Resenha

Disobey

Álbum de Comedy Of Errors

2011

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

14/01/2022



Antes tarde do que nunca

Antes do ano de 2011, o nome da banda escocesa, Comedy Errors”, era algo praticamente desconhecido até mesmo por grandes estudiosos e especialistas em neo progressivo. Levanto em conta que a banda já existia a vinte e cinco anos, isso não é algo muito comum, porém, antes de Disobey, o único material lançado pela banda até então foi uma demo em 1988. Então que somente no ano de 2011 a banda lançou esse que é oficialmente seu primeiro disco. Como já dizia a frase, “antes tarde do que nunca”, e eles criaram um álbum muito satírico e espirituoso que possui material mais do que o suficiente para enfim colocar o nome da banda no mapa do rock progressivo contemporâneo.   

Bastante melódica, a música de Disobey em partes é acessível, com influências principalmente em Pendragon e Pallas. Alguns momentos do disco podem ser considerados até mesmo pop e em contrapartida possui um épico de vinte e seis minutos. Talvez por terem ficado parados por tanto tempo, é compreensível que essa banda em sua estreia tivesse muitas ideias musicais que quisessem expressar, e isso se traduz em um álbum que não é tão consistente quanto álbuns mais significativos do estilo, mas certamente a muito o que aproveitar aqui.  

O disco começa por meio da faixa título, “Disobey”. Trata-se de uma peça de nuance bastante arrastada e atmosférica – sendo esses dois os seus principais atrativos. Uma peça clássica de neo progressivo em seu estilo mais suave, tendo como o seu maior destaque uma grande parede criada pelos sintetizadores. Vale mencionar também a voz de Joe Cairney que apesar de ser de uma pessoa experiente, soa extremamente jovem.  

“Jekyll” mantém o disco em alto nível. É uma peça de sonoridade muito otimista que se inicia baseada em sintetizadores. O trabalho de violão e guitarra são excelentes e combinam perfeitamente com os efeitos das teclas que criam um coral que acrescenta um ar atmosférico edificante à faixa. Apesar não ser algo novo propriamente dito, não tem como negar que se trata de uma boa música de neo progressivo.  

“Prelude, Riff And Fugue” é uma belíssima faixa instrumental que explora principalmente um ótimo trabalho de teclado e um solo impressionante de guitarra. Conforme a peça vai se desenvolvendo, ela vai envolvendo cada vez mais o ouvinte por meio de suas harmonias muito bem compostas por ótimos instrumentistas. A guitarra principal aqui é cativante. “Carousel”, o que vocês achariam da ideia de uma música reflexiva que descrevesse os desafios do processo de envelhecimento visto através dos olhos falhos de um homem velho? É isso que a banda faz aqui. Começa com algumas notas de sintetizadores por baixo de belas notas de violão e um solo melódico de guitarra. Acho justo colocá-la em algum lugar entre o rock progressivo sinfônico e o neo progressivo. Tudo segue calmo até chegar mais ou menos nos três minutos, que é quando a peça que até então se movia lentamente – ainda que de forma crescente – tem o seu ritmo quebrado por uma mudança que a deixa mais enérgica, momento em que destaco o solo de guitarra. Ao mesmo tempo em que a banda mostra um grande talento instrumental na música, há espaço para que Cairney mostre seus talentos vocais. O som ambiente que finaliza a faixa é lindíssimo, teclado atmosférico, violão e guitarra em perfeita harmonia. Esse som lembra algo que poderíamos encontrar em algum disco do Pendragon.  

“American Rodeo”, aqui a banda escolhe mergulhar em uma sonoridade mais direta e sem muitos “rodeos” - piada péssima. Mas real é que se trata de uma faixa simples, com um solo de guitarra muito bom no meio que é apoiado por um trabalho criativo de teclado. Não há muito o que se ouvir aqui se você quer explorar a banda no seu melhor. “Could Have Been Yesterday”, quando escutei essa música pela primeira, vez me veio instantaneamente “The Wizard” do Uriah Heep em mente. O refrão é tão cativante que tem potencial e qualidade para ser um hino – talvez até seja para os mais apaixonados pela banda e que estão por dentro das apresentações ao vivo do grupo.  

“Ailsa's Lullaby” é uma curta faixa instrumental com os seus pouco mais de um minuto e meio. Como o próprio nome sugere, é uma “canção de ninar” dedicada a Ailsa – filha de Jim Johnston. No encarte a banda também dedica todo o álbum a ela. É basicamente uma bela peça ao piano que serve como uma boa ligação para a faixa seguinte. “Joke” por algum motivo – completamente inexplicável - me lembrou um pouco de Supertramp. A guitarra solo mais uma vez é o grande destaque dessa excelente balada progressiva.  

O que vem agora é o grande épico, “The Student Prince”, que é dividido nas próximas quatro faixas, mas falarei delas como uma peça só - até porque é como eu acho que elas devem serem vistas. Se trata de é uma reflexão poética sobre a decepção de uma vida que não saiu como o esperado, tudo sendo contado por cima de uma música progressiva extremamente bela e enigmática. Os trabalhos de guitarra e teclados são bastante dinâmicos durante todos os vinte e seis minutos, enquanto que baixo e bateria criam seções rítmicas muito bem construídas. Há alguns momentos em que a banda cria uma música furiosa, outros mais silenciosos, mas acima de tudo, sempre bem direcionado. Os vocais aqui também merecem menção, pois se adaptam muito bem em cada um dos momentos da letra. Um final de disco que não podia ser melhor.  

Foram vinte e três anos desde a demo lançada em 1988 para finalmente o lançamento do primeiro disco em 2011. Valeu a espera por todos esses anos? Na verdade, não houve espera, pois ninguém nem acreditava mais que eles fossem se reunir novamente algum dia, mas de qualquer maneira, Disobey vale e muito a pena. Não indico apenas para pessoas que apreciem neo progressivo, pois suas grandes inclinações sinfônicas tem a capacidade de expandir sua música para um número maior de amantes da música progressiva.   


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Disobey

Álbum disponível na discografia de: Comedy Of Errors

Ano: 2011

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 1 voto

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