Resenha

Cowboy Poems Free

Álbum de Echolyn

2000

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

16/01/2022



Vocais excelentes, belas harmonias, letras inteligentes e musicalidade variada, além de bastante cativante

Após o desastre de uma relação complicada com a Sony, a banda se separou pouco depois do lançamento de As The World em 1995, pois não conseguiram atingir os grandes centros que catapultasse o seu som da forma que queriam – se isso fosse hoje em dia, com a popularidade da internet, muito provável que eles teriam conseguido se autoajudar. Então os membros da banda seguiram seus próprios caminhos, Brett Kull, Ray Weston e Paul Ramsey formaram a Still e Chris Buzby criou a Finneus Gauge com seu irmão percussionista, John Perlson. Mas depois de alguns anos separados, Chris e Brett entraram em contato um com o outro e começaram a conversar sobre a reunião de sua antiga banda, com isso, escreveram algumas músicas - dez pra ser mais exato. Com esse material em mãos, chamaram Ray e Paul e adicionaram Jordan Perlson na percussão para colocarem a Echolyn na ativa novamente – o baixista Tom Hyatt só voltaria para a banda no disco The End is Beautiful de 2005, com isso, Ray Weston também tocou baixo na banda durante esse período.  

Cowboy Poems Free é um disco conceitual, onde a banda traz uma narração dos conflitos da américa, tanto os domésticos quanto os estrangeiros. Uma visão gloriosa e às vezes oprimida tanto do quadro geral, quanto dos elementos mais comuns da vida. Cada faixa é tratada com respeito (embora haja um toque de sarcasmo de vez em quando). As letras, muitas vezes sombrias, são geralmente justapostas com músicas que evocam um sentimento oposto, o que por incrível que pareça, contribui para a natureza poderosa deste trabalho. 

Algo que fica bastante claro no disco, é que a banda não “reencarnou” exatamente com o mesmo tipo de som - pelo menos aqui nesse álbum - feito por eles nos álbuns antes de encerrarem as atividades em 1995, trazendo uma sonoridade mais evocativa na linha do blues-rock, com menos sintetizadores, mais órgãos e muita percussão, além de guitarras bastante enxutas. A comparação inicial a deixa mais longe de bandas de rock progressivo sinfônico e a coloca próximos de bandas americanas de “jam”. Quer dizer que não se trata de um disco de rock progressivo? Não é isso, ainda é sim um disco de composições fortes e progressivas, porém, são menos que as encontradas em Suffocating The Bloom de 1992 e As the World de 1995.  

“Texas Dust” já começa o disco de forma muito enérgica e surpreendendo com uma percussão que se eu não soubesse de quem era, diria ter sido tirada de alguns dos primeiros discos do Santana. A guitarra funky inicial mostra um estilo de som ainda não tocado pela banda. Possui refrão excelente, além de teclas e guitarras melódicas. Um começo de disco de tirar o fôlego. “Poem #1”, com os seus pouco mais de um minuto e meio, traz uma sonoridade atmosférica que pode ser colocada em algum lugar entre Pink Floyd e Hawkwind e que serve como uma ligação perfeita para a peça seguinte.  

“Human Lottery” traz novamente o disco para um caminho musical eletrizante. Possui um ar de rock 70’s que junto de melodias vocais cativantes e letras excelentes, ligam a peça em uma alta voltagem. Por meio de mudanças de andamentos, há uma mescla de sons modernos e retrô na medida certa e que a transformam em uma composição extremamente forte. “Gray Flannel Suits”, quando os vocais entraram pela primeira vez nessa música, eu consegui imaginar algum filme de sessão da tarde, tamanho o tom otimista dela, nada nesse disco pode ser tão acessível. Mas isso não quer dizer que não seja boa. “Poem #2” com cerca de um minuto, novamente tem uma boa atmosfera e que serve de introdução para a peça seguinte.  

“High As Pride” começa com um piano e voz que é difícil não lembrar do Marillion – era Fish. Os vocais são belíssimos e nostálgicos, enquanto que a seção instrumental se cobre com uma linda harmonia onde destaca-se o trabalho de slide guitar – que lembra Steve Howe. “American Vacation Tune” começa com um swing cativante de guitarra e depois toda a banda entra na peça entregando mais uma vez um tipo de som bem retrô. Tirando um momento falado que acontece já depois da metade da música, ele segue basicamente no mesmo ritmo alto astral que começou. “Swingin' The Ax” tem um começo acústico que lembra um pouco de Led Zeppelin, sendo o restante baseado em uma linha blues-rock clássica.  

“1729 Broadway” implanta uma carga mais depressiva no disco, falando sobre um homem longe da família que daria tudo para poder vê-la. Liricamente é mais interessante que musicalmente, pois mesmo sendo linda, não sei se o momento do disco era esse para trazer algo mais “desanimado” - exceto por alguns segundos mais progressivo perto do fim. “Poem #3” começa pegando um gancho deixado pelo violão da faixa anterior. Violão, bateria e saxofone são tocados com delicadezas e de forma elegante, soando bem jazzístico. Memorável? Nenhum pouco, mas tem seu breve encanto. “67 Degrees” começa por meio de alguns sons sombrios e atmosféricos até que toda a banda se junta e começa a desenvolver a faixa em uma linha de balada progressiva. Uma peça bastante forte e de ótimo arranjo vocal – em alguns pontos eu vejo um tipo de vocal que me lembra Metallica.  

“Brittany” inicia-se com um forte trabalho de percussão e banjo indiano, mas que logo sede espaço para um rock progressivo mais cru. O refrão considero o melhor do disco. Os segmentos finais da peça são os destaques, com a construção de arranjo novamente baseada no rock retrô. É certamente um dos destaques do disco. “Poem #4” é o único entre os quatro “poemas” que contém letra. Possui uma textura meio assustadora e no geral segue a linha das peças anteriores, ou seja, serve como uma vinheta dentro do disco e que não compromete. “Too Late For Everything” é o ponto final do disco. É possível perceber um leve aceno ao jazz do Steely Dan. A mensagem deixada pelo personagem é no mínimo dolorosa, relatando o inferno que a guerra pode ser e da saudade de casa que ela produz, sendo tudo isso dito sobre uma sonoridade emocional que mais a frente vai desaparecendo em fade out e finalizando o disco lindamente.  

Uma grande ausência que pode ser sentida aqui é a do baixista Tom Hyatt, pois embora Ray Weston consiga segurar bem as pontas, obviamente não faz com a mesma dinâmica e complexidade de Hyatt. Por outro lado, a adição de Perlson na percussão deu a banda outra faceta ao seu som, a deixando com um ar até mesmo lúdico em determinados pontos. Mas real mesmo é que independente de qualquer coisa, Cowboy Poems Free mostra mais uma vez uma banda com vocais excelentes, belas harmonias, letras inteligentes e musicalidade variada, além de bastante cativante. 


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Cowboy Poems Free

Álbum disponível na discografia de: Echolyn

Ano: 2000

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 1 voto

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