Resenha

The Long Division

Álbum de 3RDegree

2012

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

19/11/2021



Um disco com uma coleção enorme de influências, mas ao mesmo tempo, cheio de frescor e ideias únicas

Quando escuto uma banda como a, 3RDegree, vejo um dos caminhos mais agradáveis de apresentar um álbum de progressivo a alguém, pois tudo flui com muita sensibilidade e delicadeza, sem a pompa ou virtuosismo que muitas vezes assustam e entediam pessoas pouco envolvidas com o gênero. A banda une grande musicalidade com ganchos que contagiam, adicionando letras inteligentes e socialmente conscientes, além de uma dose saudável de harmonias vocais deslumbrantes. The Long Division é um disco que consegue divertir desde o início. Vale ressaltar que quando eu falo em uma música acessível, não estou me referindo sobre algo vazio e quase sempre sem graça como o Asia – tive que dar um exemplo -, mas sobre uma música que além de tudo é muito bem desenvolvida e satisfatória.  

“You're Fooling Yourselves” é a faixa ideal para começar o disco, pois ela consegue fundir perfeitamente uma sonoridade complexa com uma mais cativante. Possui uma performance vocal excelente onde o destaque é a maneira com que contrasta os versos e refrãos. A peça também entrega uma linha excelente de guitarra solo, além de um órgão a percolando suavemente ao fundo. Por mais que eu cite dois instrumentos, é um trabalho de grupo completo que faz com que tudo aconteça com maestria.  

“Exit Strategy”, sei que em um disco onde a sua alta qualidade é bastante elevada, mencionar a melhor música é difícil, mas se eu tivesse que responder hoje e agora, certamente seria essa. Os vocais agora são muito mais suaves, enquanto que a banda segue uma batida contagiante, alguns teclados psicodélicos e backing que fortalecem muito bem a voz principal. Aquele tipo de música que carrega consigo uma simplicidade encantadora.  

“The Socio-Economic Petri Dish” começa com alguns gritos que parece vir de algum mercado de ações, mas logo a faixa começa de fato por meio de uns teclados que lideram a peça por alguns instantes, mas sem deixar com que o ouvinte perceba ao fundo uma bateria forte, um trabalho robusto de baixo e guitarra expressiva. Na parte em que os vocais começam pela primeira vez, a faixa já está acontecendo com bastante groove. Inclusive, groove é o que não falta nessa música em meio ao seu arranjo funky/progressivo. Uma verdadeira explosão de ideias.  

“Incoherent Ramblings” possui uma melodia progressiva muito divertida, com algumas passagens de rock mais espacial. Os vocais mais uma vez estão ótimos e mostrando muito sentimento enquanto canta sobre o estado atual da mídia vinte e quatro horas e sobre as cabeças falantes que realmente são apenas "prostitutas linguais talentosas" que dominam as ondas de rádio usando clichês. Há momentos aqui em que é possível notar influência de Beardfish.  

“The Ones To Follow” começa por meio de algumas notas ao violão e vocais e backing vocals que criam um excelente acabamento harmônico. A sonoridade de sinos dá uma roupagem doce à canção enquanto também há uma linha de guitarra cativante. É possível perceber uma boa influência de Steve Howe, assim como algo peculiar, tipo, imaginem se o Steely Dan tivesse uma inclinação maior para o rock progressivo e não para o jazz, pois é, eles soariam exatamente assim.  

“A Work Of Art” começa por meio de alguns acordes de piano elétrico arpejados antes que entre os vocais e os demais instrumentos – que nesse caso incluem um belo trabalho de saxofone. A peça se desenvolve com extrema ternura em uma sequência de notas que criam uma harmonia lindíssima. “Televised” tem início com um piano em que a medida em que a peça se desenvolve, outros sons vão sendo acrescidos. Até que a música se torna mais rápida e nos coloca diante do momento mais pesado do disco, mostrando uma boa influência no som da Discipline. Também pode ser considerada a música mais original do álbum, devido a suas misturas incomuns, porém, sem deixar de ser intrigante.  

“The Millions Of Last Moments” é uma peça instrumental e com pouco mais de dois minutos, também a menor do disco. Bastante emotiva, cria algumas lindas paisagens melancólicas por meio de um belíssimo trabalho de violão no estilo Genesis. “Memetic Pandemic” começa com algumas notas de piano acompanhada somente por uns vocais ao estilo Geddy Lee. O progressivo encontrado nessa peça é melódico, impressionante e envolvente, tendo como um dos seus maiores destaques, as incríveis linhas de baixo – mas longe de ser a única coisa que impressiona. Se eu fosse citar aqui mais alguns nomes de bandas e artistas que influenciaram essa faixa, a lista ficaria longa demais. “A Nihilist's Love Song” é a faixa que encerra o disco. Mais uma peça com lindos vocais em camadas, violão cheio de vida e deslumbrante, além de piano encantador. Com uma enorme carga emocional, tem o melhor refrão de todo o disco e o encerra de maneira brilhante.  

Um disco com uma coleção enorme de influências, mas ao mesmo tempo cheio de frescor e ideias únicas. Talvez o único problema que algumas pessoas podem achar aqui, é o fato de soar um pouco pop demais para quem quer se deparar com um rock progressivo mais característico. Em uma era em que tantas bandas da nova geração do rock progressivo optam por épicos longos e intrincados, além de possuírem solos intermináveis - algo que eu inclusive amo também -, acho no mínimo interessante ver uma banda que escolha dar um passo “para trás”, criando músicas que definem um clima e oferecem grandes e memoráveis melodias, bem como instrumentação nítida e inteligente, porém, em um espaço de tempo mais curto.  


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.



Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaJethro Tull - Stormwatch (1979)

    13/03/2019

  • Image

    ResenhaCastanarc - Journey To The East (1984)

    04/11/2021

  • Image

    ResenhaBo Hansson - Sagan Om Ringen (1970)

    07/05/2021

  • Image

    ResenhaPollen - Pollen (1976)

    01/05/2021

  • Image

    ResenhaPantommind - Shade Of Fate (2005)

    08/06/2020

  • Image

    ResenhaSteve Hackett - Beyond The Shrouded Horizon (2011)

    18/04/2020

  • Image

    ResenhaSteely Dan - Countdown To Ecstasy (1973)

    09/07/2020

  • Image

    ResenhaPain Of Salvation - The Perfect Element: Part I (2000)

    31/07/2020

  • Image

    ResenhaPeter Hammill - Fool's Mate (1971)

    21/04/2020

  • Image

    ResenhaKarfagen - Echoes from within Dragon Island (2019)

    08/11/2019

Visitar a página completa de Tiago Meneses



Sobre o álbum

The Long Division

Álbum disponível na discografia de: 3RDegree

Ano: 2012

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

Avalie

Você conhece esse álbum? Que tal dar a sua nota?

Faça login para avaliar

Visitar a página completa de The Long Division



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.