Resenha

Random Acts of Beauty

Álbum de David Minasian

2010

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

06/11/2021



Um disco de rock progressivo sinfônico, onde o maior foco é a criação de lindos arranjos que têm substância e poder emotivo

Desde quando ouvi Random Acts of Beauty pela primeira vez, eu senti que não estava diante de um disco qualquer, sua música não apenas me agradou, mas tocou a minha alma e fez com que eu me sentisse melhor comigo mesmo e com o mundo ao meu redor. Ouvir esse disco passou a ser até mesmo terapêutico. Um rock progressivo sinfônico que possui uma grande ênfase em temas ricos apresentados em camadas, além de serem distintamente harmônicos e muito melódicos. Random Acts of Beauty é uma excelente expressão musical particular de David, onde, embora não seja exatamente aventureira ou desafiadora, consegue entregar um trabalho de excelência ao ouvinte, em especial aqueles em que tem bandas do calibre de Pink Floyd, Camel e Moody Blues como algumas de suas preferidas.  

“Masquerade” é a música que abre o disco, sendo uma verdadeira obra-prima de imagens auditivas. Segundo o próprio David, uma leve inspiração para a criação desta música foi “Land of Make Believe” do Moody Blue. Os vocais reflexivos soam parecidos com os de Justin Hayward. São mais de doze minutos de um grande feito de rock progressivo sinfônico moderno, com pianos executados de forma perfeita e notas de mellotron lindamente atmosféricas. Andy Latimer, amigo de longa data de David, faz uma participação de luxo, incrementando solos e linhas maravilhosas de guitarra, fazendo com que a peça eleve e muito o seu clima obscuro. Também há um solo de sintetizadores que pincela a paisagem sonora com cores sombrias ao mesmo tempo que edificam e tocam a alma do ouvinte. Uma mudança de ritmo após uma entrada minimalista de piano a direciona para uma batida mais rápida, em que o baixo aparece com uma clareza que até então não havia acontecido. Uma peça de toques dramáticos de tirar o fôlego e que faz com que o disco comece de forma esplendorosa.  

“Chambermaid” é bastante melancólica e provavelmente a com mais influência em Moody Blues no disco. Adoro a entrega vocal suave, os teclados oníricos, além dos trabalhos de violão e guitarras. Há um interlúdio bem no meio da faixa que a direciona para um clima taciturno, mas não demora muito para que ela regresse para o tema central. Adoro a atmosfera dessa música e a maneira com que David conseguiu dar tanta vida para ela. “Storming The Castle” é uma peça instrumental poderosa e ao mesmo tempo delicada. Um piano belíssimo e alguns sopros com toques medievais iniciam a música. Antes da metade, a faixa ganha um novo ritmo, mais acelerado, pesado e diferente de todo o ambiente criado anteriormente, onde em relação a aguitarra, pode haver comparação até mesmo com algo do Black Sabbath. Solo de sintetizador também abrilhantam a peça. Novamente, mais do que uma simples e agradável experiência auditiva, uma completa emersão na aura musical criada por David. 

“Blue Rain” é mais uma faixa de beleza dolorosa. Uma bela e solitária melodia de piano inicia a peça, sendo em seguida acompanhada por alguns sopros antes que os primeiros e comoventes vocais em camadas entrem em cena e tragam com eles letras reflexiva e de beleza poética. Oboés, piano, cravo e solos de guitarras impressionantes – bastante influenciados por David Gilmour -, criam um verdadeiro esplendor sonoro sem erros, uma combinação sonora capaz de entorpecer os nossos sentidos.  

A ambiciosa “Frozen In Time” com os seus mais de quatorze minutos de duração é a maior faixa do álbum. Uma peça instrumental que abre com uma longa “conversa” entre teclado e guitarra que se revezam como instrumento central por cima de uma sólida seção rítmica. Possui uma grande variação de humor e utilização de instrumentos que vão desde alaúde à flauta, clarinete à corneta e órgãos de igreja que são adicionados criando uma autoridade progressiva sinfônica completa. Um violão desfila pela peça de forma quase que solitária até que há uma explosão instrumental, com tudo acontecendo agora dentro de uma melodia fortíssima, é como se durante um dia lindo no campo, as nuvens se unissem de repente e trouxessem uma tempestade, porém, já dizia o ditado, “depois da tempestade vem a bonança”. Piano, violão e flautas de sintetizadores suavizam a faixa trazendo uma sensação arejada com algumas nuances delicadas dos teclados em camadas. Uma cachoeira de guitarra também começa a jorrar e mantém o fluxo musical, até que bateria e baixo regressam para o último minuto de música. Uma peça instrumental sinfônica simplesmente acachapante.  

“Summer's End” começa por meio algumas notas delicadas de piano e violão. Mais uma vez as vocais multicamadas dão um ar doloroso à faixa. Entrega em seguida uma guitarra solo profundamente triste e uma melodia de sintetizador simplesmente maravilhosa. Violão e piano se fundem novamente, agora junto de um mellotron transparente e sintetizadores grandiosos. A música vai se alternando nesses dois climas, onde mesmo parecendo estar saturada de tristeza, também consegue injetar uma atmosfera de esperança, como se raios de luz atravessassem esporadicamente nuvens escuras. Mais um momento de grande beleza no disco. “Dark Waters”, se tudo foi excelente até aqui, a última faixa do disco não seria diferente. Começa por meio de uma “conversa” amigável entre piano, sintetizador e clarinete, antes que baixo, bateria e uma guitarra pesada incorporem à música uma fúria rítmica, mas que logo regressa a uma sonoridade tranquila. O peso volta mais uma vez antes que a faixa termine por meio de um piano minimalista. Um final de disco de sonoridade pacífica e onírica.  

Um disco de rock progressivo sinfônico, onde o maior foco é a criação de lindos arranjos que têm substância e poder emotivo. Uma obra de arte que se encontra em meio a um casulo de harmonia suave e quente, sendo assim, uma coleção de faixas fáceis de se ouvir e relaxar. Se você quer ir de encontro a uma música progressiva, mas ao mesmo tempo não se interessa por complexidades, este disco foi feito principalmente para você.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Random Acts of Beauty

Álbum disponível na discografia de: David Minasian

Ano: 2010

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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