Resenha

As The World

Álbum de Echolyn

1995

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

14/01/2022



Arranjos e estruturas complexas, além de ótimas composições

Quando falamos de uma banda como a Echolyn, estamos falando de um dos mais interessantes nomes do rock progressivo surgido nos anos noventa em diante, tendo um enorme potencial para se tornarem grandes, mas que infelizmente devido aos grandes esquemas e a maneira de como a indústria funciona, eles acabaram nunca decolando como mereciam. Mas falar desses problemas desviaria muito o assunto até que eu começasse a escrever sobre o que de fato importa aqui, ou seja, a sua música.  

Possuem certamente uma das mais firmes e belas harmonias vocais do rock progressivo, sendo esse o principal motivo do Gentle Giant ser sempre o primeiro nome a ser lembrado quando falamos de suas influências. As The World mostra muito bem as grandes características da música da banda, onde uma ótima mistura musical acontece por meio de uma fusão de elementos, estilos e arranjos complexos e que combinados formam uma grande harmonia, sendo esse o ponto forte da banda. Acima de qualquer influência, vale também sempre lembrar o quanto o grupo consegue ser original.  

“All Ways The Same” é uma introdução de pouco mais de trinta segundos de cordas e vocal. “As The World” começa por meio de um violão veloz. A passagem é um dos momentos mais Gentle Giant que a banda tem – mesmo assim eles também sabem ser distintos – onde até mesmo o solo de guitarra faz lembrar um pouco de “Peel the Paint” Possui um refrão bastante otimista, além de memorável. “Uncle” tem um baixo funky e uma bateria com bom groove, então que entram os versos fortes. Piano e guitarra são sem dúvida os destaques aqui, onde um coopera muito bem com o outro. Uma faixa bastante dinâmica. 

“How Long I Have Waited” é sem dúvida uma das melhores músicas do disco. O ritmo da guitarra é excelente e os vocais de Weston estão na sua melhor forma. As linhas de baixo são incríveis, e quando juntas de uma bateria perfeita, cria-se uma daquelas seções rítmicas de tirar o fôlego. O refrão é ótimo e muito suave, grudando fácil na cabeça do ouvinte. "Best Regards" tem um começo acústico que abre muito bem uma faixa mais pesada – mas tocadas em notas otimistas. "The Cheese Stands Alone" possui versos alegres, refrão suave e uma seção instrumental penetrante. No geral uma música muito lúdica que varia de sonoridade excêntricas a até “canções de ninar”.  

As próximas cinco faixas fazem parte do épico de cerca de vinte minutos, “Letters”.  

“Letters - Prose”, com menos de dois minutos, oferece um belo piano que em seguida ganha a companhia de algumas notas de violão e sutis linhas de baixo, até que uma suave bateria dita o ritmo por alguns segundos antes de irmos para a faixa seguinte. “Letters - A Short Essay", apesar de pegar embalo na suavidade deixada pela faixa anterior, aqui a banda não demora para demonstrar um som mais enérgico que inclui um refrão rápido e um solo de guitarra envolvente por cima de vocalizações. Falando em vocais, aqui eles são bastante expressivos. "Letters - My Dear Wormwood” mostra o quanto a banda se inspirou no livro The Screwtape Letters – ou Carta do Diabo ao seu Aprendiz aqui no Brasil – de C.S.Lewis para criar esse épico. Sobre algumas letras que que parece um demônio mais experiente falando com outro, aqui a banda entrega uma peça bastante jazzística. "Letters - Entry 11.19.93" começa por meio de uma atmosfera sinfônica e serena, os vocais de Weston soam quase como um abraço de conforto. Instrumentalmente o trabalho sinfônico ao fundo certamente é o destaque. “Letters - One for the Show" possui uma construção muito bonita, começando primeiro apenas com violão e voz antes de a banda entrar completa. No meio há um pequeno e lindo solo de piano que precede o de guitarra. Todas as cinco faixas juntas formam um épico consistente e coeso do começo ao fim. Aconselho sempre ouvir as faixas juntas e na ordem.  

“The Wiblet” com os seus pouco menos de cinquenta segundos, entrega um som que ao mesmo tempo que aponta para várias direções, não parece ir a lugar algum. Considero um momento desnecessário no disco – embora não chegue a de fato comprometer. "Audio Verite" começa com um teclado meio circense sobre uma seção rítmica muito boa e um riff de guitarra que infelizmente achei que ficou muito baixo. É quase um pop rock. "Settled Land" é uma balada que possui algumas excelentes harmonias vocais e um belo trabalho de teclas. Há uma referência à It, obra de Stephen King,"We all float down here", quando a peça fica sombria por alguns segundos.  

“A Habit Worth Forming”, o vocal sereno de Weston junto de algumas notas ao piano inicia a peça - o piano dessa música é o mais bonito do disco. Por volta dos três minutos a música sofre uma mudança de andamento seguida de um solo enérgico de guitarra que a acompanha até o seu fim em fade out. “Never The Same”, sabe aquela frase que muitas pessoas dizem, “queria que tocasse essa música no meu funeral”? Essa peça que fecha o disco é um bom exemplo e que combina bastante com esse tipo de vontade mórbida. Um violão soberbo, linhas sinfônicas belíssimas, harmonias vocais perfeitas como sempre, flautas pontuais muito bem posicionadas e seção rítmica elegante. A primeira metade é suave e a segunda aos poucos vai ganhando uma sonoridade mais pomposa. Um final de disco maravilhoso que se despede do ouvinte em fade out.  

No geral, a banda entrega um disco de rock progressivo que exige uma boa atenção auditiva para que possamos entendê-lo bem. Um disco altamente recomendado para os fãs de rock progressivo mais aventureiros e de mente aberta, pois a sua musicalidade é incrivelmente alta e todos os músicos - incluindo os vocalistas – desempenham suas funções com habilidades ímpares.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

As The World

Álbum disponível na discografia de: Echolyn

Ano: 1995

Tipo: CD/LP

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