Resenha

A View From The Top Of The World

Álbum de Dream Theater

2021

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

21/10/2021



A ideia não é apenas ser prolífico, mas continuar entregando algo relevante

Um novo disco do Dream Theater nunca é apenas só mais um disco do Dream Theater, trata-se de um grande acontecimento em que ninguém parece ficar indiferente. Os seus fãs - sem dúvida alguma uns dos mais devotos em relação a sua banda do coração -, veem o acontecimento como algo quase sacro. Em contrapartida, por algum motivo que não consigo entender muito bem, pessoas que falam a anos não suportar a banda, também escutam seus discos logo após o lançamento, unicamente pra mais uma vez repetir a mesma coisa que vem falando a muito tempo. É como se a grandeza que a banda atingiu os incomodassem.  

Como costuma acontecer com a banda a um bom tempo, este é um daqueles álbuns em que você tem que sentar e ouvir mais de uma vez e sem pressa para que toda a mágica seja feita – embora eu não queira fazer disso uma regra, você pode simplesmente não gostar, sem problema. O Dream Theater é uma banda de excelência do metal progressivo, sendo assim, as avaliações em relação a ela tendem ser mais duras, sempre a comparando com o seu próprio legado. A banda nunca está a salvo, às vezes acusada de estar somente se repetindo e soando como a álbuns anteriores, em outros momentos tida como uma banda que dá sinais de cansaço a tempos. Mas real é que por meio do seu A View From The Top Of The World eles estão de volta e em grande forma.  

“The Alien” foi o primeiro single lançado e a faixa que abre o disco, estando em todas as plataformas digitais a cerca de três meses. Ao ouvi-la pela primeira vez, fez com que eu tivesse um bom pressentimento em relação a tudo que o álbum entregaria. Possui um trabalho de bateria excelente e criativo, guitarra nervosa tanto na base quanto no seu momento solo, baixo bastante perceptível – algo que muitos sentiam falta a tempos -, bons teclados – embora meio previsível - e um James cantando com bastante segurança. Teria como eu querer algo mais que isso a essa altura do campeonato? Acho que não.  

“Answering The Call” mantem o disco em uma alta voltagem incrível, com todos os instrumentos se “digladiando” ao mesmo tempo em que lutam por um propósito comum, entregar uma peça bastante cativante. A música possui um bom groove em sua base. A guitarra e o teclado na parte solo desfilam freneticamente em uma demonstração incrível - como de costume – de pura habilidade, sendo isso feito por cima de uma seção rítmica matadora. E em meio a tudo isso os vocais do Labrie conseguem brilhar tanto nos versos quanto nos refrãos.  

“Invisible Monster” foi o segundo single oficial do álbum. Assim como a banda já havia feito em singles anteriores, aqui eles conseguem produzir uma peça de fácil assimilação por meio de refrãos robustos e uma linha melódica que ao mesmo tempo que se desenvolve de maneira circular, também consegue seduzir o ouvinte. Muito melódica, foi um dos momentos do disco que não me pegou inicialmente, mas com outras audições, mesmo eu ainda achando que lhe falta algo, consegui apreciar mais.  

“Sleeping Giant” começa por meio de algumas notas de teclados que parecem ser tocadas ao longe, então que Petrucci introduz alguns riffs de guitarra e o restante da banda o acompanha logo em seguida. Muito peso e energia é entregue até por volta dos seus 1:45, quando a cadencia da peça cai para algo mais sombrio e sinistro. Após um solo melódico de guitarra a banda entra em uma de suas clássicas passagens instrumental com direito até mesmo a um piano no melhor estilo ragtime e que me fez voltar um pouco lá em “The Dance of Eternity”. São pouco mais de dez minutos, mas ainda acho que eles poderiam ter esticado e deixado ela ainda melhor do que já é.  

