltimo de estúdio e por ai vão-se dez anos, a considerar o não tão recente The Neck Is A Bridge To The Body (2015). 
O amadurecimento sobre os anteriores é natural, até porque fez  dois álbuns questionáveis, sobretudo Junior (2010) que é o anterior a este e peca em peças sem tanto brilho.
Glow vira o jogo apostando em alguns temas de influencia árabe, na verdade ela cria seu próprio mundo em cada lançamento. Esse é um mais afastado e o melhor desde Legs To Make Us Longer. Em alguns meteu-se a cantar, e, convenhamos que sua voz não é a sétima maravilha do mundo.

Na abertura com Great Round Burn podemos saborear o lado semi-épico e o citado árabe em uma abordagem que soma ao folk. O violão trabalha mais como operário, deixando os teclados e outros arranjos ter o protagonismo.  

Great Round Burn tem sutis atmosferas que dão um clima denso de folk country. Pode parecer repetitiva, mas é uma questão enganosa por ser agradável em demasia.

Os dedilhados de Bowen Island são um sonho japonês de paz e musicalidade. Tão perfeito que se alguém ler a resenha sem ouvi-la, merece ser penalizado com um golpe de karatê. Se por ventura estiver com ansiedade (o mal do novo mundo) ouça Bowen Island com um incenso e deixe seus pensamentos seguiram para outro rumo, deixe que atravesse a ponte.

Chegar em Cargo Cult é descobrir um baú secreto, ingressar ao hermético. Poucas vezes uma canção foi tão misteriosa, passando emoção única sem ter uma palavra, elevando os que ouvem de tal forma que só um homem que não entende uma virgula sobre música deixaria passar batido. Postei Cargo Cult em vários grupos e isso aconteceu, divulguei o máximo que pude, procurando alguma alma para compartilhar a mesma alegria e angústia que era passada, não obtive respostas. Cargo Cult é como o quadro de Monalisa em que não entende se está sorrindo ou não, e nem é para compreender, apenas apreciar. 
Quando toca ao vivo Kaki King usa uma caixa de madeira ressonante para bater um dos pés para cumprir a função do bumbo, e no outro coloca um pandeiro tipo fita para dar outro ritmo.
Ouvindo-a e vendo o vídeo, é melhor ainda.

Outros destaques ficam por "Kelvinator, Kelvinator", "No True" "Masterpiece Will Ever Be Complete" e "Marche Slav".
É incompreensível que muitos vejam Kaki King como uma simples artista indie pop, ou deixem-na passar invisível num mundo onde o mar de mediocridade sonora ficou mais alto. 
Glow mostra uma prateleira de sons incomuns e também o amadurecimento da artista, que amadureceu num tempo imaturo, onde o óbvio ainda é um lugar confortável.


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Sobre Marcel Dio

Nível: Colaborador Sênior

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"Sou um amante da música, seja em qualquer estilo, rock, blues, jazz ou pop."

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Sobre o álbum

Glow

Álbum disponível na discografia de: Kaki King

Ano: 2012

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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