Resenha

Atom Heart Mother

Álbum de Pink Floyd

1970

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

18/04/2018



Uma banda começando a desenvolver seu som para atingir caminhos excepcionais.

Atom Heart Mother foi produzido durante o fim do período mais experimental do Pink Floyd, que marcou a transição entre o seu som originalmente psicodélico para algo mais contido e conciso. Certamente que se trata de um item bastante interessante e valioso na discografia da banda, e não é apenas pela sua capa emblemática trazendo uma vaca. A faixa título possui quase vinte e quatro minutos combinados entre as habilidades instrumentais da banda e uma roupagem orquestral criada por Ron Geesin. 

Apesar de inúmeras bandas terem aderido à ideia de misturar suas músicas à sinfonia anos mais tarde para que elas ganhassem um tratamento clássico, o Pink Floyd foi sem dúvida um dos primeiros a combinar esses elementos e criou o que para muitos fãs é uma obra-prima, já para outros, uma perda de tempo. Mas a realidade é que se trata de um disco que pode ser ouvido sem a necessidade de exercer uma opinião extrema. 

O disco começa com a faixa título, o maior motivo pelo qual a banda detesta este disco. Mas nunca consegui entender bem o motivo pra esse ódio, se trata de uma peça maravilhosamente atmosférica, extremamente psíquica envolvendo coro, orquestra e banda em um trabalho verdadeiramente progressivo que se estende por várias seções que evoluem lentamente, infiltrando no cérebro do ouvinte de maneira a deixa-lo em uma espécie de inação espiritual. Um excelente teclado com um violino sombrio define o clima, as linhas de baixo de Roger Waters são bem simples, mas bastante eficaz, existe uma abundância de guitarra característica de Gilmour, o uso de instrumentos orquestrais e o coro dão a música uma sensação clássica, embora as vocalizações de coral convencionais deem lugar a cânticos semelhantes a Maori. A faixa então muda de humor, variando do seu ar depressivo a uma levada com mais groove e descontraída. Claro que a banda também não deixaria de usar dos seus artefatos que são tão conhecidos como efeitos sonoros reminiscentes de uma caverna assustadora. Enxergar essa peça como algo ambicioso e pretensioso é bastante normal, mas creio que a banda conseguiu o que queria. Por isso continuo sem entender o porquê deles não gostarem muito do resultado obtido. 

“If” provavelmente seja a faixa mais fraca do álbum, mas mesmo assim é um bom e relaxante começo para a segundo metade do disco. Talvez essa tranquilidade no final das contas fosse necessária depois da caótica e majestosa faixa título. A instrumentação consiste principalmente em acordes quebrados tocados por Waters ao violão enquanto Gilmour completa a música com linhas na guitarra elétrica. Uma boa música, mas nada demais. 

“Summer '68” possui um dos pianos mais forte de Wright, sendo bastante bonito, dramático e consistente durante toda a faixa. Ele também é quem lidera os vocais. A faixa começa com uma melodia suave e modesta, mas ganha mais desenvoltura a partir do primeiro refrão e permanece forte através das seções mais dominadas pelo violão e também pelos metais. A letra desdenhosa e aparentemente amarga parece ser sobre uma aventura casual ou uma groupie, pra mim, ela parece estar um pouco em desacordo com a instrumentação, mas de qualquer forma, é uma grande música. 

“Fat Old Sun” é anunciada por alguns sinos suaves, a princípio faz lembrar um pouco de “If” por também ser agradável em uma cadencia “preguiçosa”. Gilmour passou a usar ela em seus shows da turnê do disco On na Island e nunca mais a deixou de lado. Os vocais de Gilmour são excelentes, melódico e relaxante, tem como grande desfecho um solo de guitarra simplesmente maravilhoso. 

“Alan's Psychedelic Breakfast” é sem dúvida a peça mais vanguardista e clássica do disco. Ela apresenta o som de um homem (Alan Styles, roadie da banda e falecido em 2011) cozinhando o seu café da manhã e seus pensamentos sobre o assunto. Basicamente não apresenta nenhum elemento de rock. Dividida em três seções, a primeira é ‘Rise And Shine’, uma passagem dominada por um piano melódico, depois é a vez de ‘Sunny Side Up’ que consiste em alguns maravilhosos violões tocados por David Gilmour, ‘Morning Glory’ é a seção final, um esforço satisfatório de toda a banda até que o álbum termina com o pingar de uma torneira. 

Atom Heart Mother não se trata de um dos maiores feitos do Pink Floyd, mostra ser claramente uma experiência e não parece ter sido pensado igual a discos que estariam por vir, o foco maior certamente está na faixa título, mas mesmo assim é um disco muito bom, não digo que essencial, mas um bom item. 


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1 comentário:

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gabrielsbl 04/11/2021

04/11/2021

Sobre a questão de você não entender o motivo não gostarem do disco, imagino que foi meio complicado gravar isso aí. Colocar isso num rolo de fita, fazer edição, deve ter sido muito complicado. Com takes longos que não permitem erros. Mas da pra ouvir umas escorregadas de edição, alguns de volumes diferentes, ficam uns instrumentos sumindo... Muito embora eu ache que isso se incorporou bem ao que conhecemos desse disco, ouvintes menos curiosos nem percebem, e pra mim, como eu já disse, isso faz parte do registro, talvez pra eles não. Acredito que o aspecto perfeccionista dos integrantes e toda a produção não tenha agradado de cheio o a realização pessoal, mas para a gravadora e pro público foi um sucesso enorme! Acredito que eles tem outras expectativas nesse ambiente excêntrico que é o Pink Floyd e suas músicas elaboradíssimas! Um abraço!

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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Atom Heart Mother

Álbum disponível na discografia de: Pink Floyd

Ano: 1970

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,25 - 20 votos

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