“Transcending Time” logo no seu começo já podemos pensar, “eis aqui a balada do disco, o momento alto astral”, porém, apesar de ter o seu ar de balada, também possui uma seção mais carrancuda – no solo central de guitarra pra ser mais específico. Mas a aura principal da música é de fato em uma linha mais edificante e alegre sem ser cafona. Com uma boa influência em Rush, também possui um refrão bem marcante – algo que nem sempre as baladas da banda conseguem ter.  

“Awaken The Master” começa por meio de um riff de guitarra que logo é acompanhado pelo restante da banda, baixo e bateria se interligam extremamente bem e criam uma seção rítmica com ótimo groove e potência enquanto que o teclado ao fundo cria algumas harmonias exaltadas. São quase três minutos de uma introdução intrincada e tecnicamente perfeita. Os vocais melódicos do Labrie estão mais uma vez ótimos. Por volta do segundo terço de música a banda entrega uma de suas seções instrumentais clássicas com direito aos já esperados duetos entre Petrucci e Jordan, enquanto Mangini e Myung seguram as pontas em uma cozinha muito robusta.   

“A View From The Top Of The World” com os seus pouco mais de vinte minutos é o épico que encerra o disco. Uma peça ambiciosa e que entrega um final perfeito de um álbum que já vinha ótimo até aqui. Começa por meio de uma guitarra fade-in, onde logo ganha o acompanhamento de um fundo orquestral seguido por uma seção rítmica enérgica até que o Petrucci faça o seu primeiro solo na música. Por volta dos quase três minutos e meio, os vocais do Labrie entram muito bem na peça. A música então diminui o seu ritmo e entra em uma seção estabelecida pelo baixo do Myung – de certa forma essa parte me lembra um pouco “Trial of Tears”. Então a faixa ganha um ar enérgico onde logo após um breve vocal, a banda entrega um dos seus momentos instrumentais surpreendentes – apesar de curto nesse caso -, com Jordan usando seus sons ressonantes e “bobos” e em seguida Petrucci encerrando essa parte da peça de forma avassaladora. Tudo então fica atmosférico, com apenas uma guitarra solitária que dá um pouco de descanso ao ouvinte, sendo acompanhada primeiramente por um violoncelo sintético e depois também por algumas notas de piano. Toda a banda – incluindo Labrie – agora juntos criam uma harmonia sombria. Petrucci faz mais um solo - bastante emocional -, sendo interrompido pelo vocais de Labrie que logo saem de cena e com isso o solo continua por mais alguns segundos. Então que uma reviravolta direciona a música para uma estrada musical mais pesada e cheia de nuances, com Petrucci e Jordan “estraçalhando” seus instrumentos em solos apocalípticos. Perto dos dezessete minutos, quando a música se prepara para se encaminhar pro seu encerramento, há uma mudança de ritmo e troca de nota que até o momento me arrepiei todas as vezes em que a ouvi. Labrie então canta os seus últimos versos antes do final épico. A banda até aqui nunca havia me decepcionado na criação de peças dessa natureza, e assim segue, pois, “A View From The Top Of The World” é simplesmente incrível.  

Mas e agora? Quais podem ser as considerações finais? Bom, com A View From The Top Of The World a banda se mantem como a principal banda de metal progressivo do mundo – quer os detratores queiram ou não. É nítido que nos seus últimos discos eles não querem apenas se manter prolíficos, mas também querem entregar algo relevante, sendo exatamente isso o que fizeram aqui. Inclusive, apesar de estarmos falando de um gênero meio intimidante ou mesmo maçante na visão de muitos, considero este um disco de certa forma acessível, onde o ouvinte não precisa entender ou reconhecer cada pequeno aspecto do que se passa para poder desfrutar de sua música e se maravilhar com a habilidade instrumental incomparável de cada um desses heróis de seus respectivos instrumentos.  


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

A View From The Top Of The World

Álbum disponível na discografia de: Dream Theater

Ano: 2021

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,25 - 2 votos

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