Resenha

Shamblemaths 2

Álbum de Shamblemaths

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

10/12/2021



Um dos discos mais inteligentes e bem planejados que já ouvi

Há cinco anos, dois músicos - o multi-instrumentista Simen Ellingsen e o baixista Erik Husum – entregaram um álbum surpreendente e cheio de estilo de música progressivo. Em 2021, Simen Ellingsen está de volta, mas agora tendo como companheiro Ingvald Vassb – bateria e xilofone. O nome do disco pode não ter muita criatividade, porém, a sua música está mais poderosa do que nunca. Vale ressaltar que além dos dois músicos principais e recorrente em todas as faixas, o álbum ainda conta com uma grande quantidade de convidados.  

Se você gosta de um disco de rock progressivo que parece sempre está caminhando entre uma sonoridade explosiva e linhas sombrias, muito provavelmente você vai querer passar muitas horas ouvindo esse álbum. A maneira com que as nuances se desenvolvem aqui faz com que o ouvinte seja transportado de uma sonoridade 8 para uma 80 em questão de segundos.  

“Måneskygge” inicia o disco com os seus pouco mais de um minuto. Um trabalho simples de flauta, mas ao mesmo tempo forte e que lidera a música enquanto ao fundo um baixo fornece um som bastante encorpado. “Knucklecog” é de onde de fato o álbum vai começar a impressionar. Logo nos seus acordes iniciais é possível ver alguns acenos ao King Crimson, enquanto que a seção rítmica do tema principal de acordes mostra uma boa influência em Van der Graaf Generator. Vale destacar também os belos trabalhos de teclas e trompas, além dos vocais fortes e muito emotivos. Uma grande amostra da sonoridade complexa que o álbum irá apresentar até o fim.  

“D.S.C.H. (Op. 110 String Quartet No. 8 in C Minor, Movements 1-2)“ trata-se de uma releitura da obra clássica do compositor russo Dmitri Shostakovich, uma versão do tipo que me deixou sem palavras em alguns momentos, sendo tocada de maneira muito inteligente e extrema criatividade. Antes da banda entrar por completa, há um dueto entre a voz belíssima da Pia M. Samset em parceria com o mellotron, simplesmente arrepiante. Tudo aqui soa tão desafiador que é difícil descrever em detalhes, digo apenas que escute – de preferência depois de ouvir a versão original de Shostakovich.  

“Lat Kvar Jordisk Skapning Teia Pts. 1-4" começa com a voz serena de Anna Gaustad Nistad, mas logo vai sendo “engolido” por mais alguns ataques instrumentais furiosos da banda, sendo nesse momento influenciado principalmente pela Van der Graaf Generator – principalmente devido ao trabalho de saxofone. Mas a banda de repente se direciona para uma pausa em que piano, xilofone, trompete, violão e sintetizador vão surgindo um após o outro, criando uma espécie de música natalina sombria, até que a banda regressa com seu som mais enérgico antes da peça chegar ao fim.  

“Lat Kvar Jordisk Skapning Teia Pt. 5” começa por meio de uma sonoridade suave de inclinações jazzísticas com baixo e bateria relaxados enquanto teclado e saxofone ao fundo vão se desenhando em uma linha quase hipnótica. Conforme a peça vai avançando, tudo também vai se tornando mais profundo e experimental. Perto dos quatro minutos entram os vocais de Pia M. Samset que mais uma vez é um instrumento brilhante para a construção da faixa. Não tem como deixar de mencionar que há uma grande veia Zeuhl nessa música, onde Magma e Universal Totem Orchestra são os dois nomes que mais a influenciaram.  

“Lat Kvar Jordisk Skapning Teia Pts. 6-8" é sem dúvida a faixa mais diferente e frenética do disco, porém, segue mantendo o seu brilhantismo. O frenesi inicial se transforma em algumas bonitas notas de violão que logo passa a ter um fagote como companhia, além de um piano em seguida. Quando a parte enérgica retorna à música, todos os instrumentos “digladiam-se” em performances arrebatadoras, com destaque para a guitarra e a seção rítmica. “Lat Kvar Jordisk Skapning Teia Pt. 9” começa por meio da voz de Eivor Å Ellingsen – uma criança de apenas seis anos – sobre algumas teclas. Notas de baixo dão um toque mais grave na música, assim como o piano que a deixa mais relaxante.  

“Been And Gone” é uma peça com pouco mais de dois minutos que serve muito bem como uma espécie de interlúdio assombroso. Muito atmosférica, o baixo pouco antes de sua metade é o instrumento que a lidera, mas há também espaço para boas pinceladas de trompa e algumas vozes ao fundo. “This River” mostra algo que eu achava ser impossível, ou seja, eles subirem mais ainda o nível da música, sendo essa também a peça de encerramento. Começa por meio de algumas lindas e solitárias notas de piano antes que Ellingsen passe a acompanhá-lo, tendo em seguida também a voz celestial – e até mesmo emblemática - de Marianne Lonstad, a harmonia maravilhosa segue o fluxo agora com um som de águas e um solo de saxofone extremamente macio. Tudo nessa música parece ter sido planejada para soar perfeito. Conforme vai avançando, a peça também vai ganhando um pouco mais de tensão, até que silencia novamente e o piano inicial regressa, assim como as vozes de Elligsen e Lonstad. Certamente um exercício delicioso e profundamente recompensador de contenção e amplitude que inclui duas apresentações maravilhosamente ternas de vozes masculinas e femininas.  

Certamente não é fácil abandonar todo o conforto proposto por melodias agradáveis e simples para entrar de cabeça em construções musicais perigosas e desafiadoras, porém, não parece ser algo que assuste Simen e Igvald. A dupla conseguiu entregar um disco de sonoridade bastante sofisticada e até mesmo intelectual. É impossível entendê-lo apenas com uma audição. Na verdade, eu o ouvi mais de dez vezes e ainda pareço não o ter entendido bem, mas mesmo assim ele me impressionou do começo ao fim. Sem dúvida alguma um dos álbuns mais inteligentes e bem planejados que ouvi nos últimos tempos.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Shamblemaths 2

Álbum disponível na discografia de: Shamblemaths

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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