Resenha

Univers Zero

Álbum de Univers Zero

1977

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

22/01/2022



Dramático, assustador e inovador

Univers Zero foi uma das bandas fundadoras do movimento Rock in Opposition (ou somente RIO). Baseado nisso, já fica claro que estamos falando de um rock progressivo que não tem muito rock, digamos assim, na sua entrega musical, afinal, ao menos pra mim, junto do Zeuhl, o RIO se trata do subgênero mais difícil do rock progressivo. Durante todo o disco, tudo soa sombrio e obscuro, além de bastante sinfônico. Mas é nisso que a banda ganha uma grande admiração principalmente pelo público acostumado com música de vanguarda, pois apesar de suas texturas estranhas e movimentos não lineares, também há beleza naquilo que é apresentado.  

A visão e a habilidade composicional, juntamente com as performances de cada um dos músicos - que obviamente eram mestres em seus instrumentos -, fazem com que eu fique completamente em transe ao ouvir esse álbum. O baterista e principal compositor, Daniel Denis, toca de uma forma tão incomum, que mais parece o trabalho de um percussionista de orquestra clássica. Outra característica evidente fica por conta da clareza da gravação de todos os instrumentos.  

“Ronde”, com os seus pouco mais de quinze minutos é a maior do disco. Uma peça inquestionavelmente sombria, mas ao mesmo tempo de toques alegres. Durante toda a faixa, é possível perceber que estamos dentro de um trabalho de contrastes. A bateria possui alguns ritmos repetitivos, mas extremamente sincopados e complexos. Instrumentos que no geral vimos soar de forma melódica, aqui entregam sons estranhos e dissonantes, porém, dentro de uma proposta que não deixa de ser coesa. Uma música muito desafiadora e que não é indicada a um ouvinte casual, pois estamos diante de uma incursão livre e de exploração musical extremamente variada, ficando muito difícil catalogar todos os seus vários movimentos, pois parece que eles em poucos segundos estão sempre se transformando em algo novo.  

“Carabosse” possui uma melodia assustadora, menos dinâmica e com menos cacofonia, com os instrumentos combinando muito bem, destacando-se entre eles as excelentes linhas de violino que trazem uma espécie de beleza lúdica e que nos remete a trilha sonora de desenhos animados old school. “Docteur Petiot” entrega para o ouvinte uma sensação de rock muito maior do que a que houve nas faixas anteriores. A melodia do violino combina muito bem com a bateria frenética. No meio ainda há uma passagem de fagote com texturas quase clássicas que é simplesmente brilhante. Dentro do que é o Rock in Opposition, de certa forma é um som até meio acessível.  

“Malaise” é outra peça em que dentro do gênero podemos chamar de acessível. Se a intenção é querer escutar rock, provavelmente você pode ficar decepcionado, mas se a ideia é ouvir uma peça que se move de forma intrigante e por meio de sons intensos, bom, aí seja bem-vindo a “Malaise”. Violino, fagote e percussão se encaixam muito bem. Todos têm uma fatia igual dentro dessa loucura. É possível notar algo de King Crimson aqui, mas com uma vibe mais experimental e vanguardista. Sem dúvida um dos momentos mais interessantes do disco. “Complainte” encerra o disco de maneira brilhante. Com menos de três minutos e meio, é a faixa mais curta, sendo uma trilha lenta e deprimente, novamente com excelente trabalho de fagote e de cordas, além de melódica e semelhante a música de câmara. Uma peça clássica e livre por natureza. Um ótimo final para o disco.  

Em sua estreia, a banda pegou certos aspectos dos picos da música clássica, jazz e rock – esse em menor escala – na forma de música de câmara e criou algo extremamente sombrio e místico, porém, acessível o suficiente para não soar apenas como um rabisco sonoro qualquer, permanecendo assim, sempre dentro de uma norma musical lógica.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Univers Zero

Álbum disponível na discografia de: Univers Zero

Ano: 1977

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,67 - 3 votos

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