Resenha

Gilgamesh

Álbum de Gilgamesh

1975

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

07/01/2022



Para fãs de Hatfield & the North e National Health, ainda que as duas bandas já os tenham entregado tudo e mais um pouco do que será encontrado aqui

Quando falamos de um nome como Gilgamesh, não estamos falando exatamente de uma banda que figura entre as principais da cena de Canterbury, mesmo que o seu líder seja o tecladista Alan Gowen, músico que chegou a tocar com nomes do primeiro escalão do movimento, tais como National Health, Hatfiled and The North e Soft Heap. Mas basta ouvir um pouco deste seu disco de estreia e entender o porquê ser mais justo os colocarem alguns degraus abaixo.  

A banda como um todo é composta por músicos bastante competentes – principalmente Gowen que já havia mostrado sua capacidade de forma colaborativa em muitos outros discos. Mas o que faz desse disco um registro de menos brilho em relação a tantos outros do universo musical de Canterbury da época? Bom, enquanto outras bandas tinham uma leveza ao mesmo tempo que descarregavam rajadas de jazz-fusion, buscando incrementar temperos da música americana da época, Gowen e seus companheiros muitas vezes adicionam elementos melódicos, mas que não são o suficiente para deixar a música com o conteúdo esperado. Apenas não pensem que por isso eu não o considero um disco muito bom.  

O disco abre por meio da suíte de três partes, “One End More / Phil's Little Dance - For Phil Millers Trousers / Worlds Of Zin”. Possui mais de dez minutos de duração, o que faz com que a banda tenha bastante tempo para excursionar pelo típico e selvagem território do experimentalismo da cena de Canterbury. Bastante descontraída, tem no seu foco principal os teclados, guitarra elétrica e uma bateria delicada e discreta. Possui também algumas ocasionais harmonizações de voz – cortesia de Amanda Parsons. Essa forma dinâmica de fazer música é instantaneamente conhecida pelos admiradores de bandas como National Health e Hatfiled and The North. 

“Lady And Friend” começa extremamente tranquila por meio de um violão e teclado como quem deseja colocar o ouvinte em um estado de espirito relaxado, porém, também esteja preparado para uma explosão de guitarra quando menos esperar. Essa peça é um jazz muito interessante que nos seus momentos finais possui um grande aceno ao Focus – principalmente para a guitarra de Jan Akkerman.  

“Notwithstanding” direciona o disco para alguns caminhos ainda mais selvagens de experimentação musical, logo, os fãs mais ferrenhos da cena de Canterbury ficarão extremamente agradecidos pela música entregue aqui. Porém, vale deixar que claro que para os não “vacinados” as coisas podem soar como um passo além do que é agradável.  

“Arriving Twice” é uma peça com pouco mais de um minuto e meio, um registro curto e bastante agradável que serve como um prólogo para a suíte que virá depois. “Island Of Rhodes / Paper Boat - For Doris / As If Your Eyes Were Open” começa com uma linha de baixo bastante simples e repetitiva, mas depois vai se mostrando uma composição de desenvolvimento muito bom. Bateria criativa, alguns teclados múltiplos e dominantes, guitarra que também tem o seu momento de brilho e até mesmo um clavinete tem o seu momento. Uma fusão em constante mudança entre o jazz e o rock.  

“For Absent Friends” é mais uma peça curta de pouco mais de um minuto, dedicada a apenas um suave violão e que novamente serve como uma preparação para a terceira e última suíte do disco. “We Are All / Someone Else's Food / Jamo And Other Boating Disasters - From The Holiday Of The Same Name” é uma música que não traz muitas surpresas – digo isso não de forma pejorativa, mas no sentido de que o nível se mantém -, tratando-se de uma viagem clássica abordo do navio musical da cena de Canterbury. Guitarra e teclado elétrico se revezam como protagonista enquanto um baixo – embora quase sempre simplista – consegue manter todos muito bem unidos em termos de ritmo. No geral, contrariando um pouco o que eu havia dito, aqui pode ser encontrado algo a mais, sendo esta provavelmente a peça em que a banda brilha mais instrumentalmente. “Just C” é uma breve e suave peça solo de piano que apenas encerra o disco de uma forma bastante relaxante.  

Dito tudo isso sobre as faixas do álbum, agora vem a pergunta: Por que eu não coloco este disco entre os grandes da cena? Simplesmente pelo fato de que apesar de ser uma coleção de músicas muito boas, nenhuma no fim das contas pode ser considerada memorável e dificilmente faz com que você se lembre dela ao término da audição do disco. Mesmo notando nitidamente a cena de Canterbury em boa parte do álbum, nota-se também que falta algo. Como falei no início da resenha, fãs de Hatfield and the North e National Health certamente serão os que mais tirarão proveito deste disco – ainda que as duas bandas já os tenham entregado tudo e mais um pouco do que será encontrado aqui.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Gilgamesh

Álbum disponível na discografia de: Gilgamesh

Ano: 1975

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,5 - 1 voto

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