Resenha

Nebulae

Álbum de Hemina

2014

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

10/01/2022



Nebulae é metal progressivo melódico com um toque emocional inteligente

Em seu segundo disco, Nebulae, os australianos da banda de metal progressivo, Hemina, foram mais econômicos e entregaram um álbum de “apenas” pouco mais de sessenta minutos, mas novamente de uma qualidade incrível - e nada surpreendente, já que em sua estreia eles já chegaram chutando a porta. Em relação ao seu predecessor, Nebulae apresenta uma sonoridade mais acessível, mas nem por isso, menos atrativo, afinal, existem tantas coisas compactadas nesse disco que a cada audição o ouvinte é agraciado com recompensas mais profundas.  

Nebulae trata de um disco conceitual, mais precisamente de uma viagem pelos sonhos. Como resultado, as canções são representatividades das explorações episódicas do personagem principal em várias faces do seu ser. De desejos lascivos à uma necessidade de amor verdadeiro, de delírios de algo maior à um caso grave de megalomania, a história possibilita uma música que é tão variada quanto coesa, entregando do início ao fim partes iguais de belas melodias, musicalidade e emoção.  

“Before” começa por meio de um lento sintetizador que logo ganha a companhia dos vocais e algumas notas de violão que rapidamente define o tom do disco. Não demora muito para que a faixa cresça em uma sonoridade potente, mas que em seguida quebre para um teclado solitário que faz uma ponte perfeita para a peça seguinte. “Nightlives” começa com algumas batidas fortes, riff selvagem de guitarra e solo de sintetizador antes do vocal entrar pela primeira vez. Os vocais são limpos e muito bem harmonizados – sendo um dos destaques. Há algumas explosões repentinas de som em uma seção ambiente que tem efeito dramático. Um solo de guitarra e teclado finalizam a faixa e entregam logo de cara uma das melhores do disco.  

“Freedom” segue com o disco em grande energia que são condensadas em pouco mais de três minutos. Alguns rosnados de Douglas soam como Devin Townsend. A peça possui alguns ritmos irregulares que eu particularmente adoro. Sem dúvida é a música mais acessível do disco. O tipo de música que pode crescer no ouvinte a cada escuta. A quebra de solo é simplesmente matadora e funde-se muito bem à um solo frenético de teclado. Enfim, uma faixa de groove e melodia em abundância. “Lust” começa por meio de um surpreendente groove funkeado que lembra até mesmo a disco dos anos setenta. A linhas de baixo parecem ter sido tiradas de algum material da Earth Wind and Fire. Combinando sem esforço os mundos aparentemente díspares do funk e R&B com djent, a experiência resultante é divertida e inspiradora. A peça é uma prova clara dos talentos criativos e inovadores da banda.  

“Soulmates” é uma música atmosférica que reverbera com vibrações acústicas. É possível perceber em suas letras uma sensação de mistério. A peça simplesmente flutua por meio de um ambiente criado principalmente pelo teclado e violão - enquanto que os vocais acariciam os espaços entre eles. É a primeira vez em que Jessica entrega a sua voz isoladamente em uma faixa da banda. Eu particularmente adoro como Douglas e Jessica são capazes de equilibrar os estilos um do outro em canções melancólicas e emocionantes, parecendo que eles usam o amor entre eles que estão envolvidos na vida real para deixar tudo ainda mais profundo, mas obviamente, sem a atrapalhar a curva narrativa do álbum. “Strength” direciona o disco para trilhas mais pesadas após a faixa melancólica anterior. Pesada, também possui bastante groove e uma das mudanças de acordes mais interessantes do disco, além de ter uma melodia infecciosa com a capacidade de grudar rapidamente na cabeça de quem a escuta. Ritmos ardentes e duelos de guitarra de tirar o fôlego são mais alguns dos atrativos, ondas arrebatadoras de cordas e vocais em camadas – o que não é novidade alguma, mas como é sempre feito com maestria, merece ser citado. Ainda acaba havendo espaço para um solo final guitarra matador.  

“Loss” mantém o disco em um ritmo constante com distorção e uma melodia forte. A melodia não é muito fácil de ser capturada, principalmente por estar acontecendo muita coisa em um ritmo frenético - inclusive isso acaba sendo o motivo de não ser um problema o fato de não ser uma melodia fácil. As guitarras são excelentes e muito bem complementadas por algumas explosões de sintetizadores. O refrão é memorável e a parte orquestrada permeia o núcleo da peça de forma brilhante. “Hope” tem como força dominantes seus vocais fortes e apaixonados. A abertura lembra uma estética de som semelhante da usada no início de "The Boy Is Dead" - faixa do primeiro disco. Durante uma quebra de ritmo no meio da faixa, há uma linda passagem feita por um violão onírico que acompanha um belo solo de guitarra e que é seguido pelo vocal expressivo e profundo de Skene. Também oníricos são as vozes do coro que encerram, “Hope”, vozes repletas de reverberação, que servem como um interlúdio para a próxima faixa.  

“Promise” começa por meio de uma explosão instrumental liderada por duas guitarras em camadas. Após os primeiros vocais de Douglas e Jessica, a peça silencia em um piano bastante suave que tem como companhia apenas a voz de Skene. Seus ritmos quebrados e fervorosos fazem desta peça de pouco menos de quatro minutos uma das melhores do disco. “Otherwordly” com os seus pouco mais de treze minutos é o grande épico do disco e também quem finaliza Nebulae. Uma das grandes características dessa faixa é a forma com que ela mostra todos os membros da banda com clareza e trabalhando muito bem. Skene faz uns excelentes vocais principais, como de costume, mas também ouvimos um verso cantado soberbamente por Eltakchi. Na verdade, todos os integrantes colocam sua voz em destaque em algum momento da faixa. A força absoluta do virtuosismo musical da banda nessa peça é incrível, há uma infinidade de linhas principais de teclado e de ambas as guitarras, além de uma seção rítmica que cola tudo com perfeição. O disco chega ao fim por meio de uma narrativa falada sobre teclados etéreos.  

Nebulae não se propõe a ser apenas um álbum de metal progressivo cativante, de grove forte e apelo aos mais entusiastas do gênero, ele também é emocional e musicalmente envolvente, possuindo um dos trabalhos vocais mais dinâmicos que se pode ter em bandas que seguem a mesma linha. O grupo injeta assinaturas de tempo ímpares e camadas intrincadas de instrumentos para criar algumas composições musicais notáveis.  Altamente recomendado. 


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Nebulae

Álbum disponível na discografia de: Hemina

Ano: 2014

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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