Resenha

Brave

Álbum de Marillion

1994

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

17/01/2022



Combinação de música atmosférica, emocional e extremamente poderosa, além de letras tocantes

Conversando essa semana com um casal de amigos e que foram unidos – entre outros motivos – pelo amor em comum que ambos têm pelo Marillion, entramos no assunto que parece que nunca fica batido, ou seja, a banda pós Fish. Em meio a muitos pontos de vista, concordamos em uma coisa, por mais que o grupo tenha lançado muitos discos dispensáveis, não há como negar que existem momentos significativos na discografia nesse período - que inclusive já tem mais de 30 anos -, sendo que Brave é certamente um desses momentos.  

Brave é baseado na história real de uma jovem que foi encontrada vagando em uma ponte, mas que não podia ou não queria falar com as autoridades, e nunca foi identificada apesar do alcance nacional por meio da mídia, já que nenhum parente da moça apareceu. Marillion imagina aqui uma "vida" para ela, evocando uma atmosfera cheia de melancolia e trazendo à tona todas as suas sensibilidades musicais de forma bem afinadas e entregues lindamente entre baladas, rock enérgico e linhas "atmosféricas" estendidas. A banda combina os seus sons lindamente. 

“Brigde” inicia o disco lentamente e de forma bastante ambiental, deixando claro por meio das densidades dos teclados que a vibe do álbum será bastante sombria. Alguns sons, tanto de água, quanto do que parece vir de transmissões de carro de polícia, também criam um excelente clima, deixando a entender que eles acabaram de encontrar a jovem. O que vem em seguida é o primeiro flashback. "Living with the Big Lie" é onde podemos dizer que de fato o disco começa. Uma das músicas mais pesadas do álbum e onde ouvimos como ela – a garota - nasce e consegue lidar com todas as sensações estranhas em seus anos de criança e as experiências frustrantes com o “sistema” na adolescência. Apesar de começar por meio de uma sonoridade minimalista, a peça vai entrando em uma crescente a partir dos dois minutos até chegar no ponto em que explode trazendo um solo de guitarra. Após silenciar por um breve momento, a música agora possui é um tom mais pesado, acalmando-se apenas conforme vai desaparecendo lentamente para que a balada que a sucede possa começar.  

“Runaway” é belíssima - uma das melhores músicas de todo o catálogo do grupo. A voz de Hogarth se adapta perfeitamente ao clima proposto pela letra, em que conta como ela tenta fugir de seus pais, dos quais o pai aparentemente a abusa sexualmente. Toda a raiva mostrada na letra é expressada por Hogarth, certamente o grande destaque da peça - que ainda possui um lindo e melódico solo de guitarra. “Good Bye to All That” é uma suíte de cerca de doze minutos e meio, mas dividida em cinco partes - “Wave”, “Mad”, “The Opiun Dean”, “The Slide” e “Standing the Swing” - e que possui a mesma melodia vocal de “Bridge”. Trata-se do segundo flashback do disco, contando entre outros relatos, suas experiências durante o uso de drogas – isso nas quatro primeiras partes. Em “Standing the Swing” a história volta para a delegacia, onde a garota tenta entender o motivo de todos quererem perder tempo com ela, enquanto existem coisas mais importantes acontecendo nas ruas – como assassinatos e tráfico de drogas. É como se as pessoas não entendessem que já é tarde demais para salvá-la. As letras evocam tal sensação de desesperança que é impossível não ser atraído para o mundo dessa garota. Realisticamente a peça torce e vira seu caminho através de sentimentos de confusão, raiva e depressão. Musicalmente, podemos dizer que em “Good Bye to All That” é concluído a primeira parte do álbum, além de ser perfeitamente projetada para aprisionar o ouvinte neste mundo que se estende até mesmo além do disco. 

"Hard as Love", como o próprio nome sugere, o relato é sobre os seus amores complicados, seja em relação aos seus pais, ou em relação aos seus namorados. Começa de forma não muito chamativa, sendo apenas um rock padrão e nada mais que isso. Mas na parte intermediária, cordas e piano mostram que ainda estamos diante de um disco de rock progressivo – tendo também lindas pinceladas de guitarra. Então a música volta para uma atmosfera mais animada – e até mesmo agressiva – e com mais uma ótima entrega vocal de Hogarth. "The Hollow Man" muda o disco completamente em termos de atmosfera. Os vocais sobre belas notas de piano possuem a sensibilidade necessária para descrever o estado vazio e sem emoção que resultou de suas experiências passadas. A partir da segunda metade, o piano e voz ganham a companhia de uma sonoridade sinfônica e bateria suave. 

