Resenha

Let Me Be a Ghost

Álbum de Kristoffer Gildenlow

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

11/11/2021



Let Me Be a Ghost é música progressiva feita com excelência

Em uma coisa acho que todos estamos de acordo, quando falamos de Kristoffer Gildenlöw, já imaginamos algum tipo de música obscura e sombria, logo, em seu quarto disco solo, Let Me Be a Ghost, as coisas não poderiam ser diferentes. A sutileza com que tudo se desenvolve, impede que este seja classificado como um disco de rock – ainda que tenha alguns momentos do gênero -, mas algo muito mais dentro de uma linha musical atmosférica, ambiental e misteriosa, além de baladas ou experiências cerebrais lentas. O disco se destaca também pela voz pesada e carregada de emoção de Kristoffer, que combina perfeitamente com a carga instrumental criada.  

“Let Me Be a Ghost - Pt. I”, como já era de se esperar, começa o disco por meio de uma aura atmosférica profunda e minimalista. Os vocais de Kristoffer são carregados e em tonalidades obscuras. Antes de chegar ao fim, a peça ainda eleva o volume da instrumentação. “The Wind” é uma faixa evocativa e carrega com ela um dos momentos mais rítmicos do disco, mas não antes de ter um começo melancólico por meio de um piano misterioso e quase que solitário. O acréscimo dos vocais de Ronja Gildenlöw  foi a cereja do bolo.  

“Blame It All on Me” inicia com um belo seguimento de violão. Impressionante como apesar de sentir um certo pessimismo nessa música - até porque isso é o normal no disco inteiro -, ela também consegue acertar o ouvinte em cheio com um belo cruzado de autenticidade e ternura. “Falling Floating Sinking” mantem o disco em um clima taciturno, começando com um arranjo que ao mesmo tempo que soa obscuro, parece trazer um pouco de esperança. Podemos dividir a peça em duas partes, onde a segunda é mais pesada e carrega com ela uma percussão tribal que a edifica.  

“Fleeting Thought” começa por meio de um riff cristalino que logo ganha a companhia sutil de uma seção rítmica dócil. Assim como todos os outros momentos até aqui, a peça soa introspetiva e terna, ao mesmo que se mantém sombria e frágil. Vale destacar o belíssimo solo de guitarra – cortesia de Marcel Singor. “Fade Away” mantem o disco em uma linha de composição delicadamente leve e serena. Não é difícil perceber aqui uma boa influência na música de Mike Oldfield. A voz melancólica de Kristoffer é muito bem amparada por alguns efeitos ao fundo, algo que faz com que aumente a sensação de angustia. 

“Don't” entrega algo bastante curioso para o ouvinte, pois ao mesmo tempo em que fornece a leveza e suavidade da música flamenca, o faz dentro de uma atmosfera surpreendentemente obscura e sombria – algo nada comum dentro do estilo. “Lean on Me” começa por meio de algumas notas de guitarra enquanto acontece um lindo emparelhamento da voz de Kristoffer com a de Erna auf der Haar. Bastante intensa e de guitarra celestial, além de taciturna, sem dúvida é outro dos momentos mais lindos do disco.  

“Let Me Be a Ghost - Pt. II”, após a introdução por meio de uma atmosfera de tom misterioso, algumas notas de piano são acrescidas e logo depois seguidas por uma guitarra melancólica. Tudo é lindo e agradável, mas sempre mantendo a linha carrancuda do álbum. “Still Enough” é uma espécie de marcha fúnebre e hipnótica, onde os vocais de Kristoffer adicionam ainda mais um ar de tristeza à peça. A seção rítmica é discreta – com o baixo tendo um leve destaque em determinado ponto -, mas funciona muito bem.  

“Where I Ought to Be” traz com ela uma introdução no violão de nylon e que logo em seguida é acompanhado pelo vocal – que serão os únicos da faixa. O clima criado a partir daí é emocional baseado em uma sonoridade que se encontra entre o folk e o country – sempre sem deixar de lado a linha musical cheia de angustia e melancolia. “Let Me Be a Ghost - Pt. III” é a terceira e última parte da faixa título. Certamente, se pudéssemos transformar uma música em depressão, muito provavelmente que ela soaria assim. A banda então entra toda junta e de forma enérgica, sendo esse o único momento do disco em que fazem isso, mas mesmo assim, sem perder a sua angustia melancólica e paixão sombria. “Look at Me Now” é a faixa que encerra o disco. Emocional e profunda, traz uma sonoridade de atmosfera serena que nos remete ao final de The Wall, sendo até mesmo a interpretação de Kristoffer parecida com a de Waters. 

Este é daqueles tipos de álbum em que existe uma boa chance de ser ignorado por conta de um eminente risco de monotonia, porém, peço a todos que deem uma chance a ele, pois se trata de uma verdadeira joia. Cada vez que você o ouvir, ele pode surpreendê-lo de uma maneira diferente, ainda que sempre dentro do seu modo sincero, dolorosamente melancólico e sombriamente pessoal de soar. Vale destacar também, que liricamente possui temas contrastantes sobre desistir ou seguir em frente, cair ou permanecer forte e escolher entre a vida ou a morte. Let Me Be a Ghost é música progressiva feita com excelência. 


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1 comentário:

user

André Luiz Paiz 12/11/2021

Webmaster

12/11/2021

É um belo disco mesmo, boa dica. Impressionante como o Kristoffer Gildenlow conseguiu sair da sombra do irmão e percorrer seu próprio trajeto.

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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Let Me Be a Ghost

Álbum disponível na discografia de: Kristoffer Gildenlow

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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