“Alone Again in the Lap of Luxury” é mais uma peça em que é colocada a situação dentro de sua casa – vivendo com um pai que abusa dela e uma mãe ignorante. A sua primeira parte é um dos momentos pop do disco – sendo inclusive um dos singles, mas se engana quem pensa que isso é algum problema. Bastante memorável, contem também um dos melhores trabalhos de guitarra de toda a carreira de Rothery. "Paper Lies" é uma música que eu nunca a entendi muito bem, não sei qual é a sua vibe. Não quero dizer que não gosto dela, acho ela bem legal até, mas temos que concordar que parece meio deslocada do restante do álbum. Musicalmente o maior atrativo aqui é o uso de mellotron. Lida com as mentiras e desinformação da mídia.  

“Brave” dá início a última e mais deprimente parte do disco. Começa por meio de um acorde sinistro e de tirar o fôlego enquanto que uma gaita de foles toca sobre ele. A performance vocal de Hogarth por cima desse som ambiente é simplesmente incrível. Todo esse clima atmosférico - que mais para o final também inclui risadas e sussurros - consegue transmitir muito bem a ideia da peça, ou seja, descrever o estado emocional da garota. “The Great Escape" é uma faixa que possui três movimentos e também onde a história chega ao fim. Não tem como não se arrepiar com essa música, a banda libera todas as emoções que foram sustentadas até aqui. Não faz sentido alguém questionar a performance e entrega de Hogarth nessa faixa. Dentro de uma harmonia belíssima, na primeira parte nos conta como que a garota decide cometer suicídio, na segunda o que temos é uma declaração ao pai dela, “como você pôde ferir aquele que deveria ter protegido?", na terceira e última, ela tenta explicar porque quer cometer suicídio. Apesar de no filme esse suicídio de fato ter acontecido – apenas sei disso, nunca o assisti – no álbum isso fica um pouco em aberto, porém, na minha interpretação ela cometeu sim. Esse era pra ser o final do disco, porém, esse final tão triste não era exatamente o que a gravadora queria – na verdade, o disco todo não tinha muito o perfil do que eles queriam – e com isso, decidiram incluir, “Made Again”, para que o álbum fechasse de uma forma mais positiva, edificante e otimista, mesmo que desconexa em relação ao resto disco. Mas mesmo assim, a banda conseguiu tirar proveito disso e após uma história tão sombria, entregou para o ouvinte uma peça que pode servir como mensagem de esperança sobre o fato de poder haver algo de bom surgindo de todos os seus problemas. 

A intensidade de Brave é tão grande, que apreciá-lo depende muito do meu estado de humor. Fiz questão de citar o nome Hogarth algumas vezes, pois acho que muitos já foram bastante injustos com ele. Em Brave, o vocalista faz uma performance irretocável do começo ao fim e certamente é um dos – ou mesmo até o maior – destaque do disco. A combinação da música atmosférica, emocional e extremamente poderosa, além de letras tocantes, resulta em um dos álbuns conceituais mais incríveis da história do rock progressivo. Exagero da minha parte? Nenhum pouco, todos os louros lhe são mais do que merecidos.  


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.


1 comentário:

user

André Luiz Paiz 19/01/2022

Webmaster

19/01/2022

Esse disco é um dos meus favoritos de todos os tempos. Possui uma magia espetacular.

Faça login para comentar



Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaFrank Zappa - Hot Rats (1969)

    13/04/2021

  • Image

    ResenhaNeal Morse - Sola Scriptura (2007)

    20/03/2020

  • Image

    ResenhaBig Big Train - Folklore (2016)

    24/01/2020

  • Image

    ResenhaLe Orme - Felona e Sorona (1973)

    19/10/2017

  • Image

    ResenhaArlekin - Disguise Serenades (2014)

    03/11/2021

  • Image

    ResenhaCervello - Melos (1973)

    16/05/2018

  • Image

    ResenhaLed Zeppelin - Physical Graffiti (1975)

    26/01/2018

  • Image

    ResenhaLa Maschera di Cera - S.E.I. (2020)

    07/11/2020

  • Image

    ResenhaRick Wakeman - Aspirant Sunrise (1991)

    22/03/2021

  • Image

    ResenhaPorcupine Tree - Stupid Dream (1999)

    04/04/2020

Visitar a página completa de Tiago Meneses



Sobre o álbum

Brave

Álbum disponível na discografia de: Marillion

Ano: 1994

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,42 - 6 votos

Avalie

Você conhece esse álbum? Que tal dar a sua nota?

Faça login para avaliar

Veja mais opiniões sobre Brave:

  • 01
    jun, 2020

    Ouça alto e com as luzes apagadas

    User Photo André Luiz Paiz

Visitar a página completa de Brave



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.